As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e nove
2 DE MARÇO DE 2008
ROSE, VIDA 6
A neve cai lá fora.
Padrões de gelo intricados se formam no vidro.
O calor e a alegria reinam aqui dentro.
“Oi”, eu digo para a bebezinha nos meus braços. Minha bebezinha. “Addie.”
Não consigo parar de olhar. Ela é hipnotizante. O trauma do parto, a exaustão e a dor, tudo parece muito distante, como se tivesse acontecido há semanas, e não há poucas horas. Olhando para Addie, quase esqueço que estou na cama do hospital, quase não noto o cheiro antisséptico, os lençóis ásperos, as paredes feias, os aparelhos. Addie dorme, com os olhos bem fechados, como se preocupada que possam sair voando das órbitas a qualquer minuto caso não se esforce para mantê-los assim. Sua respiração suave preenche o silêncio. Talvez Addie vá roncar como o pai. Como é estranho pensar esse tipo de coisa, que esta bebê em meus braços possa vir a ser como o pai, ou como eu, sua mãe. E de que maneiras Addie vai ser ela mesma, diferente de nós dois.
A porta range ao abrir. “Rose?”, eu ouço. É meu pai que me chama, um sussurro na penumbra.
Eu o vejo me olhando do corredor. “Estou acordada”, digo.
Ele entra na ponta dos pés, com minha mãe em seu encalço.
“Não precisam se preocupar, ela apagou”, eu digo, mas não sei se meus pais ouvem. Seus olhos estão fixos em Addie.
Minha mãe está usando um suéter amarelo-canário, a cor da felicidade, segundo ela. Vestiu-o no momento em que recebeu notícias de Luke dizendo que estávamos bem, que tínhamos sobrevivido ao parto e gozávamos de boa saúde. Minha família é supersticiosa, motivo pelo qual minha mãe não podia vestir o suéter da alegria antes que as boas notícias fossem oficializadas. Ela convenceu meu pai a também usar um conjunto amarelo-canário.
Rio, apontando para ele. “Gostei da roupa, pai.”
“Eu concordaria em usar o que quer que sua mãe mandasse hoje”, diz ele. “Espera só até ela te vestir de amarelo também.”
Minha mãe mostra um gorrinho de crochê para Addie, da mesma cor. “O que acha, Rose?”
“Acho ridículo”, digo para ela, sorrindo. “Amei.”
“Que bom!” As bochechas dela ficam vermelhas à meia-luz. “Tenho um suéter pra você também, claro.” Ela começa a revirar a bolsa que meu pai carrega no ombro. “Pensei que Luke poderia tirar um retrato de família da gente.”
“Não falei, Rose?”, diz meu pai, apontando para o suéter. “Você é a próxima.”
“Vou usar o que você quiser hoje, mãe.”
Ela para de revirar a bolsa para levantar o rosto e sorrir para mim.
Como é fácil deixar meus pais felizes — é só dizer a minha mãe o que ela quer ouvir, dar a ela o que sempre quis, concordar com o suéter, concordar com o neto. Para que toda a resistência a ter um filho? Por que eu era tão contra? O que há de tão errado em trazer todo esse amor para minha própria vida?
Minha mãe me entrega o suéter ridículo, e meu pai pega Addie, para que eu o vista sobre o corpo dolorido. Faço essas coisas como se fossem tudo que eu sempre quis, como se tivesse sido feita para esse papel, de mãe recente.
Depois me sento na cama do hospital e fico vendo meus pais se ocuparem de Addie. Noto a ausência em meu seio, o calor que ela deixou para trás. Como meu cérebro e meu corpo se adaptam rápido a essa nova presença na minha vida; como meu cérebro e meu corpo desenvolvem depressa outro sentido, um sentido relacionado a ela — o fluxo entre sua proximidade e distância, a consciência de sua localização, seu conforto, seu bem-estar.
O que vai acontecer com meu trabalho, com minha carreira? Meu cérebro vai retornar à pesquisa, à escrita, às aulas, voltará a ser o mesmo? Nunca mais serei a mesma?
Isso importa? Eu ligo?
Puxo o lençol.
Por ora, decido que não me importo com o que vai acontecer, que tenho o direito de desfrutar do êxtase amarelo deste momento.
Meu pai se inclina e pressiona uma bochecha contra a cabecinha macia de Addie.
Tudo porque estendi a mão para Luke aquele dia.
Eu me agarro ao pensamento, o reviro, o avalio. Eu me inclinei para ele em vez de recuar, estendi a mão para meu marido em vez de afastá-lo, e por causa dessa mínima mudança Addie existe. Esta cena no hospital, comigo, meu marido, meus pais e minha filha, existe. A realidade de que Addie poderia facilmente não existir, a leveza de sua presença no mundo, quase me deixa tonta. Faz menos de um dia que ela nasceu, e a ideia de que poderia não estar aqui, de que poderia ser algo de que me esquivei por pouco, parece impossível. A existência de Addie é necessária, essencial, tão importante quanto o ar, quanto respirar, quanto o coração que bate no meu peito.
Quem eu seria hoje se tivesse brigado com Luke?
Uma estranha sensação de satisfação se espalha dentro de mim, a sensação de que eu podia fazer aquilo, dar ao mundo um bebê, dar a meus pais uma neta para pegar no colo, amar e mimar.
A cabeça de Luke aparece à porta e ele começa a rir.
“Bela roupa, mamãe.”
Minha mãe levanta o rosto e olha para meu marido.
Ele ri de novo. “Eu estava falando com a outra mamãe. Com Rose.”
Ela dá um beijo na bochecha de Luke. “Tenho um suéter pra você também.”
Ele revira os olhos. “Claro que sim.”
“Seus pais já chegaram?”, minha mãe pergunta. “Podemos emprestar nossos suéteres e tirar uma foto de família de vocês com eles também.”
“Obrigada por oferecer”, diz Luke, para agradá-la, mas de jeito nenhum que Nancy e Joe vão topar vestir os suéteres, e ele sabe disso. Luke pega a câmera, a grandona, a que reserva para ocasiões importantes.
Não estou nem um pouco ansiosa para ver meus sogros, para ouvir seus conselhos e suas tentativas de controlar tudo — me controlar, controlar Addie, controlar o filho deles. Cheguei a pensar se ter um bebê poderia fazer com que voltassem a ter carinho por mim. Mas a gravidez só intensificou a necessidade que eles sentem de me dizer o que fazer e quem devo ser. Talvez nunca mais possamos voltar àquele ponto em que todos nos dávamos bem.
“Sorriam”, diz Luke. Minha mãe já fez com que ele vestisse o suéter, de modo que estamos todos combinando.
É a coisa mais ridícula que já permitimos que minha mãe fizesse conosco, mas não importa. Tudo que importa é como ela está feliz hoje, como sua felicidade se espalha pelo quarto, fazendo as bordas da minha visão ficarem borradas, como em uma fotografia velha, algo que poderia ter acontecido no passado ou no futuro, mas não agora, no presente.
Addie continua dormindo enquanto tiramos as fotos — de nós cinco, quando Luke aciona o temporizador da câmera; depois, só de meus pais, Addie e eu; depois de Luke, Addie e eu; depois de mim e Addie; e, por fim, de Addie e Luke. Não consigo parar de sorrir, como se, caso parasse, talvez tudo isso, meus pais, Addie e Luke, tudo que há de bom neste quarto, fosse desaparecer. Tiramos fotos com todas as combinações possíveis de pessoas, mas resta uma de que sei que preciso, como se dela minha vida dependesse.
“Luke, pode tirar uma foto minha com minha mãe e Addie? Só nós três?”
“Claro”, diz ele.
Minha mãe se senta na beirada da cama.
“Você está longe demais”, digo a ela. “Quero poder te abraçar.”
Minha mãe me olha de um jeito que faz com que eu sinta que sou a única pessoa no mundo. Absorvo isso, deixo que penetre minha pele e seja levado pelas minhas veias até todas as partes do meu corpo. Quero guardar o sentimento para os dias difíceis, porque dias difíceis sempre vêm, não é verdade?
“Eu te amo, Rose”, minha mãe diz.
Há uma estranheza nesse momento, de certo modo a cena diante de mim não parece real. Meus pais radiantes, minha mãe radiante. Meus olhos retornam para Addie, pequenina e linda, passam pela mulher que está segurando minha filha, minha bebê, com tanta delicadeza, tão à vontade, como se sempre tivesse sido seu destino segurar a neta.
Tento aproveitar o momento.
Mas é um sonho? Tudo isso aconteceu de verdade?
Vou acordar e perceber que é tudo muito diferente?