As nove vidas de Rose Napolitano
Dezenove
15 DE MARÇO DE 2013
ROSE, VIDA 3
“Addie, gira pra gente”, diz Joe.
Ela obedece. As penas presas com grampo no cabelo, costuradas no colarinho e na saia se sacodem e esvoaçam enquanto ela gira.
Flashes se seguem. Todo mundo tem uma câmera. Minha mãe, o pai de Luke, a mãe de Luke, Luke. É como a formatura. Minha mãe passa a câmera para meu pai, e agora é a vez dele de tirar uma foto. “Sorria para o vovô”, diz ele, e ela sorri. É a primeira apresentação de balé de Addie, e todo mundo veio ao pequeno teatro esta noite ver as meninas se acabarem de dançar, totalmente fora de sincronia, o que só deixou tudo ainda mais fofo. Addie está vestida de cisne.
Minha mãe pega a câmera de volta. “Faz que nem um ganso, Addie.”
Addie agita os braços, de um jeito não muito gracioso, e seguem-se mais flashes. Nancy está com o celular na mão, gravando. Addie gira de novo, deixando todo mundo encantado. Luke vira para mim e balança a cabeça, com a expressão simpática de quem diz: O que vamos fazer com esses avós malucos? Dou de ombros para ele, com um sorriso bobo no rosto.
Addie é a grande agregadora da família. A pacificadora. A própria ONU.
De repente, ela boceja audivelmente.
Todo mundo ri.
“Acho que chegou a hora dos cisnes irem para a cama”, diz Luke, e pega nossa filha no braço com facilidade.
“Não, papai”, ela protesta, mas seus olhos estão quase se fechando.
“Que fofa”, Nancy me diz, como se acreditasse que de fato estou fazendo algo direito como mãe de Addie.
Desfruto de sua aprovação.
Minha mãe assente e me lança um olhar rápido e investigativo. Ela sabe que as coisas ainda estão tensas entre mim e os pais de Luke, porque conversamos muito sobre isso. Olho para minha mãe e sorrio. Está tudo bem.
Saímos do teatro. Joe fica para trás, para falar com meu pai. Ouço trechos de sua conversa, e percebo que ele está perguntando do trabalho. Minha mãe e Nancy vão à nossa frente, mas não sei sobre o que conversam. Volta e meia elas se viram para olhar Addie, que está cochilando no colo de Luke, de modo que imagino que falem sobre ela.
Em momentos assim, sinto que tenho sorte por essa pessoinha ter entrado nas nossas vidas e criado esses laços, reaproximando todos nós. Tento não pensar em como seria fácil desmanchar esses laços. Com uma puxadinha, estaríamos todos separados.
Muito embora eu ainda não saiba como me sinto em relação a meus sogros, uma parte de mim é grata por eles.
Talvez. Às vezes.
Não sei.
Há momentos em que penso: se Nancy e Joe não tivessem ficado tão obcecados com a ideia do filho deles ter um filho, com a ideia de que daria um filho ao filho deles, talvez Addie não existisse. Talvez não a tivéssemos. Talvez eu não a tivesse. Se eles não tivessem convencido Luke a me fazer mudar de ideia, se Luke não tivesse me convencido a mudar de ideia, ela não estaria aqui agora, fantasiada de cisne, deixando todos encantados. Inclusive eu, a mulher que não tinha nenhum desejo de ser encantada por uma criança.
Mas também há dias em que aquela raiva pendurada que tenho deles se arrasta de sua caverna no meu cérebro e eu me pego querendo repreendê-los, querendo dizer todas as coisas que Luke me proibiu de dizer na cara deles. E isso me faz perguntar: será que um dia vou perdoá-los? Será que a raiva vai envenenar minha vida com Luke eternamente?
“Rose, precisamos falar com você.”
Joe foi o primeiro a falar, foi quem deu início à conversa em nome dele e de Nancy, tantos anos atrás. Nós quatro tínhamos saído para jantar em um restaurante muito bom.
“Sobre o quê?”, perguntei, olhando para Luke, que se recusava a me encarar. Ele olhava para o prato, concentrado em cortar o frango.
Já fazia alguns anos que Luke e eu estávamos casados, e meu relacionamento com os pais dele estava se desgastando. Meu relacionamento com ele estava se desgastando. A cada vez que Luke voltava para casa para visitá-los, eu resistia mais a ir junto. Comecei a inventar desculpas — tinha que corrigir provas, tinha feito planos com Jill, Raya ia vir para uma visita, meu pai tinha me convidado para jantar com ele no fim de semana, só nós dois. Eu não queria mais ver os pais de Luke, principalmente Nancy. As coisas estavam esquisitas entre nós.
Ela vivia fazendo comentários sobre como me achava inteligente, o que até poderia ser simpático, se não acrescentasse todas as vezes que aquilo significava que meus filhos com Luke seriam inteligentes também. Depois, Nancy começou a perguntar quando eu ia engravidar, quando, quando? E continuou perguntando mesmo depois de saber que nós não pretendíamos ter filhos.
Joe limpou as mãos no guardanapo que tinha sobre as pernas. “Precisamos falar com vocês dois”, ele esclareceu. “Sobre filhos.”
Luke suspirou e largou os talheres ao lado do prato. “Pai”, disse ele, como em alerta.
Nancy esticou o braço e colocou uma das mãos sobre a mão do filho, como se dissesse: Espere, deixe a gente terminar.
“A nossa preocupação é que vocês estejam cometendo um erro”, disse Joe. Imaginei que estivesse se dirigindo a nós dois, mas ele só olhava para mim. “Sabemos que a decisão de não ter filhos vai acabar se revelando um erro. Vocês vão se arrepender, não tenham dúvidas, mas aí já vai ser tarde demais. Então, o que vai acontecer?”
Eu só assentia, como um robô. Não queria ter aquela conversa durante o jantar, num restaurante. Não queria ter aquela conversa em hipótese alguma. Queria que meus sogros respeitassem a decisão que eu havia tomado — a decisão que eu e Luke havíamos tomado.
Uma coisa era Nancy fazer comentários quando conversávamos, presumir que minha opinião quanto a ter filhos ia mudar com o tempo. Outra muito diferente era fazer toda aquela cena. Como se o fato de Luke e eu não termos filhos fosse algo com que precisassem lidar, algo que precisasse ser tratado e curado.
“Não vou ter essa conversa”, falei, dobrando meu guardanapo e o colocando sobre a mesa. “Não é da conta de vocês. Só diz respeito a mim e a Luke, a ninguém mais.” Inspirei fundo. “Não consigo acreditar que você teve a coragem de dizer que vou fazer seu filho se arrepender.”
“Não foi isso que eu disse”, Joe começou a se explicar.
“Não, mas foi isso que sugeriu.”
“Rose.” O tom de voz de Luke, o modo como disse meu nome, era de súplica. “Ouça os meus pais. Só um pouco.”
Olhei para ele, querendo sacudi-lo. Por que não dava um fim àquilo? Por que deixava que os pais fizessem aquilo conosco, comigo? O sangue corria depressa em minhas veias, e comecei a sentir calor. A súplica de Luke estava relacionada a seus próprios sentimentos? Engoli em seco. Os pais de Luke vinham falando com ele pelas minhas costas? “Não quero ouvir, Luke. Por que eu deveria? Por que você deveria?” Eu me levantei. Minha cadeira quase caiu.
“Não precisa ficar chateada”, disse Nancy. “Só queremos conversar.”
“Rose”, disse Luke. “Senta.”
Eu o ignorei. “Vocês já sabem como me sinto em relação a isso. Venho repetindo a mesma coisa há anos. Por que não podem respeitar a minha decisão?” Minha voz ficava cada vez mais alta. Os clientes mais próximos já começavam a se virar para nós. “Por que não podem me respeitar? Por que não podem me deixar em paz?”
“Respeitamos você”, disse Joe.
“Como pode dizer isso?” Minha vista ficou embaçada. Eu sabia que a fúria que sentia era desproporcional à situação. Mas não era capaz de me controlar. Estava cansada da pressão que parecia vir de todas as partes, desde o momento em que Luke e eu descemos do altar, desde que nossa vida de casados começou. Empurrei a cadeira para debaixo da mesa. “Estou indo embora.”
Luke se levantou. “Rose, você não pode ir.”
“É claro que posso.”
“Viemos no carro do meu pai.”
“Vou andando.”
“Você não vai andar oito quilômetros no escuro!”
Fui embora, ignorando os clientes que observavam a cena. Eles que olhassem, decidi. Não me importava com a opinião deles. Abri a porta do restaurante com um empurrão e respirei fundo. Comecei a atravessar o estacionamento. Pensei que talvez estivesse sendo melodramática, depois afastei a ideia da cabeça. Logo ouvi passos atrás de mim.
“Rose, o que você está fazendo?” Luke passou à minha frente e ficou ali, de braços abertos.
Parei. Fechei os olhos. Tentei controlar a respiração. Eu tinha razão de ficar tão ofendida, de me sentir tão justificada? Estava errada? Os pais de Luke sabiam de algo que eu e Luke não sabíamos? Que eu não sabia? Eu deveria ouvi-los, deveria dar uma chance a eles?
Mas por quê?
Fui até uma vaga livre e me sentei na beira da calçada. Luke se juntou a mim. Eu estava de vestido, Luke usava camisa e calça finas. Devíamos parecer estranhos, nós dois ali, com roupa de festa, sentados no asfalto, em meio aos carros parados na escuridão. “Você sabia que seus pais iam tocar no assunto hoje?”, perguntei a ele.
“Não”, disse Luke, mas notei sua hesitação.
“Sabia?”
“Não, não sabia”, disse ele, daquela vez com mais firmeza.
“O que você quer, Luke?”
Dava para ouvir o barulho dos grilos. Alguns clientes saíram do restaurante e se dirigiram a um veículo utilitário esportivo do outro lado do estacionamento. Luke esticou suas pernas compridas, raspando os sapatos no cascalho. “Como assim?” Havia um toque de pânico em sua voz.
Então me ocorreu que minha pergunta tinha sido vaga, que talvez Luke achasse que eu estava perguntando sobre filhos, sobre se ele queria ter filhos. “O que você quer fazer agora? Pretende voltar para a casa dos seus pais ou ir para casa comigo?”
“Você vai mesmo embora?”
“Vou. Posso chamar um táxi.”
“Rose, por favor.” Luke passou as mãos pelo rosto. “Não quero que você deixe as coisas assim.”
“Eu? Então a culpa é minha? Seus pais me emboscaram!” Comecei a me levantar, mas Luke me puxou de volta. Olhei feio para ele. “E você não fez nada para me defender, Luke! Deixou que eles seguissem em frente. Sempre deixa.”
“São meus pais, Rose.” Luke parecia angustiado. “São seus pais também, e amam você. De verdade.”
“Não. Não acho que sejam capazes de me amar. A não ser que eu faça isso. Não até que eu faça isso. Aí talvez me amem.”
“Rose…”
“Você tem duas opções, Luke. Pode entrar e dizer a seus pais que eu e você nos recusamos a jantar com eles caso se recusem a respeitar nossas escolhas, ou pode me deixar ir sozinha para casa e dormir no sofá esta noite. E talvez amanhã e o restante da semana.”
“Essas opções não parecem justas”, disse Luke.
“Bom, mas são as que você tem, então escolhe.”
Luke ficou em silêncio pelo que pareceu uma eternidade. Então se levantou, me disse que já voltava e entrou no restaurante. Depois, quando voltou e durante o caminho de volta, não nos falamos, nem mesmo na cama.
O que mais havia a dizer?
Se naquele momento alguma pessoa me dissesse que eu logo estaria grávida, que teria Addie, eu a mandaria à merda. Estava tão exausta, tão brava, tão cansada da pressão. E não foi como se eu simplesmente tivesse mudado de ideia quanto a ter um bebê — não mudei.
Um dia, Luke e eu acabamos tendo uma briga idiota por causa de vitaminas— ele queria que eu as tomasse, e eu tinha prometido tomar, mas não cumpri a promessa. Eu me lembro de ter ficado muito brava ao entrar no quarto e vê-lo ali com as vitaminas na mão, balançando o frasco para mim. Uma sensação estranha e paralisante tomou conta do meu coração, como se alguém o tivesse enfiado em uma caixa pequena demais para que ele pudesse continuar batendo. Eu não conseguia respirar. Lembro-me de ter pensado: Por que não consigo respirar? Eu puxava o ar com força, fazendo barulho.
Então me lembro de Luke gritando: “Rose… Rose?”.
Minha vista embaçou e ouvi um zunido. Logo estava no chão, com a bochecha contra o piso de madeira. A respiração ofegante continuou por um tempo, mas acabou melhorando. Quando minha visão voltou a ficar nítida, notei que Luke estava no chão comigo, a cabeça paralela à minha.
Quando reuni forças para me levantar e me sentar, Luke pegou minhas mãos. “Acho que você teve um ataque de pânico”, disse, olhando para meus dedos, para as unhas lascadas que eu nunca me dava o trabalho de lixar depois que quebravam. “Foi culpa minha. Desculpa, Rose. Sinto muito.”
Aquelas palavras — um pedido de desculpas do meu marido, um reconhecimento da responsabilidade dele, e não minha, na bagunça que nosso casamento tinha se tornado — fizeram mágica, expandido as paredes que se fechavam sobre meu coração e abrindo espaço dentro de mim. Algo percorreu meu corpo naquele momento, me levando de volta para Luke, trazendo de volta a possibilidade de amá-lo. Pensei em todas as conversas que havíamos tido sobre filhos, em todas as discussões, em toda a raiva e em toda a mágoa, e me perguntei se estávamos tornando as coisas muito mais difíceis do que deveriam ser. Como seria bom se parássemos de nos preocupar com o que as outras pessoas achavam e queriam, com o que os pais de Luke achavam e queriam, e nos concentrássemos no que ele e eu achávamos e queríamos. Luke e eu. Como seria bom se pudéssemos voltar a ser quem éramos antes que toda aquela confusão começasse.
“Olha pra mim”, pedi a ele. Quando Luke me olhou, me permiti dizer as palavras que não sabia que tinha dentro de mim, palavras que soaram estranhas no nosso apartamento, palavras que acabaram levando ao nascimento de Addie, nossa filha linda e perfeita. “E se só deixássemos rolar?”
Quando Luke e eu chegamos em casa depois da apresentação de balé, finalmente livres de pais e sogros, Addie está roncando, as penas de sua fantasia de cisne tão moles quanto ela.
“Vou colocar Addie na cama”, sussurra Luke.
Olho para meu marido e assinto.
Ele pega a câmera na bolsa e a entrega para mim. “Dá uma olhada nas fotos de hoje. Tem umas ótimas.”
Sorrio e pego a câmera. “Aposto que sim”, digo, e vejo meu marido desaparecer com Addie rumo ao quarto dela. Enquanto vejo as fotos pelo visor da câmera — as imagens de Addie e da família que eu e Luke construímos juntos —, as dificuldades e o desconforto que nunca abandonaram por completo minha relação com os pais de Luke parecem distantes. Pelo menos por enquanto. Pelo menos por alguns minutos, tudo que vejo é uma família linda, e essa família é minha.
De alguma forma, Luke e eu fomos nos afastando cada vez mais ao longo dos anos. Ser mãe ou pai é como tentar se manter à tona na água. O esforço infinito de chutar, chutar, chutar, o empenho das mãos, dos braços, indo e voltando sob a superfície, a cabeça balançando. Uma série de movimentos constantes, todos pequenos, nenhum levando a qualquer lugar em especial.
Mas enquanto vejo Luke andando na ponta dos pés pelo apartamento, enquanto olho para nossa menininha dormindo no ombro dele, fico maravilhada ao me dar conta de como sua respiração curta parece entrar nos meus próprios pulmões, manter meu coração batendo; penso em como Addie realmente é o fio solto entre Luke e eu, o que nos mantém juntos, e fico grata por, de alguma maneira, nós dois termos terminado aqui, com ela, apesar de tudo que veio antes de seu nascimento.
Tiro o cachecol e o casaco, acendo as luzes e me sento à mesa da cozinha para ver as fotos da apresentação de Addie. A primeira que aparece na tela da câmera é de uma fileira de pequenos gansos no palco, pegos no meio de um salto, com os pés a centímetros do chão, as bocas bem abertas e expressões alegres nos rostos. Há closes de Addie, na primeira posição do balé, com os braços arredondados, os cotovelinhos formando ângulos estranhos; há fotos das meninas em círculos imperfeitos, com os tutus tortos. Passo por todas elas, sorrindo e rindo, até chegar a outras fotos que Luke tirou recentemente. Há algumas minhas à mesa, trabalhando, outras de Addie — indo para a escola de manhã, de pijama antes de ir para a cama. Encontro uma ótima da minha mãe, na cozinha de casa, segurando uma colher de madeira diante do fogão e sorrindo para a câmera.
Então encontro uma foto minha que não sabia que Luke tinha tirado. É de uma palestra que dei sobre minha pesquisa, algumas semanas atrás. Eu nem sabia que Luke tinha ido, porque ele não me falou nada, e dou tantas palestras que não espero mesmo que compareça a todas. Lá estou eu, no palco, olhando para o auditório lotado, com um braço erguido. Pareço séria, completamente tomada pelo que quer que esteja falando. É uma boa foto, a minha cara. Sinto uma onda potente de amor por Luke enquanto olho para a imagem, enquanto absorvo o fato de que meu marido é capaz de fazer aquilo — ir a um evento meu e tirar fotos sem que eu peça, sem me contar, talvez só porque me ama, por nenhum outro motivo além de querer ouvir o que tenho a dizer. O amor corre em minhas veias e chega até os dedos das mãos e dos pés.
Fico com vontade de beijar Luke; quero pegar sua mão e o levar para a cama. Ainda fazemos sexo, a cada dois meses, com sorte uma vez por mês, mas é mera formalidade, uma obrigação, a encenação de um casamento, a concretização do que se espera que pessoas casadas façam, ainda que na verdade não queiram mais. A maior parte dos meus amigos se sente assim, sejam gays, lésbicas ou héteros. Depois de um tempo, o desejo diminui, e ou se toma a decisão de manter o sexo como uma atividade regular do casal ou ele é totalmente abandonado.
Se ser mãe ou pai é como tentar se manter à tona na água, o casamento é como o mar. Ele se acalma e flui, com algumas mudanças importantes na maré de vez em quando, um furacão ocasional mudando a direção dos sentimentos de alguém e anos depois mudando de novo. Talvez Luke e eu estejamos seguindo em uma nova direção agora, uma boa direção. Talvez consigamos isso se eu nos levar para lá, se seguir na frente.
Continuo vendo as fotos na câmera de Luke, uma a uma, absorvendo-as, pensando em como, no segundo em que Luke voltar, vou levá-lo para a cama, em como ele vai ficar feliz por eu tomar a iniciativa, pelo menos uma vez.
Então chego a uma foto que faz meu coração parar.
É de uma mulher, rindo, com a cabeça jogada para trás. Ela usa uma malha de um verde vívido. Parece estar no parque. Continuo passando pelas fotos, para ver se há outras, mas há apenas esta, imprensada entre algumas fotos do Natal e outras de Addie na escola.
Cheryl.
O nome vem e volta na minha mente, um sussurro.
Não há nenhum indício de que esse seja o nome da mulher, nenhuma razão para eu pensar que ela se chama Cheryl — além do instinto de esposa e de um papelzinho que encontrei no casaco de inverno de Luke, no mês passado, quando o levei à lavanderia. Eu estava verificando se não havia dinheiro nos bolsos antes de entregar as roupas para o atendente do outro lado do balcão. Era um quadradinho de papel, cuidadosamente dobrado, os vincos de duas linhas retas, uma vertical e outra horizontal, dividindo-o em quatro quadrantes. Em letras perfeitas e cheias de volteios estava escrito: Luke, você é muito talentoso. Incrível. Cheryl. Quem quer que fosse, Cheryl tinha uma bela caligrafia.
Fiquei olhando para o pedacinho de papel e disse a mim mesma que aquilo não devia ser nada, provavelmente era apenas o agradecimento de uma noiva cujas fotos Luke havia tirado. Mas não consegui acreditar nisso totalmente, e uma nuvem de intranquilidade se formou sobre a minha cabeça, ainda dentro da lavanderia. Ela reaparecia de vez em quando, conforme a lembrança do bilhete, da letra e do nome, Cheryl, voltavam a se materializar na minha mente e ficavam pairando ali.
Ouço o som dos passos de Luke deixando o quarto de Addie, o ranger da porta se fechando.
Depressa, volto para as últimas fotos, para Addie vestida de cisne. Passo pela imagem que me fez pensar que meu marido continuava apaixonado por mim, que me fez ter vontade de levá-lo para a cama, uma vontade que havia se transformado em fumaça, desaparecendo em meio à nuvem repentina que cobria minha descoberta.
Eu me levanto e vou para o sofá, onde me cubro com uma manta. Bocejo de modo exagerado.
Luke chega e se joga ao meu lado, pega uma ponta da manta e cobre as pernas. “Foi uma noite boa, não acha?”
Luke e eu parecemos uma cena de filme — dois pais cansados, mas felizes, jogados lado a lado, satisfeitos com a lembrança da encantadora apresentação da filha, junto com seus pais igualmente contentes, os avós de Addie. Luke se aconchega mais perto de mim no sofá, esperando minha resposta.
“Achei que sim”, acabo dizendo. Quando Luke olha para mim fico me perguntando se notou que respondi com o verbo no passado.