As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e um
2 DE MARÇO DE 2008
ROSE, VIDA 4
“Luke, tem alguma coisa errada.”
Estou na cozinha, de pé. Minha mão agarra a borda da bancada, no ponto em que o granito preto está lascado. Enfio o dedão naquele vale áspero, pressionando-o ali.
“Luke?”, chamo, mais alto.
Minha cabeça gira e sinto o sangue correr nos ouvidos. Finalmente entendo o que as pessoas querem dizer quando falam isso. Eu me sento no chão, sobre as migalhas e a sujeira das minhas tentativas de fazer o jantar. Meus joelhos formam dois ângulos retos, e o enorme volume no meio do meu corpo está tenso, rígido, de uma forma que não é familiar. Não parece a dureza normal da barriga de grávida com que me acostumei. É algo diferente.
Estou prestes a começar a gritar quando Luke chega do corredor, com os fones de ouvido, perdido no que quer que esteja escutando. Ele me vê no chão e vem correndo.
“A bolsa estourou?”
“Não”, digo. “Acho que não.”
Nossos olhos vão para o ponto entre as minhas pernas, avaliam a calça legging cinza-escura, para ver se está molhada. Não está. Talvez eu só esteja sendo melodramática e não haja nada de errado.
“Acha que chegou a hora?”, Luke pergunta, naquele tom alegre que passei a adorar nos últimos meses, desde que contei a ele da gravidez. O tom que envolve a preocupação em sua voz.
Deixo que me envolva também. Preciso de algum conforto.
Desde o começo da gravidez, a felicidade de Luke se infiltra e se espalha em mim como um remédio de que eu não sabia que precisava. Isso curou nosso casamento. As coisas nunca estiveram melhores.
Quem poderia imaginar que a gravidez pudesse ser a resposta?
Eu tinha certeza de que a chance de que nos destruísse era maior do que a de que nos fizesse felizes.
Então uma dor forte percorre minha barriga inchada, e eu grito.
Um dia, há mais ou menos três meses, Luke chegou mais cedo do trabalho e me pegou de surpresa — eu achava que só ia chegar dali a umas duas horas. Ele entrou e me viu falando com minha barriga. Bom, com a bebê. O que eu vinha fazendo havia um tempo, embora nunca na frente de outra pessoa, muito menos Luke.
Eu costumava chegar da universidade por volta das três, e às vezes cozinhava algo trabalhoso. Naquela tarde, ia fazer um molho que ficava umas três horas no fogo e exigia atenção. Comecei picando os ingredientes que constituíam a base.
“Você sabia que aipo, cenoura, cebola e um pouco de alho deixam praticamente tudo mais gostoso? Um dia, você e a mamãe vão fazer esse molho juntas. Posso pedir pro vovô te fazer um banquinho especial, ou uma escadinha, pra gente conseguir ficar lado a lado na bancada. Aposto que ele vai adorar. Vamos cozinhar juntas, e você vai ficar muito orgulhosa de si mesma quando experimentar o que fez! Minha mãe, sua avó, adora cozinhar, e passou todo esse amor para mim. Agora vou passar pra você.”
Não gosto de bobagem, e odeio como as pessoas ficam sentimentais quando falam com grávidas, sobre como vão se apegar ao bebê, é só esperar e aquela coisa toda. Odeio.
Mas também é verdade que falar com a bebê tinha se tornado a norma quando eu estava sozinha em casa. É tão estranho: você é uma pessoa independente, separada, um indivíduo, mas aí, por um intervalo de quase dez meses, se torna duas pessoas em uma. E não sente de fato isso até começar a notar as mudanças no seu corpo, até que, toda vez que olha para baixo, vê a prova de que tem algo ali, dentro de você. O eu que você conhecia de repente mudou, se expandiu. Quando o bebê começa a se mexer e a chutar, aí você tem certeza: são duas pessoas, e não uma só.
E até que é legal.
Então ali estava eu, batendo papo enquanto cortava a pancetta. Estava no meio de uma frase quando notei o movimento atrás de mim. Parei de falar, larguei a faca e virei. Ali estava Luke, olhando para mim com uma expressão ridícula no rosto.
“Quanto tempo faz que você está aí?”, gritei. Senti as bochechas ficando vermelhas, o sangue queimando o pescoço até as orelhas e a testa. Cerrei os dentes. Tinha sido pega no flagra.
Um sorriso enorme se abriu no rosto dele. “Não muito…”, Luke começou a dizer.
“Não acredito! O que você ouviu?”, falei, ainda gritando.
“Calma, Rose. Por que está tão chateada com isso?”
Fui até o fogão e, com um movimento rápido, cortei o gás da boca sobre a qual estava a frigideira. “Não é certo me espionar.”
Luke começou a rir, com vontade. Fiquei com vontade de bater nele. “Você está brava porque ficou com vergonha. Mas não tem motivo. Eu não estava espionando, só estava ouvindo.”
“Sem a minha permissão.”
“Bom, acho que sim. Desculpa se chateei você. Mas foi tão fofo, Rose, ouvir você falando com o bebê. Fiquei surpreso. Não estava esperando e não consegui me segurar. Queria ouvir o que você estava dizendo. Você sempre faz isso?”
Cerrei as mãos em punho. Tentei respirar fundo para me acalmar. Ainda sentia a pele queimando. A gravidez tinha seus altos e baixos; às vezes eu gostava, mas às vezes me enlouquecia. Como todo mundo sabia que eu não queria ter filhos, agora que ia ter um, me sentia observada. Estava cansada das pessoas se perguntando como eu estava lidando com a gravidez, como se tivessem o direito de julgar, observar, ter uma opinião sobre o meu comportamento. Era um assunto sensível para mim.
“Rose.” A risada de Luke se dissipou. Ele deu um passo para mais perto. Virei para os ingredientes parcialmente picados na tábua. “Fiquei feliz em ouvir você”, disse. “Às vezes, me pergunto se você sente uma ligação com o bebê. Você não costuma demonstrar quando estou por perto, e nunca perguntei nada porque sei que tem sido difícil.”
Luke pôs as mãos nos meus braços e se inclinou para beijar a minha nuca. “Eu te amo. Desculpa ter ficado ouvindo sem a sua permissão. Não vou fazer de novo.”
“Eu faço isso, sim”, admiti. Era incapaz de virar e falar na cara dele, então falei olhando para o fogão, para o alho e o azeite na frigideira. “Eu falo com a bebê”, deixei claro. “O tempo todo. Tá?”
“Tá”, sussurrou Luke. Seus dedos deixaram meus braços.
Eu sabia que devia confiar em Luke. As pessoas à minha volta podiam ser duras, mas Luke era meu porto seguro. A gravidez tinha aliviado as coisas entre nós, e ficávamos mais próximos a cada dia. Ainda assim, eu não conseguia encará-lo, por isso olhei para a esquerda, para a pancetta que estava cortando em cubinhos. “Fiquei acostumada com ela aqui o tempo todo. E tenho certeza de que é ela. Ela é real. Para mim, já é uma pessoa. Não sei como explicar.”
Luke talvez tenha parado de respirar naquela hora.
“E, como é uma pessoa, conto coisas a ela. Mas não quero mais falar sobre isso. Nem quero que conte a ninguém.” O volume da minha voz, que flutuava pelo ar perfumado da cozinha, estava aumentando de novo. “Principalmente os seus pais!”
“Não vou dizer nada a ninguém”, Luke prometeu. “Mas estava falando sério. Você não precisa ter vergonha. Não de mim.”
Mas eu tinha. Se outras pessoas soubessem, zombariam de mim, pensariam: Eu não falei? Tinha certeza de que você ia mudar de ideia quando engravidasse. Olha só a Rose já bancando a mamãe! “É algo muito particular”, foi tudo que eu disse, então voltei a cozinhar.
Mais adiante, toda a resistência sumiu. Luke e eu tínhamos longas e animadas conversas sobre nossa futura filha, descontraídas e cheias de piadas internas. Contávamos histórias à minha barriga de grávida, histórias da nossa família, o que tinha acontecido no trabalho — no dele ou no meu — naquele dia. Ensinei a bebê a cozinhar e a aprovar uma nova pesquisa na universidade. Luke a ensinou a montar um móvel da IKEA. Assistíamos a nossos programas preferidos, passeávamos pelo bairro, íamos a nossos restaurantes favoritos, tudo com ela.
Minha vergonha derreteu.
Transformou-se em felicidade, expectativa. Alegria.
Sangue escorre de mim, escurecendo a legging cinza.
“Ai, meu Deus”, diz Luke. “Ai, meu Deus. Tá, tá, vamos pro hospital. Consegue se levantar?”
Ouço Luke falar, mas ele parece mais longe do que de fato está. Sua voz soa abafada, muito embora seu rosto esteja bem na frente do meu. Por que não o ouço direito? Tudo parece borrado, meus olhos não focam. Mãos invisíveis pressionam o topo da minha cabeça, meus ombros, na direção do chão. Eu me deito de lado e fico ali. Por que tantas mãos me pressionam? De quem são? Só estamos eu e Luke em casa.
“Rose…”
Sinto a madeira lisa e fria contra o rosto.
“Vamos, rápido! Anda! Rose!”
Um milhão de mãos me pressionam, pressionam todo o meu corpo, tentando deixá-lo mais compacto. São tão pesadas. Serão mãos reais? Meu braço é afastado da lateral do meu corpo.
Luke. Ah, é apenas Luke.
Eu o vejo. Por um momento, sinto paz.
Quando volto a abrir os olhos, não enxergo nada. A luz é mais forte que qualquer sol.
“Oi… Onde eu estou? Que horas são?”
Minha cabeça gira. Meu corpo está entorpecido.
“Rose! Ela acordou!”
É a voz de Luke. Mas cadê ele?
“Luke?”
“Estou bem aqui.”
Eu me forço a virar a cabeça. Parece impossível, mas afinal consigo. Ah. Aqui está ele. Bem ao meu lado. “Por que está ajoelhado no chão, Luke? Está chorando?”
“Rose”, é tudo que ele diz. Lágrimas rolam por seu rosto.
Por que não consigo sentir meu corpo?
“Por que não consigo sentir meu corpo?”, pergunto a ele, porque me parece provável que saiba a resposta. Alguém tem que saber. “Estou no hospital?”
Tem algo que não estou lembrando.
Uma enfermeira se aproxima de Luke. Está segurando um bebê. Ele se vira para ela e pega o bebê nos braços.
Minhas pálpebras estão tão pesadas que tenho que fazer força para mantê-las abertas. “A bebê, a bebê. Ela nasceu?” Lembranças passam pela minha mente, devagar, uma a uma. Estou em casa. Sinto dor. Sangue escorre por entre minhas pernas. E então… nada. Uma onda de medo percorre meu corpo. “A bebê está bem? Ela está bem?”
Luke se move, estende os braços para mim, para que eu possa ver a bebê aninhada neles. “Rose, esta é nossa filha. Ela está bem. Está mais do que bem. É perfeita.”
E é mesmo! Vejo seus olhos bem fechados, sua boquinha perfeita e o narizinho mais lindo do universo. Ao mesmo tempo, é como se alguém puxasse meu pé, me distraindo, tentando me puxar para baixo da água. “Oi”, consigo dizer.
Luke começa a chorar.
“Está chorando de alegria?”, pergunto.
Ele não responde.
Eu gostaria que Luke parasse de chorar. “Acho que no fim das contas tiveram que me drogar para o parto, né?”, digo, tentando brincar. Luke e eu tínhamos brigado por causa de toda a questão “parto natural x cesariana e epidural”. Eu dizia que queria ficar inconsciente durante o processo, o que sempre o deixava bravo. Parece que consegui o que queria. Penso em comentar isso, fazer outra piada, mas Luke está tão chateado que me seguro.
Além do mais, o que importa, agora que ela chegou?
“Meus pais estão aqui?”, pergunto. A sala gira. “Quero ver minha mãe.”
“Eles estão a caminho. Já vão chegar, Rose.”
Luke não está me dizendo algo. Eu sei.
Quero a bebê. Nossa filha. “Me deixa ver ela”, digo.
Luke obedece, mudando de posição para que eu possa vê-la melhor. “Que nome vamos dar?”, pergunto. Decidimos que íamos esperar conhecê-la para escolher um nome. Isso, e um pouco de superstição, além do fato de não termos certeza se era um menino ou uma menina, nos impediu de tomar uma decisão.
“Acho que ela devia se chamar Rose”, diz Luke.
“Rose? Isso é ridículo.” Tento rir, mas não consigo. Meu corpo resiste. “Na minha cabeça, o nome dela sempre foi Adelaide. Addie. Meio antiquado, mas…”
“Rose…” Luke começa a dizer alguma coisa, talvez para mim, mas sua voz sai abafada de novo. Ou ele está falando com a bebê, e por isso de repente fica tão difícil entendê-lo?
Naquele momento, quem ou o que quer que estivesse segurando meu pé finalmente consegue pegar direito e puxar com força. Mergulho na água, o que elimina todo o som exterior.
Quando eu tinha seis anos, talvez sete, entrei no mar num momento em que minha mãe não estava prestando atenção. As ondas estavam fortes naquele dia. Uma tempestade havia passado ao largo da costa, agitando o mar, e o sol brilhava tanto que a água parecia um grande clarão. Mergulhei na hora, sem medo, como uma idiota. Meu pai tinha me ensinado a mergulhar quando vinham ondas maiores, e eu achei que soubesse me virar. A primeira onda que veio era maior que qualquer uma que eu já tivesse visto. Eu me agachei, como meu pai havia me ensinado, orgulhosa de mim mesma, mas quando me levantei vi outra, ainda mais alta que a anterior, no encalço dela, avançando na direção da areia. Ela chegou antes que eu pudesse pensar, e de repente me pegou, me puxou para as profundezas. Senti que estava sendo engolida por algo apertado e escuro, forte e feroz. Algo que nunca me soltaria. Mas tive sorte aquele dia, porque de repente minha mãe surgiu, corajosa e destemida, me pegou nos braços e me tirou do mar.
Agora, por um breve momento, venho à tona para respirar, por tempo o bastante para ouvir vozes. “É você, mãe?”, consigo dizer, ou talvez não, porque ninguém parece me ouvir.
“Nós a estamos perdendo”, alguém da equipe médica grita.
“Te amo, Rose. Te amo tanto. Sinto muito”, diz Luke. Não consigo vê-lo, e imagino que deva estar sussurrando no meu ouvido.
Então outra onda vem, maior que as anteriores, e o mundo se apaga, e eu apago com ele, e vou embora.