As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 34 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Trinta e três

8 DE ABRIL DE 2015

ROSE, VIDA 6

 

“Vovô, quando você decidiu ser marceneiro?”

Addie está comendo batatas fritas, passando-as pela poça gigante de ketchup no prato. Ela adora ketchup.

“Eu não era muito mais velho que você, nhoquinha”, diz ele. “Tinha uns doze anos. E já sabia que adorava trabalhos manuais.”

Estamos sentados na lanchonete preferida do meu pai, apelidada carinhosamente de Pé-Sujo pelos moradores do bairro em que cresci. Costumamos vir aqui uma vez por mês — meu pai, Addie e eu. Virou uma tradição depois da morte da minha mãe. Nós três formamos um triângulo na mesa, com meu pai e eu no banco de um lado e Addie no outro. Ela tem gostado de ter um banco todo só para ela. Enquanto comemos e conversamos, ouvimos o chiar ocasional de um hambúrguer na chapa atrás de nós, ou os cozinheiros anunciando um pedido pronto para os garçons.

Addie olha para mim, depois pega o frasco alto de ketchup e aperta diretamente sobre a batata que tem nos dedos. Está esperando que eu a mande deixar o ketchup de lado, mas só começo a rir. Ela coloca a batata cheia de ketchup na boca e reinicia o processo.

“Então, vovô”, Addie volta a falar, agora confiante de que não vai levar bronca. “Se você fosse criança, que nem eu, escolheria de novo ser marceneiro?”

Meu pai imita Addie, pegando o frasco que ela lhe passa e apertando até que haja uma linha de ketchup em cima de cada batata que ele come, fazendo-a rir. Os dois ficam olhando para mim como se eu fosse tirar o ketchup deles.

“Fiquem tranquilos”, eu digo. Adoro ver meu pai com Addie. Adoro como ele brinca com ela. Adoro que ele tenha Addie, e não só a mim. É interessante como ter um filho ou um neto pode curar uma pessoa de uma maneira inimaginável. Sempre achamos que uma criança só vai receber, e então, de repente, é ela quem dá, sem nem perceber que o faz. Só existindo.

As luzes fortes da lanchonete destacam as rugas cada vez mais profundas no rosto do meu pai. Tento não notar como ele envelheceu no último ano, mas às vezes é impossível.

“Se o vovô pudesse ser jovem de novo”, ele fala, “com certeza faria faculdade. Talvez eu começasse a trabalhar como marceneiro depois. Mas eu queria ter estudado, mesmo que não seja necessário para o meu trabalho. Como a vovó, a mamãe e o papai.”

A garçonete chega com três milk-shakes e coloca um na frente de cada um de nós. Morango para mim, baunilha com calda de chocolate para meu pai e flocos para Addie. Ela ataca na mesma hora, tentando puxar o líquido denso canudo acima.

Então pergunta: “A vovó fez faculdade?”.

“Fez, sim”, digo. “Ela estudou para ser professora.”

“Mas ela era professora?”

Meu pai mexe o milk-shake com o canudo, tentando dissolvê-lo um pouco mais. “Foi por um tempo, antes de engravidar e ter a sua mãe.”

“Por que ela parou quando você nasceu, mamãe?”

“Porque os tempos eram outros”, expliquei. “Mas também porque ficou tão animada com meu nascimento que queria ficar em casa para cuidar de mim o tempo todo.” As palavras saem antes que eu me dê conta da impressão que podem causar em minha filha.

“Mas você ainda é professora”, diz Addie.

Pronto.

Meu pai enfia uma batatinha no milk-shake, algo que ele adora fazer e me ensinou, apesar de minha mãe achar nojento. “Sua mãe não é só uma professora, ela é doutora. Fez pós-graduação e dá aula na universidade, por isso tem um título diferente. O vovô sempre teve muito, muito orgulho dela por causa disso.”

“Nossa, pai”, eu digo, roubando uma batatinha e mergulhando no milk-shake dele, e não no meu, porque com milk-shake de morango não fica tão bom, na minha opinião. Viro para ele, que está sentado ao meu lado no banco, e faço com a boca, sem produzir nenhum som: Te amo.

Addie continua tentando tomar seu milk-shake, que está grosso demais. “Mas você não fica em casa comigo como a vovó ficava com você, mamãe.”

“Não fico, nhoquinha.”

“Por quê?”

“Porque eu amo meu trabalho, Addie. Amo meu trabalho e amo você, tudo ao mesmo tempo. E vivemos numa época em que as mulheres podem fazer as duas coisas.”

Meu pai fica olhando para Addie. Eu também.

As engrenagens em seu cérebro parecem girar. Ela para de comer batatinha e de tentar beber o milk-shake. A garçonete vem perguntar se precisamos de alguma coisa e dizemos que não, mandando-a embora.

Então Addie pergunta: “O papai pensou em ficar em casa comigo no seu lugar?”.

Meu pai olha para mim, com as sobrancelhas arqueadas.

“Não, Addie”, digo.

Ela continua me avaliando. Quanto mais cresce, mais difícil fica lhe dar respostas vagas. “O papai gosta do trabalho dele do mesmo jeito que você gosta do seu?”

Penso a respeito. “Acho que só ele pode responder essa pergunta, Addie. Mas sei que seu pai adora o que faz, e que é um profissional muito, muito bom.”

Addie assente. “Por isso ele está sempre fora. Porque as pessoas adoram as fotos dele e querem que viaje pra todo lugar pra fotografar.”

“Exatamente”, diz meu pai.

Ou talvez seja porque o casamento dele não anda muito bem. Porque, ainda que a chegada de Addie tenha sido algo maravilhoso, criar uma filha juntos não foi capaz de salvar o relacionamento.

A conversa segue para outros temas, menos complicados: a matéria preferida de Addie na escola, que é história, e um convite do meu pai para irem visitar um museu de história da cidade que ela ainda não conhece, depois mais perguntas sobre a minha mãe e a vida dela, um assunto sobre o qual Addie tem perguntado muito. Ela quer saber se vamos alugar uma casa na praia de novo no verão — provavelmente, meu pai e eu respondemos. Embora seu pai não deva ir este ano, Addie, acrescento mentalmente. As batatinhas e os milk-shakes acabam, pagamos a conta e vamos para a casa do meu pai, para outra parte da tradição mensal que criamos. Talvez a minha preferida.

Meu pai acende todas as luzes da oficina. Eu pego minha cadeira e a coloco onde gosto de ficar. Addie não se junta a mim.

“Põe as luvas”, meu pai diz a ela.

Addie obedece. As luvas são cor-de-rosa, claro. Foi o avô que as encontrou para ela, vai saber onde. “Está quase acabando”, diz ela, orgulhosa.

“Sim, querida.”

Pela hora seguinte, Addie e o avô lixam a escrivaninha que estão fazendo juntos para o quarto dela. Ele a está ensinando a trabalhar com as mãos, como faz todos os dias, e Addie adora. Os dois podem ficar horas entretidos com isso, juntos na oficina, batendo e lixando, sem falar muito, meu pai de vez em quando parando Addie para mostrar o jeito certo de fazer isto ou aquilo, enquanto música toca ao fundo. Às vezes, nós três conversamos, mas em geral fico apenas assistindo.

A mão de Addie para por um momento. Ela olha para o meu pai e pergunta: “Podemos fazer outra coisa depois de terminar a escrivaninha?”.

Meu pai parece radiante. “Claro. O que você quiser!”

“Uma cadeira combinando?”

“Uma cadeira vai ser perfeito.”

“Podemos pintar daquele rosa que a vovó adorava”, diz Addie.

Meu pai e eu nos entreolhamos e rimos, porque na verdade minha mãe só tolerava o rosa forte que Addie tanto ama justamente porque Addie o ama tanto.

“Tenho certeza de que a vovó ia gostar”, meu pai diz a ela.

Antes de voltar a lixar, Addie olha para mim. “Você acha que a vovó ainda consegue ver a gente? Que ela sabe que estamos aqui, falando dela? Que estamos com saudade?”

Penso nas perguntas de Addie. Sei que é um desejo ilusório dizer que minha mãe está aqui, que de alguma forma ela sabe o que estamos fazendo, o quanto a amamos e como sentimos sua falta agora que foi embora. Mas decido que não me importo, porque é um desejo que eu e Addie compartilhamos. Tenho pensado nessas mesmas coisas desde que minha mãe morreu. “Sim, querida”, digo. “Acho, sim.”