As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e dois
Parte IV
SAI ROSE, VIDA 4
ENTRA ROSE, VIDAS 6 E 8
Vinte e dois
15 DE AGOSTO DE 2006
ROSE, VIDAS 6 E 8
Luke está de pé, no meu lado da cama. Ele nunca vai para o meu lado da cama. Tem um frasco de vitaminas na mão. E o ergue.
“Você prometeu, Rose”, diz, devagar e sem emoção.
Faço que sim com a cabeça, também devagar. “Prometi”, digo. “Você está certo.”
“Estou?” Meu marido parece surpreso com minha rápida admissão.
Também estou surpresa, mas é verdade. Fiz uma promessa a ele, e não cumpri. Por que não dizer em voz alta? O que tenho a perder? “Sim. Sinto muito.”
Luke se senta na beirada da cama. Se pudesse fotografar a si mesmo, talvez atribuísse à imagem a legenda: Luke, retrato do esposo derrotado. “Por que não está tomando?”
Eu me aproximo e me sento ao lado do meu marido, desse homem que ultimamente parece um desconhecido. “Não sei. Bom, eu sei, mais ou menos. Para começar, me deixam com dor de estômago. Mas acho que o principal motivo é que não quero. Porque, como você sabe, nunca quis ter filhos.”
“Mas você disse…”
“Sim, eu disse que ia tomar as vitaminas.”
“Pensei que isso significava que você estava aberta a tentar.”
“Nunca pensei o mesmo, na verdade.”
Luke vira e revira o frasco nas mãos, o ruído pesado dos comprimidos soltos lá dentro preenchendo o silêncio. O rótulo promete tantas coisas. Ácido fólico! Ferro! A palavra ESSENCIAIS, em letras maiúsculas, aparece mais de uma vez. “Por que você tomaria essas vitaminas se ainda não está aberta a ter filhos?”
“Para te deixar feliz”, eu digo, então volto atrás. É parte da verdade, mas não a verdade toda. “Para que pare de me pressionar.” Cruzo as pernas sobre a colcha branca imaculada, a mais fina, que colocamos na cama durante o verão quente e úmido desta cidade. Sinto falta do cobertor fofinho e generoso que deixamos na cama no inverno, de afundar nele, me sentindo confortável e embalada. “Achei que assim talvez parássemos de brigar. Funcionou por um tempo.”
“Isso é uma briga?”
“Não sei. É?”
Luke vira para mim. Ele puxa os pés para cima e cruza as pernas, de modo que ficamos na mesma posição. “Não quero que seja. Não vamos brigar, tá bom?”
Faço que sim com a cabeça. “Tá bom.” Olhamos um para o outro, incertos. “Então o que fazemos?”
Meu marido dá de ombros, o que faz as mangas curtas de sua camiseta cinza levantarem um pouco, revelando os bíceps fortes, por causa do equipamento fotográfico pesado que está sempre carregando. Fico impressionada ao ver como Luke é atraente, algo que pareço ter esquecido nos últimos meses. Fico com vontade de beijá-lo, de me segurar a seu corpo para equilibrar o meu.
Eu poderia beijá-lo, claro.
Como sua esposa, provavelmente deveria.
Não?
Não é assim que cônjuges atravessam a tensão, as discordâncias, as brigas? Reconciliando-se através do sexo? Luke e eu nunca fomos assim, no entanto, e nunca entendi muito bem o conceito. Não tenho vontade de transar quando brigamos. Na maior parte do tempo, quero atirar coisas, gritar, passar 24 horas inteiras de cara feia.
Mas e se desta vez, só por um tempo, eu parar de pensar, parar de me preocupar, parar de permitir que essa coisa do bebê me impeça de querê-lo? E se eu deixar que o acaso e a biologia decidam meu futuro como mãe ou como não mãe? Se acontecer, aconteceu; se não acontecer, Luke e eu poderemos dizer que tentamos. Eu poderei dizer que tentei, ou, pelo menos, que me abri à possibilidade da maternidade, mas que não deu certo com a gente e a questão foi resolvida, de uma vez por todas.
Seria tão bom poder dizer que tentei.
A possibilidade se estende à minha frente, acenando, sussurrando.
Meu primeiro passo por esse caminho é um gesto, uma única ponta do dedo passando pela pele exposta do braço do meu marido. A isso se segue um salto, quando toco sua bochecha e o beijo — de verdade. Não falamos, não discutimos, não decidimos.
Por ora, acabo cedendo.
É um experimento.