As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 17 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Dezesseis

16 DE JULHO DE 2010

ROSE, VIDA 2

 

Barcelona é diferente de todas as cidades que já visitei. Seus bairros medievais parecem circulares, constituindo um labirinto sinuoso de pedra, de ruas estreitas que bloqueiam a luz do sol, de paralelepípedos.

“Rose, é por aqui. Vem!”

Minha tia Frankie me pega pelo braço e me puxa. Ela se move com graciosidade, a barra do vestido raspando no chão conforme avança. “Estou indo, Frankie”, digo, rindo. Frankie tem tanta energia, está tão animada. O céu entre o topo dos prédios é de um tom perfeito de azul, o sol ainda não está a pino, mas brilha forte. O calor no meu rosto, o calor do dia, contribui para a sensação de bem-estar dentro de mim. Estou bem. Me sinto bem. Me sinto viva!

“Rose, olha só pra esse lugar, olha! Não é incrível?”

A rua, que pouco antes era tão estreita que eu quase poderia esticar os dois braços e roçar a ponta dos dedos nas paredes, se alargou e serpenteou até dar em uma espécie de cruzamento, um ponto onde três vias se encontram. Há uma construção triangular aqui, um restaurante no térreo com mesas ao ar livre, lotado. Há clientes na rua, clientes sentados em banquinhos ou de pé às mesas altas do lado de fora. Eles conversam, riem, fazem barulho, enquanto levam taças de vinho tinto, cava ou cerveja aos lábios. Quem bebe água no almoço? Ninguém. Não aqui.

“Ah, vamos sentar ali, naquele lugar vago”, diz Frankie, e corre para lá, colocando a bolsa hippie com franjas sobre o banquinho redondo. Ela ergue uma das mãos para chamar um garçom e fala com ele em catalão perfeito.

“O que você disse?”, pergunto a ela.

Frankie dá uns tapinhas no banco ao seu lado, e eu me sento. “Pedi uma garrafa de vinho tinto, queijo manchego e pimentões salteados. Como aqueles que comemos ontem à noite e você gostou, sabe? Alguns são picantes. E boquerones e bomba!” Seus olhos se iluminam e ela sorri.

“O que é bomba?”

“É o meu petisco favorito, mas só como aqui. É tipo uma bola gigante de purê de batata recheada de carne e frita. Hum, já estou sentindo o gostinho…”

“Purê de batata frito?” Minha barriga já está roncando. A perspectiva de comer essa delícia e a alegria transgressora de beber uma garrafa de vinho às duas da tarde, me deixou morrendo de fome. “Que bom que passamos a manhã inteira caminhando.”

Frankie dá de ombros, ainda sorrindo. “Não consigo acreditar que você finalmente está aqui!” Ela tem dito isso o dia todo.

É agradável se sentir tão querida. Ser amada com um entusiasmo tão declarado. “Nem eu”, digo, porque é verdade. Por que adiei tanto essa viagem? Sempre havia uma desculpa para não vir: eu estava ocupada com a faculdade, depois com a pós, depois ficando noiva e me casando, depois com a minha pesquisa e com as aulas. Sempre deixei que minhas escolhas de vida girassem em torno de trabalho e conferências, não decidia ir a algum lugar e simplesmente ia, só porque eu, Rose, tinha vontade.

Por que precisei me divorciar para perceber isso?

Para me abrir a coisas novas, a escolhas diferentes?

Talvez Luke tenha me feito um favor me traindo. Foi o que ele disse, mas insisti que não era verdade. Eu não queria passar por um divórcio. E estava certa em não querer isso.

O processo de divórcio é o oposto de corrido. É uma espécie de reorganização do tempo e do espaço na vida de uma pessoa, um desatrelamento de responsabilidade, de significado e propósito, de obrigação com o cônjuge. Eu me vi à deriva, sem amarras ou correntes, de uma maneira muito desconcertante. Não conseguia me ancorar em nada ou encontrar no que me agarrar. Por isso, quando Frankie me mandou um e-mail dizendo que Xavi passaria um mês fora no meio das minhas férias de verão, não me permiti pensar muito antes de responder com um retumbante: Sim, eu vou, e fico o tempo que você quiser.

O garçom chega com o vinho, abre a garrafa e enche duas taças gigantes quase até o topo. Depois sorri para Frankie e diz algo em catalão. Os dois riem. Ele é bonito, talvez tenha a minha idade. Então, diz para mim, com sotaque: “O catalão da sua amiga é perfeito”.

“Ela é minha tia, na verdade”, digo.

“Sua tia! Não acredito.” Ele se vira para Frankie, diz algo demorado de uma vez só e vai embora, desviando da multidão, segurando a garrafa aberta acima da cabeça.

“Você sempre fica flertando com os garçons?”, pergunto a Frankie.

Ela dá de ombros. “Ah, eu não estava flertando.”

Olho para ela com ceticismo. “Bom, ele estava flertando com você.”

Ela ergue a taça de vinho. “À sua visita a Barcelona!”

Brindamos. “Obrigada pelo convite. E por não ter desistido de mim.” Olho em volta. O clima animado é contagiante. “Isso é incrível.”

“Falando em ficar de flerte por aí, você é que devia tentar, Rose.”

“Ah, é?”

“É! Com os garçons, com os turistas, com os locais. Está solteira! É divertido!”

Um pratinho de pimentões e um de queijo chegam, trazidos por um garçom diferente. Como um pedaço de queijo, depois outro, depois um pimentão, para colocar algo no estômago antes de beber mais vinho. “Talvez”, eu digo a Frankie, o que a deixa claramente animada. “Não me venha com nenhuma ideia”, aviso, sabendo que Frankie é dessas pessoas capazes de falar com qualquer um. Ela não precisa ser apresentada a alguém para começar uma conversa. Foi assim que conheceu Xavi. Ele estava sentado à mesa ao lado, Frankie o achou bonitinho e começou a conversar com ele. “Está com saudade de Xavi?”, pergunto, mudando de assunto.

“Estou. Amo aquele homem”, diz ela. Enquanto comemos o queijo, os pimentões e a famosa bomba, falamos sobre a viagem de Xavi, a vida deles juntos, a reforma que acabaram de fazer no lindo apartamento em que vivem, no bairro de El Born, com um terraço deslumbrante com vista para uma catedral medieval.

“Quero um banheiro igualzinho ao seu”, comento, pensando no banho delicioso que tomei pela manhã, nas portas de vidro do chão ao teto que se abriam para o terraço. Os únicos vizinhos deles são os pássaros empoleirados no alto da igreja, então por que não tomariam banho à luz do sol todos os dias?

“Você pode ficar com a gente o tempo que quiser, Rose.” Essa é outra coisa que Frankie não para de me dizer.

“É muita sorte meu pai ter uma irmã tão incrível”, digo a ela.

“Ah, Rose!” Frankie pega minha mão sobre a mesa lotada de coisas e a aperta.

Os boquerones chegam. Tomo um belo gole de vinho. Começo a sentir nas pernas aquela fraqueza agradável, aquele suspiro de relaxamento do corpo inteiro. “E cuidado com essa história de eu poder ficar o quanto quiser. Posso acabar levando ao pé da letra.”

“Xavi e eu adoraríamos que ficasse! Pra que temos dois quartos, afinal? Você pode tirar um ano sabático e ficar aqui.”

Rio. Frankie é tão livre. Ela e Xavi viajam bastante, recebem amigos para jantar o tempo todo, têm o tipo de vida com que as pessoas sonham; vivem o tipo de sonho que só se vê nos filmes. “Talvez eu deva fazer isso”, digo. “Por que não? Na verdade, nada me impede de passar um semestre na Europa.” Nenhum Luke me impede, penso, incapaz de impedir meu cérebro de deixar que pensamentos relacionados a ele surjam. Para minha surpresa, a pontada de dor que costumo sentir quando penso nele é fraca. Continua ali, mas perdeu a potência com o tempo.

Frankie ergue sua taça e brindamos de novo. Ela faz questão de olhar nos meus olhos quando diz: “Por que não, Rose?”.

Como outro pimentão enquanto penso. “Sabe, não chorei nem uma vez desde que cheguei. Parece impossível ficar triste nesta cidade.”

A expressão risonha dos olhos de Frankie se abranda um pouco. “Quer falar a respeito?” Sua voz desceu uma oitava.

Quero? Olho para o vinho, ouço os clientes conversando alegremente a nossa volta, a energia parecendo uma proteção contra o que aconteceu. “Bom, você já sabe de tudo.” Foi com Jill e com Frankie que compartilhei todos os detalhes sórdidos da traição de Luke, o fato de que me deixou para ficar com outra mulher, o divórcio. “Cheryl” — não consigo dizer seu nome sem um tom arrogante e sarcástico — “deve estar para ter o bebê.” Cheryl, que está tornando realidade o sonho de Luke de ser pai.

“Ah, querida.” Frankie suspira.

“Eu sei. Às vezes sinto que minha vida é como um filme ruim.” Fecho os olhos, me dando um momento para me recompor. Lembro onde estou, como estou, a diferença em relação àquele primeiro momento, quando Luke finalmente me contou sobre Cheryl, me deixando para sempre logo depois. Lembro que estou em Barcelona, com minha tia Frankie. Volto a respirar normalmente e abro os olhos. “Estou melhor, Frankie, de verdade. Você sabe. Dia a dia. O tempo e tudo o mais.” Ela faz que sim com a cabeça. Mexo na haste da taça. “Luke e tudo que aconteceu parecem muito distantes agora, e quero que continue assim. Bom, teoricamente ele está mesmo muito distante, o que, para ser sincera, é um alívio. Então… vamos mudar de assunto. Antes que eu fique triste apesar de você e de Barcelona.”

Frankie afasta uma mecha de cabelo grisalho comprido do rosto. “Como anda seu pai?”

“Trabalhando muito, como sempre. Ele e minha mãe estão animados, porque vão passar uma semana na praia este verão. Eles adoram a praia.”

“E você também. E eu. Acho que é coisa dos Napolitano.”

Mexo nos pimentões, tentando desenterrar um pequenininho, me perguntando se vai ser picante. “Que nem cozinhar.”

“Ah, acho que isso vem da família da sua mãe.”

“Ela adoraria ouvir você dizendo isso.”

Frankie desce do banquinho e fica de pé ao meu lado. Ela me envolve com os braços num aperto forte, pressionando a bochecha contra a minha. Tento não deixar que as lágrimas venham. “Vejo os dois em você! Seu pai e sua mãe. É uma bela combinação.” Ela me solta e volta a seu lugar, depois pega a taça de novo. “Seus pais estão felizes que você esteja aqui. Em vê-la seguindo em frente com a sua vida.”

Voltamos a brindar, mas dessa vez só molho os lábios no vinho. “Assim vou ficar bêbada, Frankie.”

“Não tem problema ficar um pouquinho alta no almoço”, diz ela.

Olho em volta, para todas as pessoas bebendo, rindo. Ouço o barulho com enorme prazer, sinto a felicidade no meu coração se espalhando pelo corpo, devagar, com delicadeza. Como os boquerones, sinto o gostinho de vinagre, como mais, depois queijo, pimentão, e tomo vinho. O calor do dia, a beleza da cidade, a animação da minha tia, o vinho tinto, redondo e encorpado, descendo pela minha garganta — é difícil não desfrutar de tudo isso. É difícil não ficar feliz em meio a tudo isso, não me sentir para cima, mais aberta para tudo, para todos. Para a própria vida. “Vou ficar bem”, digo, depois de um momento.

Frankie me olha nos olhos de novo, daquele jeito intenso dela, de quando quer dizer algo importante. “Vai, sim, com certeza.”