As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 38 de 42

Páginas do PDF

As nove vidas de Rose Napolitano

Trinta e sete

8 DE MAIO DE 2023

ROSE, VIDAS 1, 2, 7 E 8

 

“Está pronta, Addie?”

Minha voz ecoa pela casa e escada acima. Uma porta se abre e se fecha, passos percorrem os tacos de madeira — lentos, tranquilos, passos de uma adolescente. Tum, tum, tum. Addie desce devagar, as botas pesadas, com solas grossas, ruidosas, exatamente como ela gosta, como gosta que seja tudo. Mas a menina que aparece — primeiro os pés, depois as canelas, os joelhos e as pernas sob o jeans, seguidos pela barra de uma regatinha fina de seda, cor-de-rosa e sexy, que deixaria Thomas inconformado se estivesse aqui — está sorrindo. De alguma forma, Addie concilia essa postura adolescente do “tô nem aí”, “não mexe comigo”, “faço tudo no meu ritmo” com ser a garota mais fofa e simpática que já conheci.

“Oiê!” Seus olhos castanhos estão arregalados e seu sorriso é amplo. O gato dela, Max, passa por entre suas pernas no caminho para o outro cômodo. “Estou superempolgada para fazer compras hoje!”

Rio. Para Addie, tudo é “super”. Ela usa a palavra antes de tudo: super com fome, superchateada, superintrigada, super a fim dessa menina, que é superlinda. “Também estou superempolgada”, digo.

Nós nos abraçamos. Ela é tão magra. Sinto suas costelas estreitas sob a blusa. Fico com vontade de lhe dar hambúrgueres gordos e pratos enormes de macarrão cheio de molho bolonhesa, mas Addie é vegetariana desde os treze anos. Tenho vontade de revirar os olhos para mim mesma diante dessa necessidade de alimentá-la, porque percebo que, às vezes, sou igualzinha à minha mãe. Um calor agridoce sempre toma conta de mim diante dessa ideia. Sinto um prazer triste ao constatar que minha mãe deixou sua marca em quem sou hoje. Ela adoraria saber disso.

“Está com fome?”, pergunto a Addie. “Podemos começar o dia almoçando.”

Addie inclina a cabeça, pensando, e o cabelo curto e espetado vai junto, duro por causa do gel. Foi um choque quando ela cortou o cabelo comprido. Num minuto, quase chegava até a cintura; no outro, ela o tinha raspado quase a máquina zero, deixando o pescoço exposto. Addie não pediu permissão — simplesmente foi lá e cortou. O pai dela ficou maluco, mas o corte faz seus olhos parecerem ainda maiores. Combina com ela. “Por que não vamos a uma loja e almoçamos em seguida?”, ela sugere. “Ainda não estou com fome.”

“Talvez você fique com fome se nos sentarmos para olhar o cardápio. Podemos ir àquela lanchonete vegetariana de que você gosta! Aquela com os hambúrgueres vegetarianos caseiros meio malucos.”

Addie pega uma mala do encosto de uma cadeira da sala, também cor-de-rosa, embora de um tom mais claro que a regata. Ela funga. “Você está sempre tentando me alimentar.”

Rio. “Ah, é?”

“É. Rose”, ela acrescenta, meu nome uma batida forte, como as solas das botas pretas de amarrar que o pai dela também odeia. Addie sorri ao falar. Gosta de me chamar pelo nome, porque faz com que se sinta uma adulta.

Isso é novidade, Addie me chamar de Rose. Ela aproveita qualquer oportunidade para fazer isso, e ultimamente “Rose” tem sido quase tão usado quanto “super”. Rose, pode dizer ao meu pai que tudo bem eu ficar fora até tarde para ir ao baile? Rose, sabe se ainda tem aquele cereal que eu gosto? Não estou achando. Rose, será que podemos ir fazer compras este fim de semana? Estou a fim de uma menina e queria chamar a atenção dela. Que ela me chame pelo nome é preferível à raiva e à resistência iniciais que demonstrou quando descobriu que eu estava saindo com o pai dela. Mas Addie era muito pequena na época, muito possessiva em relação ao pai, não queria dividi-lo com ninguém. Agora que fez quinze anos, parece mesmo que está ficando adulta. Gosto dela. Muito. E não só porque é filha do homem que eu amo, do homem com quem venho falando em morar junto.

Quem poderia imaginar que eu acabaria com uma filha, sem nunca ter um bebê? E uma tão divertida, inteligente, maravilhosa?

É bem melhor do que o planejado. Um meio-termo que eu nunca teria imaginado.

Addie pega sua bolsa. É preta, com tachinhas de metal ameaçadoras. “Você acha que meu pai vai me deixar ficar fora até meia-noite na semana que vem?”

Olho para ela. “Você vai ter que perguntar a ele.”

“Mas você acha que tudo bem?”

Não respondo. Addie arqueia as sobrancelhas. Já sabe que eu concordo com ela, mas não vou dizer isso. Não cabe a mim decidir essas coisas.

Sempre que Thomas está à beira de um ataque de nervos por causa do drama mais recente de Addie, por causa da escola, dos amigos, da hora de voltar para casa, da menina com quem quer sair, tento lembrá-lo de que ele teve muita sorte com ela, de que o período da adolescência pode ser terrível — pelo menos é o que todos os meus amigos com filhos dizem.

“E se eu perguntasse”, Addie prossegue, “e você falasse com ele depois?”

“Vou pensar no seu caso”, digo a ela.

Addie sorri e abre a porta. Ela sabe que estou na mão dela. “Obrigada, Rose.”