As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 18 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Dezessete

 

19 DE OUTUBRO DE 2007

ROSE, VIDA 5

 

Estou deitada de costas na cama, olhando para o teto, usando fones enquanto ouço uma playlist. Que Thomas fez para mim.

Estamos agindo como adolescentes. Desde nosso primeiro encontro no restaurante, só nos vimos duas vezes, mas nesse meio-tempo trocamos e-mails longos e sinceros. Escrevo um e-mail por dia para ele, que me escreve um e-mail por dia também. Faço isso na minha sala, depois de dar aula. Sento-me diante do computador e digito minha história de vida para Thomas, respondo às perguntas de seu último e-mail e pergunto o que quero saber sobre ele.

A princípio, era como que um prêmio de consolação por nos vermos tão pouco, pela dificuldade de dar um jeito de nos encontrarmos pessoalmente. Luke é como um pai que preciso tapear. Fico abrindo o laptop o dia todo, apertando obsessivamente o botão para verificar a chegada de novos e-mails. Clique, clique, clique. Faço isso com tanta frequência que tive que dizer a Luke que estava esperando notícias sobre a bolsa de pesquisa, depois sobre o conselho da universidade, depois para descobrir se um artigo meu havia sido aceito para publicação. A espera diária por um sinal de Thomas é enlouquecedora, até o momento, o segundo, em que essa necessidade crescente em mim é satisfeita e o nome dele aparece no topo da minha caixa de entrada. Nossos e-mails ficam cada vez mais longos, mais íntimos, mais intensos.

Adoro isso.

Adoro ser a Rose adolescente de novo. É como se tivesse a chance de recomeçar, percorrer outro caminho com outra pessoa. Posso fingir que a vida real com Luke não está acontecendo comigo. Que não fiz as escolhas que me levaram a ser uma mulher casada, grávida dele.

De repente, um fone é arrancado do meu ouvido, e eu me assusto.

“Rose.”

Surpresa! É Luke, que chegou mais cedo.

“O que está ouvindo?”, ele pergunta, me olhando de um jeito estranho.

Eu me sento na cama e tiro o outro fone. “Nada de mais.”

“É mesmo? Porque você estava de olhos fechados e com um sorriso bobo no rosto.”

“Estava?”

Sim, eu estava. Sei disso. Começo a enrolar o fone de ouvido. Sinto que fui pega no flagra. A culpa toma conta de mim. Minhas bochechas queimam. Será que Luke enxerga? Será que ele nota?

Então ele diz: “Vamos”.

“Oi?”

“Temos consulta.” Ele arqueia as sobrancelhas. “O bebê.”

“Ah, é. Esqueci.”

Rá! Até parece. Como poderia ter esquecido, se passo mal o tempo todo? Se meus seios doem sem parar? Se a gravidez está adiantada o bastante para a barriga começar a aparecer? Mas não tanto que eu tenha precisado contar às pessoas. Não tanto que eu tenha precisado contar a Thomas. Quero preservar o que tenho com ele por um pouco mais de tempo, esse lugar onde ainda sou apenas Rose, a professora sexy e divertida com quem ele está envolvido, e não Rose, a mulher grávida, futura mãe, que vai ficar enorme por causa do bebê.

Luke solta um suspiro longo e pesado. Ele cruza os braços, impaciente, de cara feia.

Já não sinto mais culpa.

Duas noites depois, Thomas e eu estamos de mãos dadas, passeando na rua.

“Não quero que você vá para casa ainda”, diz ele.

É tarde e está escuro. A escuridão parece uma cobertura, parece segura, como se ninguém pudesse nos ver. Somos duas crianças que acreditam que colocar uma manta sobre a cabeça basta para que ninguém saiba que estamos ali. Sei que é arriscado, que Thomas e eu poderíamos encontrar conhecidos a qualquer momento. Um amigo de Luke, uma amiga minha. Não contei a ninguém sobre ele. Nem a Denise, nem a Raya, nem mesmo a Jill.

“Também não quero ir para casa”, digo, porque lá serei lembrada da realidade da minha vida. É tão fácil esquecer quando estou com Thomas.

Acabamos de sair de um longo e agradável jantar, no qual conversamos sem parar sobre nossa vida, nosso passado, por que ele continua solteiro e eu não, a irmã mais nova que ele adora, como ele cresceu perto da montanha, mas depois de adulto prefere a praia, como eu, seu trabalho como professor de sociologia, que se parece com o meu, mas também é totalmente diferente. Thomas estuda dependentes e dependência, as circunstâncias que levam ao vício, os vários tipos de programas de reabilitação que existem para ajudar, as pessoas que cuidam deles.

“Então acho que não vou para casa”, digo a ele. “Ainda não.”

“Mas não estão te esperando?”

Thomas nunca fala em Luke, não diretamente. Tampouco digo o nome do meu marido com ele. Não porque tenhamos decidido isso, é apenas algo que fazemos.

“Posso ficar um pouco mais”, digo.

O que não digo a Thomas é que Luke está em Boston, para uma sessão de fotos. Que, antes da minha gravidez, costumava fazer viagens a trabalho o tempo todo, mas, agora que estou grávida, praticamente não viaja mais, o que me deixa maluca. Que eu estava ansiosa para que ele fosse a Boston precisamente porque isso me permitiria sair para jantar com Thomas, sem pressa. Que, teoricamente, eu poderia ficar fora até o dia seguinte, se quisesse, porque ninguém saberia.

Mas eu quero isso?

Sim. Não. Não sei.

“Quanto tempo você tem?”, Thomas pergunta.

“Um tempinho”, digo, vaga.

A ciência do que posso fazer, do que nós podemos fazer, se eu compartilhar essa informação, é o que me impede de admitir que Luke está viajando.

Thomas e eu não dormimos juntos. Ainda não. Penso nisso quase o tempo todo desde a primeira vez que saímos, mas há algo de assustador em dar esse passo. É como se, parando no beijo, parando nas poucas vezes em que nos agarramos em cantos escuros de bares, eu não estivesse de fato tendo um caso. É como se, de alguma forma, isso significasse que eu, Rose, não estou fazendo isso de verdade, que posso voltar atrás. Mas, se Thomas e eu cruzarmos essa linha, se eu deixar que as coisas sigam adiante, será o fim. Não vou ter como negar que é real.

Começa a chover. Thomas me puxa para baixo do toldo do prédio mais próximo. Sinto sua malha macia contra meu braço. Ele cheira a cedro, a madeira e angélica.

“Eu ia sugerir dar uma volta no parque”, diz Thomas. “Mas talvez não seja uma boa ideia.” Ele estende a mão para fora do toldo. Pingos de chuva tocam sua palma. “Podemos tomar um café.”

“Podemos”, digo.

Eu o abraço, pressionando a bochecha contra seu peito, inalando seu cheiro. Quando levanto o rosto, Thomas está olhando para mim de um jeito que sempre me deixa louca — de desejo, de vontade. Levo uma das mãos à nuca dele e o puxo para mais perto. O beijo é longo e íntimo. A rua estreita em que estamos está tranquila, vazia. Só se ouve o barulho da chuva. Quando saíamos dali, não consigo deixar de me preocupar com o fato de que estamos em público. Olho em volta, examino as calçadas.

“Ou então podemos ir pra sua casa”, sugiro. Meu coração dispara em expectativa, de ansiedade. O que estou fazendo?

“Podemos.” Thomas parece surpreso.

“Se você quiser”, digo.

“Eu quero”, diz ele.

Thomas destranca e abre a porta, depois acende a luz.

Já me peguei imaginando como seria a casa dele. Será que ele mantinha tudo limpo e arrumado? Será que era uma bagunça? Será que suas estantes eram como as minhas, lotadas até o teto, com uma fileira de livros na frente da outra, porque ele fez pós-graduação e hoje é um acadêmico? Será que a cama era grande ou pequena? Será que parecia casa de homem, toda em azul-marinho, cinza e tons escuros? O que eu descobriria sobre Thomas a partir do que ele tinha na geladeira?

Um gatinho laranja corre até ele, que se abaixa para acariciar sua cabeça, suas costas. “Oi, Max”, diz Thomas. “Esta é a Rose. Seja bonzinho.”

Max me olha com desconfiança, se esfrega na minha perna, depois mia e sai correndo.

“Eu sempre quis um gato”, digo a ele. Luke e eu falamos a respeito uma ou duas vezes, mas nunca chegamos a pegar um.

“Ele é difícil com gente que não conhece”, diz Thomas, “mas vai acabar se acostumando com você.”

Vai acabar se acostumando ao longo da noite e com o passar dos meses, com o passar dos anos? Quero saber o que Thomas pensa a nosso respeito a longo prazo, mas não estou preparada para fazer a pergunta. Principalmente considerando que eu mesma não sei o que penso a respeito disso. Como poderia? Vou ter o filho de outro cara!

Tiro essa ideia da cabeça.

Thomas vai até a cozinha, que se abre para a sala. Pega uma garrafa de vinho tinto, um saca-rolhas e taças. Enquanto isso, dou uma olhada em volta. Nas paredes, há uma série de fotos emolduradas de Thomas e pessoas que devem ser seus pais e sua irmã. Ela é pequena e bonita, morena como Thomas. Eles têm o mesmo sorriso amplo, que ilumina todo o rosto, inclusive os olhos. Há uma foto de Thomas com outros caras, talvez os amigos da faculdade de quem me falou. As fotos são claramente amadoras, não como as que estão penduradas nas paredes de meu próprio apartamento. Gosto delas. É um contraste agradável com aquilo a que estou acostumada.

O apartamento é pequeno, normal, nada de mais, um pouco vazio, a não ser pelos livros na estante em uma parede, empilhados até o teto como os meus, lotando as prateleiras e quase caindo. Eles fazem com que eu me sinta em casa, segura. É sempre assim com os livros. Então noto um violão encostado na parede, quase escondido atrás do sofá. Thomas se aproxima e me entrega uma taça de vinho. “Você toca!”

“Não muito. Mais brinco. Minha irmã toca quando vem. Ela é muito boa.”

Dou uma olhada atrás do sofá para ver o que mais tem escondido ali, e encontro bolas de futebol. “Quando é que vou ver um dos seus jogos, aliás?”

Thomas jogou futebol na faculdade e ainda faz parte de um time. Ele me disse que, além do trabalho e da família, sua maior paixão sempre foi o futebol. “Quando quiser. Mas você teria que dar uma escapada no fim de semana.”

Suspiro. “É.” Ambos sabemos que isso é difícil.

Thomas aponta para o sofá. Apoio a taça na mesinha de centro e me sento sobre as pernas. Nenhum de nós fala. Meu coração bate forte.

Thomas e eu nunca ficamos sozinhos. Não assim.

Ele se inclina na minha direção e me beija, chegando mais perto para poder me abraçar. Sinto uma mão firme nas minhas costas. Gosto da pressão de sua palma através do tecido do vestido. Mas quero senti-la na minha pele. Logo, meu desejo é concedido.

Tudo acontece devagar, e não consigo impedir. Os beijos, sussurros, botões abrindo, zíperes baixando. Eu me entrego a tudo isso, a cada momento. Fico grata porque a escuridão esconde minha barriga, porque ela ainda é sutil demais para que ele note. Quando Thomas e eu finalmente vamos para a cama, os lençóis parecem frios contra nossa pele quente, e nosso enlace me faz esquecer de tudo que não ele, que não nós dois. Fecho os olhos.

Não quero que isso acabe.

Não quero voltar para casa.

Não quero este bebê.

Fico repetindo para mim mesma: eu tenho direito a isso.

Se Luke pode ter um bebê, posso ter Thomas.

É esse o acordo. A troca que aceito.

Sei que o que Thomas e eu estamos fazendo é errado. Mas então por que não parece mais errado do que isso? Não deveria parecer mais errado do que parece?

É como se eu estivesse em uma gangorra, e a gravidez me impedisse de sair do chão. Luke me segura ali, presa na lama. Mas, toda vez que vejo Thomas, ele pisa do outro lado e a gangorra sobe, equilibrando as coisas, me tirando do chão de novo, para que eu consiga me situar e ver tudo em volta mais claramente.

Em algum momento, tenho que parar de agir assim. Não tenho?

Em algum momento, tenho que abrir mão de Thomas. Não tenho?

Thomas passa uma das mãos na minha barriga. Ele se inclina para beijar a pele acima do umbigo. Nem sequer hesita, mas por que hesitaria? Nunca viu meu corpo nu. Não faz ideia de que estou grávida.

Em algum momento, vou ter que contar.

Mas o que ele vai fazer então?

Thomas olha para mim. “Eu estava me perguntando se isso ia acontecer um dia.”

“Isso?”

Seus beijos vão subindo pelo meu corpo até que ficamos cara a cara, seus dedos passeiam pelas minhas costas. Ele pressiona o corpo contra o meu. “Isso.”

Respondo passando as pernas em volta dele e pressionando meu corpo contra o dele, até que voltamos a nos movimentar juntos. Nossos lábios quase se tocam, mas não chegam a tanto. “Ah, isso”, sussurro.

Ele sorri, fecha os olhos, se submete.

Vou contar a ele. Logo. Mas não esta noite.

Não quero que o sonho de Thomas, o sonho de Thomas e eu, o sonho da Rose que sou quando estou com Thomas, acabe. Ainda não. Não estou pronta.

Um mês depois, minha barriga está aparente. Não tenho como voltar atrás. Vou fazer isso. Vou ter um bebê.

Filho de Luke.

Cacete.

Outra coisa que não mudou é que continuo tendo um caso com Thomas.

Eu e ele saímos para tomar café certa tarde. Thomas pede um capuccino e eu, um descafeinado. Odeio, mas aparentemente é isso que mulheres na minha situação têm que pedir. Aprendi a usar certos tipos de vestido, que escondem minha “condição”. Só que não posso mais esconder isso de Thomas. Gosto muito dele. Além do mais, logo vai ficar óbvio.

Mal nos sentamos a uma mesa quando solto: “Preciso te contar uma coisa”. Não deixo Thomas dizer nada e prossigo. “Estou grávida.” Quando seus olhos se arregalam, acrescento, depressa: “É de Luke. Não há dúvida. Eu já… eu já…”. Preciso dizer, fazer com que saia da minha boca, tirar do meu corpo. “Eu já estava grávida quando saímos pela primeira vez.”

Thomas está de queixo caído, piscando sem parar. “Mas…”, ele começa a dizer, mas a frase morre no meio. A mágoa em seu rosto me deixa com vontade de chorar. “Grávida?”

Confirmo com a cabeça. “Eu… eu…”

O que eu digo? Como coloco em palavras o que fiz?

Digo a verdade. “Eu não queria engravidar, não deveria ter deixado que acontecesse. Quando fiquei sabendo, me deu uma raiva e…”

Thomas está balançando a cabeça. “E você decidiu expressar sua raiva saindo comigo?”

Quero pegar a mão dele. Quero beijá-la, mas não o faço. Não posso fazer. Estamos num lugar público demais, com luzes fortes e cegantes. “Não, eu me permiti ter você, ainda que só por uma noite.”

“Mas não foi só por uma noite.”

“Não, não foi.” Os músculos do antebraço dele estão tensos, seu corpo está rígido. Odeio fazer isso com Thomas. “Sinto muito por não ter contado antes. Fiquei adiando porque gosto muito de você.”

Ele afasta o capuccino. “A ponto de esconder uma coisa dessas de mim?”

“Estou contando agora.” Sei que soo patética.

“Por quê? Porque tem que contar? Porque eu ia acabar percebendo?” Thomas faz uma bolinha com o guardanapo e o atira sobre a mesa. “Nossa, Rose. É por isso que só ficamos juntos no escuro?”

Baixo os olhos para a barriga, depois volto a erguê-los. “Não sei.” Suspiro. “Sim”, admito. “Sou uma pessoa horrível, tá bom?”

Thomas balança a cabeça.

Não, não é uma pessoa horrível?

Estou tão chocado com você, Rose, nem sei o que dizer?

Coloco as mãos na mesa, aproximando os dedos dos dele. “Não te contei antes porque sabia que seria o fim, e não suportava a ideia. Não estou suportando.”

“Você prometeu que nunca mentiria para mim, Rose”, diz Thomas.

“Sinto muito”, digo. Perdi Thomas, penso. De verdade. Está acabado.

“Todo esse tempo, todos os e-mails, e era só um jogo…”

“Não era só um jogo!”, quase grito. Abaixo a voz. “Nunca foi um jogo. Ainda não é. Eu… eu…” Gosto muito de você. Estou me apaixonando por você. Por favor, não me deixe.

Thomas se recosta na cadeira, leva as mãos atrás da cabeça e fica olhando para o teto. “Já não deveríamos estar fazendo isso antes, eu sempre soube, mas agora não devemos mesmo.”

É tão pior assim ter um caso quando se está grávida, e não só casada? Sou uma pessoa muito pior por isso, uma mulher muito pior? Provavelmente. Sim.

“Eu sei”, digo. Mas sei?

Thomas se levanta, embora sua xícara esteja quase cheia. Mal tocou o capuccino. “Preciso ir. Preciso de um tempo para pensar.”

“Entendo.” Mas não entendo. Ou não entendo bem. Será que precisar de um tempo para pensar deixa a porta entreaberta? É possível?

“Você também”, diz Thomas. “Você precisa pensar em tudo isso.”

Não respondo. Não preciso de tempo para pensar. Não mesmo. Quero continuar vendo Thomas, com ou sem bebê. Eu poderia estar de nove meses e ainda ia querer vê-lo.

Fico olhando Thomas sair. Ele se afasta do outro lado da vitrine do café, até desaparecer no quarteirão seguinte. Não olha para trás.

Presumo que esteja tudo acabado. Choro durante todo o caminho até o apartamento. Ainda estou chorando quando entro.

“O que aconteceu?”, Luke me pergunta. Está sentado à mesa da cozinha, com o laptop aberto, trabalhando.

“Hormônios”, digo a ele.