As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 33 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Trinta e dois

4 DE JUNHO DE 2014

ROSE, VIDA 3

 

“Quero ver a vovó. Por que você não deixa?”

Addie está de pé na sala, com o coelhinho cor-de-rosa que minha mãe lhe deu debaixo do braço, pressionado contra seu corpinho de seis anos de idade. Ainda que faça calor lá fora e seja uma linda manhã de início de verão, Addie está usando o suéter que minha mãe fez para ela no Natal — grosso e grande demais, com listras de todos os tons de rosa —, além da calça de moletom também cor-de-rosa que ela lhe deu para usar junto.

A blusa foi feita numa época em que minha mãe ainda tinha forças para tricotar.

Porque agora…

“Ah, filha.” Pego a caneca de café que está na mesa à minha frente, fecho os olhos e inspiro fundo. O câncer da minha mãe pegou todos nós de surpresa. Sua existência, sua rapidez. Quase não suporto ver minha menininha passando por tudo isso, pela perda da avó que tanto amava. “Você sabe por que, já falamos sobre isso. Luke!” Eu o chamo, quero sua ajuda, mas duvido que vá me ouvir. Ainda está na cama. Chegou tarde depois de ter fotografado um casamento ontem à noite. Ou pelo menos foi o que disse.

Addie passa pelo sofá e segue na direção da mesa que marca a entrada da cozinha. Só então percebo que está usando o tênis cuja sola brilha quando anda — outro presente da avó. Ela está vestida dos pés à cabeça com coisas que minha mãe lhe deu, inclusive as meias. Addie sabe muito bem o que fazer quando quer alguma coisa. “Por favor, mamãe. Tenho que dar tchau.”

Eu me concentro em respirar. Estou determinada a me manter forte na frente de Addie, assim como me mantive forte na frente da minha mãe. “Você já se despediu da vovó.”

“Mas ela ainda está aqui! Você sempre vai visitar. E eu não dei tchau direito.”

“Addie, a vovó está diferente agora. O papai e eu queremos que você se lembre dela como era antes, e não como está agora.”

“Mas, mamãe…”

“Luke!” Grito mais alto dessa vez. Puxo a cadeira ao lado da minha e dou tapinhas nela. “Senta aqui e deixa a mamãe pensar por um minuto, enquanto toma o café, pode ser? Pode fazer isso?”

Ela assente. E faz o que eu digo. Espera.

Minha mãe está deitada na cama do hospital, inconsciente.

Estamos aguardando que ela morra. Não é mais uma possibilidade, mas uma certeza. É uma questão de tempo até que não esteja mais entre nós. O câncer foi, ao mesmo tempo, rápido e lento. A princípio, lento, porque levamos um tempo para acreditar que estava ali, no corpo formidável dela. Parecia que ainda teríamos tanto tempo, tantas opções, tantos planos de ação possíveis. Que, como família, poderíamos decidir cuidadosamente o que deveria ser feito, como se minha mãe pudesse esperar uma quantidade infinita de anos até ser tratada.

Mas ela decaiu tão rápido. Num minuto, eu e ela estávamos conversando, rindo, e no outro meu pai e eu a vimos definhar, seu corpo cometendo uma traição contra sua alma, sua mente, sua personalidade, a força que era típica dela evaporando. Quem poderia imaginar que não seria o câncer que acabaria com sua vida, mas as complicações resultantes, o coágulo que se formou em sua perna e devagar, clandestinamente, abriu caminho até o cérebro? As últimas semanas no hospital têm parecido séculos, mas também segundos, como se não tivesse se passado nenhum tempo desde que meu pai e eu decidimos deixar minha mãe ir, desligá-la dos aparelhos que a mantinham viva, porque na verdade ela já não estava mais viva. E agora que os médicos tiraram todos os tubos e a máscara transparente que tapava sua boca, nosso trabalho é aguardar, fazer a vigília, ficar sentados ao lado da minha mãe enquanto sua respiração desacelera, enquanto seu pulso cai até parar.

A avó que está deitada na cama de hospital não é a avó que Addie conhece. Luke e eu não queríamos que ela visse esta avó, esta que não é a mulher que eu conheço também. Nessa última semana de vida da minha mãe, seu corpo se tornou um foco de tormento, uma concha fracassando com seu cérebro ainda muito vivo.

“Quero que você tire uma foto da minha mãe”, pedi a Luke ontem de manhã. O pedido parece grotesco, eu sei, mas o fiz mesmo assim. Ele estava sentado comigo, ao lado da cama dela, até então ambos em silêncio, tristes, cansados. Addie ficou com os pais de Luke, que vinham sendo extremamente bonzinhos desde que tudo começara.

“O quê?”

Olhei para minha mãe, deitada ali, notando como ela parecia menor, como sua pele estava acinzentada, enrugada, como seus membros pareciam finos e pequenos. Mas, sem as máquinas, de alguma forma ela tinha voltado a ser ela mesma, pelo menos um pouco. Havia nela uma espécie de paz. “Eu só… quero ter uma foto dela. Uma última foto.”

“Ah, Rose.” A voz de Luke saiu cheia de compaixão, mas também hesitante. “Você não vai querer se lembrar da sua mãe assim.”

“Talvez não”, falei. “Mas talvez sim. Talvez depois eu queira.”

“Você acha que sua mãe ia querer isso, Rose? E seu pai? Tem certeza?”

Ouvi falar de mulheres que perderam bebês e que pediram ao médico uma foto da criança que não chegara a nascer. Mulheres que queriam aquela criança, que sofriam a perda de seu futuro filho, que queriam vê-lo, ter alguma recordação daquela pessoinha que deveria ter sido, mas não foi. Uma colega da universidade perdeu gêmeos de sete meses. Teve que parir os bebês mortos e passar por esse trauma terrível. Ela guarda uma foto dos dois na gaveta da cômoda, enterrada sob uma pilha de lenços de seda e luvas de couro macias. Quando me contou isso, lembro que pensei que ter uma foto dessas era uma ideia terrível, um impulso estranho e masoquista, uma maneira de se manter congelado no mais profundo luto.

Mas agora entendo por que alguém pode querer esse tipo de lembrança, agora que fiquei ao lado da cama da minha mãe em um quarto de hospital, esperando pelo momento em que finalmente vai dar seu último suspiro.

“Pode fazer isso por mim? Por favor? Não precisa concordar ou achar que é uma boa ideia. Só precisa fazer. Não temos que contar a meu pai. Eu só… acho que preciso disso.”

Depois de um longo silêncio, Luke disse: “Tá. Tá bom. Eu faço”.

Uma hora depois, Luke voltou com suas coisas e eu saí do quarto. Ficaram só os dois lá dentro. Quando ele saiu, estava chorando. “Eu te amo, Rose”, disse.

“Também te amo. Obrigada.” Fiquei tão grata a ele naquele momento que quase esqueci que meu marido, aquela pessoa que estava sendo tão bondosa comigo, estava me traindo.

Luke não sabe que sei do caso dele. Que sei de Cheryl. Que, depois que encontrei uma foto dela na câmera dele, passei por um período de negação, mas pouco a pouco comecei a notar sinais de que ele estava se encontrando com alguém — eles se tornaram claros demais para ignorar. O modo como chegava tarde em casa, as respostas evasivas quando eu perguntava onde estava, com quem estava, por que não havia ligado, por que nunca mais me procurava na cama. O nome Cheryl se tornou um sussurro contínuo no meu cérebro, persistente, provocador.

Então qualquer pensamento relacionado a Cheryl desapareceu quando minha mãe foi internada, quando eu soube que ela ia morrer — que já estava morrendo. O caso do meu marido perdeu força em meio à tragédia que se desenrolava à nossa frente, à frente de Addie. Cheryl e o caso iam ficar para mais tarde. Para depois.

“Imagina, Rose”, disse Luke. “Você sabe que eu faria qualquer coisa por você.”

Assenti para ele. Mas eu não sabia daquilo, não de verdade, havia um bom tempo. Só que agora sentia. Era forte e inquebrável, a ligação que havia entre mim e Luke, como se sempre tivesse estado ali, embora eu a tivesse perdido de vista.

Luke não vem quando o chamo, por mais que eu insista.

“Tá bom, Addie, vamos”, digo afinal. “A mamãe vai te levar para ver a vovó.”

Não deixo um recado para Luke. Decido deixar que fique se perguntando aonde eu e Addie fomos, quando acordar. Já passei bastante tempo me perguntando onde ele estava, com quem estava e o que estava fazendo. Deixo a porta bater ao sair.

“Oi, vovó”, diz Addie, no momento em que entramos no quarto dela no hospital.

Levo um dedo aos lábios para pedir que Addie fale baixo, e aponto para meu pai, que está dormindo em uma poltrona no canto. Ele mal saiu do lado da minha mãe, por isso fico feliz em ver que está descansando um pouco.

Addie solta a minha mão, e permaneço olhando enquanto ela vai ficar ao lado da avó. Destemida. Sem medo das máquinas que apitam, monitorando a respiração, sem medo dos bipes que ficam cada vez mais espaçados, acompanhando o pulso da minha mãe. Testemunho a força da minha menininha, a graça que demonstra nesse momento. Como minha filha ficou assim? Quem poderia imaginar que ela tinha isso dentro de si? De quem herdou essa graça? De mim? De Luke? De alguma outra força misteriosa no universo?

“Achei que você podia estar se sentindo sozinha, por isso trouxe companhia, vovó”, Addie sussurra, então coloca o coelhinho no peito da minha mãe.

Resisto à vontade de dar as costas, de olhar para a porta. Não sei se consigo assistir a isso. Mas tenho que conseguir, sou a mãe, por isso assisto. Minha mãe faria isso por mim, e eu preciso fazer isso por Addie.

“Você vai gostar dos meus planos pro verão”, Addie continua falando. “Vou aprender a nadar como você me mostrou antes de ficar doente.”

Meu pai se mexe na poltrona, abre os olhos. Ele se endireita no momento em que vê Addie ali, mas não diz nada, sabe que não deve interromper a conversa que ela está tendo com a avó. Vou até ele e me inclino para lhe dar um beijo na bochecha. Ele se levanta e pega minha mão. Ficamos os dois ali, juntos, em silêncio, tomando cuidado para não perturbar aquele momento tão delicado. Fico ouvindo minha filha contar a minha mãe sobre sua vida, o que ela tem feito na escola, o que quer fazer no futuro próximo: no verão, na primavera. Addie fala sem parar, muito embora minha mãe não responda e talvez nem possa ouvi-la. Mas prefiro pensar que ouve. Enquanto Addie fala, percebo que Luke e eu erramos ao decidir que ela não deveria ver a avó. Que essa é a coisa certa para Addie, estar aqui agora. Que ela pode lidar com isso.

Uma hora, Addie para de falar.

Meu pai e eu nos juntamos a ela ao lado da cama.

“Oi, nhoquinha”, meu pai diz a Addie. Ela se vira e abraça a cintura dele. “Que bom que você veio ver a vovó. Vou deixar vocês duas um pouco sozinhas com ela, tá?”

Addie assente e o solta.

Fica mais difícil segurar as lágrimas, tão difícil que mal consigo agradecer a meu pai, mas ele aperta meu braço e vai embora, abrindo e fechando a porta sem fazer barulho, deixando Addie e eu nos despedirmos.

Coloco uma das mãos no braço da minha mãe e Addie coloca uma das mãos perto da minha. O calor da pele da minha mãe me atinge, assim como a realidade de que pode ser a última vez que a toco ainda viva, a última vez que o sinto. Ficamos ali um bom tempo, nossa respiração é o único ruído no quarto.

“Está pronta, querida?”, sussurro afinal.

Eu estou?

Como alguém se despede para sempre da mãe?

Como uma menininha deixa a avó amada?

Addie faz um sim curto e decidido com a cabeça.

Eu me inclino sobre o corpo da minha mãe e beijo sua bochecha, a pele parecendo papel. Depois levanto Addie para que ela possa fazer o mesmo. “Te amo, vovó”, ela sussurra.

Te amo, mãe.

Addie não chora até sairmos do quarto.

Nem eu.

Abraçamos uma à outra no corredor. Soluçamos juntas, sem dizer nada. Tal mãe, tal filha. A ideia passa pela minha cabeça enquanto Addie e eu choramos. Vejo a verdade nisso, me regozijo com a verdade nisso. Com o modo como minha mãe vive em mim, o modo como ela e eu vivemos em Addie.

“Você é muito parecida com a sua avó”, digo a minha filha. “Eu a vejo em você, Addie”, acrescento, e é verdade. Vejo mesmo.

O funeral é realizado três dias depois. Meu pai fez o caixão. Frankie veio de Barcelona para ficar conosco.

É estranho deixar de pensar na minha mãe como estando em toda parte ao mesmo tempo. No instante em que ela se vai, sinto uma saudade insuportável. Eu a quero de volta, quero que seja dominadora, quero que me deixe maluca. O amor secreto que senti por essa parte dela não é mais secreto para mim. Sei muito bem o que perdi, sei que nunca poderei recuperar isso.

Ser amada pela mãe é isso, não é?

Ter alguém em sua vida completamente absorvido pelo que quer que você faça, ainda que mínimo e insignificante, que se importa tanto com cada coisinha a seu respeito que atribui uma importância tremenda a cada um desses detalhes. Ter alguém que alivia a dor para você, os fracassos, as decepções, os desafios da vida, que faz o melhor que pode para ajudá-lo a seguir em frente. Que às vezes exagera, talvez muitas vezes, mas de um jeito que, lá no fundo, o faz saber que você não está sozinho.

Não quero ficar sozinha. Quero que minha mãe me ajude a passar pelo que quer que venha, porque não vai ser bonito. Vou ter que voltar a prestar atenção no meu marido, no meu casamento, que se deteriora tão rápido que não tenho como consertá-lo, e de alguma forma vou ter que passar pelo fim sem ela ao meu lado.

Mas tenho Addie.

Não é engraçado que eu só tenha concordado em ter minha filha porque Luke queria? Fiz isso para salvar meu casamento, que ia terminar de qualquer jeito, era só uma questão de tempo. Dei a Luke exatamente o que ele queria, mas isso não foi o suficiente. Se eu soubesse que nada que pudesse fazer seria o bastante para ele, teria tomado decisões diferentes, teria deixado meu casamento acabar antes que Addie chegasse a nossas vidas, antes que minha mãe pudesse conhecer e se apaixonar por essa netinha linda e impetuosa.

Ainda bem que eu não sabia.