As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e seis
2 DE MAIO DE 2013
ROSE, VIDAS 1 E 2
“Sua mãe não está se sentindo muito bem.”
Meu pai diz isso assim que atendo o telefone. “Pai?”
“Ela não está bem. Estou preocupado.”
Meu pai não é de ficar preocupado. E minha mãe nunca fica doente. Tem uma saúde de ferro.
“Espera um segundo.” Eu me levanto e fecho a porta da minha sala, depois volto a pegar o telefone da mesa. “Como assim, ela não está bem? Está resfriada, gripada ou…”
“Não sei, Rose. Ontem à noite, ela estava se contorcendo de dor, mas não quer ir à médica. Se recusa a deixar que eu a leve. Você conhece sua mãe.” Ele suspira. “É tão teimosa.”
Que nem eu. Eu e minha mãe sempre fomos parecidas nisso. Odeio pensar que minha mãe teimosa e durona está com dor. Fico assustada. “É a primeira vez que acontece?”
Há uma longa pausa. Outro suspiro. “Não.”
“Há quanto tempo está acontecendo, pai?”
“Alguns meses, acho.”
“Pai!” Meu coração acelera no peito. Eu giro a cadeira. Fico olhando para a janela da sala. Os botões cor-de-rosa na árvore lá fora de repente parecem errados, contrastando demais com a preocupação na voz do meu pai, com a ideia de que minha mãe pode estar doente. “Onde ela está agora?”
“Lá em cima, na cama.”
“E você?”
“Sentado no sofá, esperando que ela se sinta melhor, que desça e me diga que está bem. Não estou conseguindo trabalhar.”
“Não deve ser nada”, digo.
“Acho que não”, diz meu pai.
Sinto o coração bater ainda mais forte no peito. Ele martela contra o tecido do vestido. “Já chego aí.”
“Você não tem aula?”
“Tenho, mas não importa. Eu cancelo. Até já.”
“Está bem.” Ele parece aliviado.
“Eu te amo”, digo, e desligo. Já estou com a chave na mão.
Quando chego, meu pai está sentado na sala, com as mãos cruzadas sobre as pernas, olhando para a frente. A princípio, ele não nota minha presença, mas então se vira. Seus olhos estão desvairados.
“Papai”, digo, embora não o chame assim. Só chamava quando era muito mais nova. A expressão em seu rosto me assusta.
“Você precisa convencer sua mãe de que ela tem que ir à médica”, diz ele. “Imediatamente.”
Fico de pé, no meio da sala. De repente, meu pai, que é marceneiro e um homem grande, parece muito pequeno. Entregue. “Mas, se você não conseguiu, por que eu conseguiria?”
Ele balança a cabeça para um lado e para o outro. “Não sei, Rose. Mas ela não está me ouvindo. Pode tentar?”
“Sim, claro.”
“Ela diz que é só dor de estômago. Talvez seja mesmo. Mas ela vem dizendo isso há meses.”
“Talvez seja mesmo”, repito.
“Ela insiste que estou exagerando. Que estou sendo melodramático.”
Meu pai não tem o costume de exagerar nem de ser melodramático, e ambos sabemos disso.
Trocamos um olhar. Queremos que o que ela diz seja verdade, que ele está se preocupando à toa, que está sendo melodramático. Queremos que minha mãe esteja certa em ser teimosa; queremos estar errados, para que minha mãe possa rir de nós e nos dizer depois: “Não falei?”. Essa é uma das coisas que ela mais gosta de fazer, nos dizer que fizemos o maior barulho por nada.
Assinto para meu pai, rápido, com dois movimentos curtos da cabeça.
Vou lá para cima.
Bato de leve à porta. Quase não quero entrar.
“Sim?”
O “sim” soa rouco, cansado. Não soa como minha mãe.
“Mãe? Sou eu.”
“Ah! Rose! Entra!” A voz dela já mudou, recuperando quase toda a sua energia costumeira.
Mas será que ela está encenando? Será que está fingindo para sua única filha que está bem?
Abro a porta. Ela está na cama, com os joelhos recolhidos junto ao peito. Vira para mim e tenta sorrir, fingir que não tem nada de errado, mas então seu rosto se contrai. “Mãe!”
Ela desiste da encenação, deita a cabeça no travesseiro e geme de dor.
Vou para a cama e me sento ao lado dela, com cuidado. “Você não está bem.”
“Estou bem, sim. Vai passar. Sempre passa.”
O quarto está silencioso. Ela nem estava vendo televisão, só estava ali toda encolhida. “Mãe, chega. Papai disse que faz meses que isso está acontecendo.”
“Ele é exagerado.”
“Não é, não, e você sabe disso.”
Minha mãe tenta virar o corpo para me encarar, o que leva algum tempo. Não a impeço, porque sei que vai ignorar o que quer que eu diga. Ela está tremendo, muito embora esteja quente aqui, por isso puxo as cobertas de baixo dela, devagar, com cuidado, e a cubro. Então me posiciono ao lado dela. Minha mãe fecha os olhos, mas sei que não está tentando dormir.
“Mãe, você está me assustando”, sussurro.
“Não se assuste. Só posso me assustar se acontecer alguma coisa com você.”
A resposta dela me faz querer socar o colchão. “Você está sendo tão irritante”, digo, por entre os dentes cerrados.
“Então, me fala da sua vida. Quais as novidades?”
“Não.”
“Por favor.”
“Só se você for à médica.”
“Vamos negociar agora?”
“Sim!”
“Você é tão ruim quanto seu pai.”
“Não somos ruins. Só amamos você e queremos ter certeza de que não há nada de errado. Pare de agir como uma criança.”
Minha mãe bufa. “Falou a criança.”
Não respondo, apenas cruzo os braços e fico sentada ali, esperando que ela tome uma decisão. A decisão certa.
“Tá bom, eu vou à médica.”
Viro para ela. Seus olhos estão fechados de novo. “Vai mesmo?”
“Vou. Mas só se você me contar tudo que está acontecendo com você. Quero todos os detalhes. Não deixe nada de fora.”
“Claro. Conto o que você quiser.”
“E não vá inventar nada, ou é o fim do acordo.”
Rio. Não consigo evitar. Ela abre os olhos, e vejo um vago sorriso neles. É encorajador. “Tá”, eu digo, e pego o celular.
Ela agarra meu braço. “O que está fazendo?”
“Estou ligando para o consultório.”
“Mas, Rose, você disse…”
“Eu conto o que você quiser, mas só depois que marcar um horário.” Solto os dedos dela, depois passo pela agenda até chegar ao nome da médica a que minha mãe vai desde sempre, a mesma a que eu vou desde pequena. Nós a adoramos.
Minha mãe fica quieta, ouvindo enquanto falo com a secretária. Explico o que está acontecendo com ela e digo que preciso de uma consulta o quanto antes. Ele diz que consegue encaixá-la amanhã de manhã, e eu digo que estaremos lá.
Quando desligo, minha mãe começa: “Está saindo com alguém?”.
“Nossa.” Deixo o telefone sobre a mesa de cabeceira e me aproximo um pouco mais dela. “Quer que eu vá direto para a parte boa, hein?”
“Você prometeu que ia me contar tudo. O acordo foi esse, é pegar ou largar. Ainda posso não ir à consulta que você acabou de marcar nesse horário desumano.”
“Tá bom”, digo, e começo a contar da minha vida, ainda que não tenha acontecido muita coisa desde a última vez que nos falamos. Conto sobre os caras com quem saí, histórias que agora são engraçadas; conto que não tenho ninguém especial na minha vida, ainda não, não desde Luke, muito embora faça anos; que dias inteiros se passam sem que eu pense nele, algo que eu nunca achei que seria possível quando nos separamos. Conto à minha mãe que parei de procurar fotos de Luke, Cheryl, a nova esposa dele, e do bebê dos dois na internet, e minha mãe me diz que isso é bom, que é saudável. Ela me diz que eu só preciso ser paciente, que logo terei alguém especial na minha vida, que ela tem certeza disso.
Ao longo da tarde, eu e minha mãe conversamos sem parar, como não conversamos faz tempo. Há momentos em que quase parece que não há nada de errado, que só estou de visita. Mas então lembro por que estou aqui, em um dos últimos dias de aula do semestre, porque consigo ver a dor que minha mãe sente em seu rosto, no modo como curva o corpo, protegendo-o.
Paro de falar quando isso acontece, enquanto ela se mexe, tentando ficar mais confortável. Durante esses momentos de silêncio, fico pensando em como preciso da minha complicada mãe, a única pessoa no mundo que esteve comigo em todos os segundos da minha existência. Em como, depois que Luke me deixou, minha relação com ela mudou. Em como ficamos mais próximas. Mais do que nunca.
“Não posso te perder”, eu digo para ela.
“Não vou a lugar nenhum. Sou sua mãe. Para onde iria?”
Não respondo. Não quero pensar a respeito.
“Você está sempre falando que eu te enlouqueço, Rose”, diz ela.
“É, mas no bom sentido”, retruco.
Ela volta a fechar os olhos. “Lembra quando você era pequena e ficava com medo à noite? Você entrava na cama comigo, bem assim. Eu adorava.”
“Mãe! Você adorava que eu sentisse medo?”
“Não. Eu adorava que você se deitasse comigo.”
“Mas eu vivia te acordando. Dessa parte você não devia gostar.”
Ela levanta o rosto para mim, com os olhos arregalados. “Eu não ligava, Rose. Amava ter você comigo. Amo ter você aqui. Sempre amarei.”