As nove vidas de Rose Napolitano
Três
15 DE AGOSTO DE 2006
ROSE, VIDA 1
Minha mão paira no ar, esticada, vazia.
Em vez de me entregar o frasco, em vez de pegar minha mão, Luke devolve as vitaminas à mesa de cabeceira, onde costumo deixá-las, escondidas atrás da pilha de romances que vive do lado do meu travesseiro. Ele fica quieto.
Falo em minha defesa. “Estou tentando, Luke. De verdade.” Deixo o braço cair, e a pergunta dele fica sem resposta. Quero enterrá-la, apagá-la empilhando outras palavras sobre ela, até que não possa mais ser vista. “Mas, às vezes, as vitaminas me dão dor de estômago, e você sabe que não consigo trabalhar quando me sinto mal. Não consigo me apresentar em conferências, não consigo fazer as entrevistas da pesquisa…” Espero que meu marido se junte a mim, que me ajude a nos afastar do lugar perigoso para onde a briga nos levou.
Podemos dar um jeito nisso. Meus olhos suplicam.
Luke hesita, apenas por um segundo, e coloco minhas esperanças nesse único suspiro.
Então seus olhos se estreitam. “Não quero mais saber do seu trabalho, Rose. Estou cansado de te ouvir falar do trabalho e de como, por causa dele, não podemos ter um filho.”
Aí está, outra vez. Exposto. O problema que não conseguimos resolver.
Meu impulso de tentar consertar tudo se transforma em cinzas. Eu o encaro. “Não é só por causa do trabalho que não quero ter um filho, e você sabe disso. Não quero um filho porque nunca quis, e é meu direito não querer! Mas, meu Deus, Luke, qual é o problema em adorar meu trabalho? Qual é o problema em torná-lo prioridade? Qual é o problema comigo?”
“O problema é que, mesmo que chegássemos a ter um filho, você gostaria mais da sua carreira acadêmica do que dele! O problema é que o bebê sempre viria em segundo lugar. Nem sei por que pensei que poderia ser diferente.”
“Ah, como se você não amasse ser fotógrafo. Só que você pode ser tão feliz e tão obcecado quanto quiser com o trabalho, porque é homem.”
Luke leva as mãos às laterais da cabeça, deixando os cotovelos bem abertos. “Para com essa chatice feminista. Estou cansado disso.”
“Então para de falar como se fosse seus pais!”
Ele solta os braços ao lado do corpo, as mãos fechadas em punhos. “Tá. Estou cansado de defender você para eles, aliás.”
Cerro os dentes.
Os pais de Luke preferiam que ele tivesse se casado com outra pessoa, alguém mais tradicional, alguém que desistiria de tudo para ser mãe. Alguém que colocasse um filho acima da carreira. É uma briga que Luke e os pais vivem tendo a meu respeito — o que significa que é uma briga que eu e ele vivemos tendo a nosso respeito.
No ano passado, quando descobri que seria professora titular, liguei para Luke da minha sala e ele disse todas as coisas certas: que devíamos sair para beber, jantar e comemorar. Mas, quando cheguei em casa, Luke estava no telefone com o pai. Ele não me ouviu entrar.
“É, pai, eu sei, eu sei”, Luke estava dizendo. “Mas Rose…”
Parei na hora, sem fechar a porta da frente para não fazer barulho. Assim, Luke continuaria achando que estava sozinho.
“Sim, eu sei, mas Rose está mudando. Vai ficar tudo bem quando ela tiver um bebê.”
Houve uma longa pausa.
Meu peito doeu, minha caixa torácica doeu, o coração dentro dela doeu. Se eu tivesse algo de vidro à mão, um prato ou qualquer outra coisa que quebrasse, teria pegado e atirado no chão. Eu queria gritar.
Finalmente, Luke voltou a falar. “Sei que você acha que o trabalho sempre vai vir primeiro, mas tenho certeza de que um filho vai mudar isso.” Pausa. “Sei que você discorda, mas gostaria que desse uma chance a ela.” Pausa. “Pai, ela está cansada de falar sobre isso.” Outra pausa, depois um suspiro pesado e frustrado de Luke, seguido por uma explosão de raiva. “Pai, para, por favor!”
Um livro caiu da minha sacola lotada de coisas, batendo no chão com um tum pesado.
“Rose?”, chamou Luke. “É você?”
Fechei a porta ruidosamente, para que ele pensasse que havia acabado de chegar.
“Cheguei! Estou pronta para um drinque!”
“Tenho que ir, pai”, disse ele. Quando entrei na sala, Luke já tinha encerrado a ligação e colocado o celular sobre a mesa.
Ele avaliou meu rosto.
Eu avaliei o dele. Suas bochechas estavam vermelhas.
“Oi.” Arrisquei um sorriso feliz, tentando invocar a animação que borbulhara dentro de mim ao longo da tarde, desde que recebera a notícia. Eu queria recuperar aquela sensação. Me sentia traída, com meu momento arruinado pela conversa de Luke com o pai.
“Quanto da conversa você ouviu?”, perguntou ele.
Desisti do sorriso falso. “O bastante. Demais.”
“O que você acha que ouviu?”
Coloquei a sacola numa cadeira. “Não faz isso comigo, Luke. Sei do que vocês estavam falando.”
“Então me conta.”
“Era outra versão da conversa que você sempre tem com seus pais. Porque eu não quero um bebê, sou uma mulher ruim e falha, e sempre vou ser.”
“Não era sobre isso que estávamos falando.”
“Sei. Também ouvi meu marido se recusando a enfrentar seus pais e a dizer a eles para não se meterem no nosso casamento e pararem de falar mal da esposa dele!”
“Eu defendi você.”
“Tá, mas por que precisou fazer isso? Por que está conversando com eles sobre uma questão relacionada ao nosso casamento? Não é da conta deles!”
“Estou fazendo o melhor que posso! Você sabe que eles têm opinião forte. São meus pais, e eu amo os dois!”
“Bom, você sabe que eu tenho opinião forte, sou sua esposa e amo você!” Arranquei o lenço que usava no pescoço e o joguei na mesa.
Luke inspirou fundo, depois soltou o ar. “Você sabe que eu também te amo.”
Tirei os sapatos de salto, que se estatelaram no chão. “Você disse aos seus pais que eu tinha mudado de ideia quanto a ter um filho.”
Luke pegou o lenço e começou a dobrá-lo, passando a mão pelo tecido delicado. Tinha me dado de presente no ano anterior, e era meu preferido. Luke o estendeu para mim. “Eu só estava tentando fazer os dois sossegarem”, disse ele, baixinho.
Não peguei o lenço. Não me movi.
“Rose, por favor”, disse Luke. “Não vamos fazer isso agora. Deveríamos estar comemorando uma conquista incrível. Vamos sair.”
Meu olhar ficou mais duro. Tudo em mim endureceu. Meus músculos, minhas células, meus membros e especialmente minhas bochechas, que se calcificavam enquanto eu ficava ali, olhando para meu marido com algo que parecia ódio. E talvez fosse mesmo. As sementes do ódio. Que brotariam e cresceriam como trepadeiras, até nos sufocar. “Por algum motivo, perdi a vontade de comemorar, Luke.”
“Não seja assim.”
“Assim como? Uma mulher ruim? Uma mulher difícil? Uma mulher raivosa?”
Minha voz cresceu até que eu me vi gritando. Eu só queria ficar ali, gritando. Soltar um grito interminável de raiva, que liberaria o sentimento reprimido que aprisionava tudo na minha vida. Queria deixá-lo sair, exorcizá-lo, mas não o fiz.
Em vez disso, fui para o quarto, batendo os pés, como uma criança petulante. E, uma vez ali, bati portas de armário e gavetas enquanto trocava a roupa do trabalho por um moletom e aquelas meias grossas e feias que parecem sapatilhas.
Parabéns para mim, pensei, furiosa.
“Isso é impossível”, Luke diz agora, quebrando o silêncio. “Você é impossível.”
Fico olhando enquanto ele passa por mim, a caminho da porta do quarto, e ouço seus passos atravessando a sala, os pés descalços batendo contra os tacos de madeira. Ouço quando ele abre o armário na entrada do apartamento. Quando ele volta, seus passos são acompanhados pelo som de rodinhas, baixo e constante. Uma mala.
Ele passa por mim uma segunda vez, arrastando a mala atrás de si, a maior que temos, grande o bastante para um cadáver, como sempre brincamos. Luke para diante das gavetas em que guarda suas roupas, dobradas, limpas, organizadas, muito diferentes das minhas gavetas, que estão sempre transbordando, pijamas e sutiãs embolados, em uma miscelânea de seda e cetim. Luke põe a mala sobre a cama e ouço o som do zíper dando a volta nela, seguido pelo de suas mãos puxando uma gaveta de madeira, mãos que há algum tempo eu adorava sentir em toda a minha pele, mãos que transferem pilhas altas de camisetas, jeans e cuecas para a mala aberta. Ele esvazia uma segunda gaveta, depois uma terceira, meias, mais cuecas, em seguida o armário cheio de camisas e malhas, até que não há espaço para mais nada, nem mais um pedaço de Luke. Ele já pegou tudo que pode carregar.
Ele não me encara.
Meus olhos vão para minha foto na mesa de cabeceira dele. Tenho a cabeça caída para trás, a boca aberta, um riso no rosto. A neve brilha em minha blusa cinza e grossa, no meu cabelo escuro — Luke tinha acabado de me surpreender com uma bola de neve. Ele tirou a foto no dia em que ficamos noivos. É minha foto de que mais gosta.
Luke não a toca, nem olha para ela.
Penso nas outras fotos que tirou de mim, de nós, em como me transformou de uma pessoa que odiava ser fotografada em alguém capaz de desfrutar aquilo — bem, desde que o fotógrafo fosse ele. Penso na primeira vez que ele tirou uma foto minha, em como a sessão deveria durar meia hora e acabou se tornando um dia inteiro juntos, um único dia que se estendera por uma vida inteira de dias. Minha fúria, minha raiva, começa a derreter.
Eu queria dar um presente especial de formatura a meus pais, algo físico, algo que eles pudessem pendurar na parede de casa, algo que pudesse iniciar uma conversa sobre meu doutorado. Escolhi Luke como fotógrafo porque ele era barato e porque o estúdio ficava perto do meu apartamento. Durante a sessão, começamos a conversar. Ele estava tentando me fazer relaxar para a câmera, e acabou me convencendo a lhe contar o verdadeiro motivo pelo qual tinha começado a chorar.
Contei a ele.
Contei a Luke que, depois de defender minha tese e encaderná-la, presenteara meus pais com um exemplar; eles olharam para ela, leram o título na capa e pararam. Contei que minha mãe havia dito a coisa certa: “Meus parabéns por essa conquista, Rose! Agora temos uma doutora na família!”. Mas, sob as palavras, eu sabia que ela não entendia muito bem o que representava esse tipo de doutora em que eu havia me tornado. Contei que meus pais tinham dificuldade em entender por que eu queria tanto me doutorar, quando um diploma universitário deveria ser o bastante, especialmente considerando que meu pai, que era marceneiro, não tinha sequer feito faculdade. Contei que, embora meus pais e eu fôssemos próximos e nos falássemos e víssemos com frequência, minha pós-graduação era algo que não discutíamos muito. Sempre que eu mencionava o que estava estudando, minha mãe a princípio ouvia com interesse, mas então sua atenção diminuía, e ela parecia constrangida e dizia algo como: “Não entendo metade das palavras que você está usando, Rose”. Contei a Luke que amava meus pais, que eles também me amavam, e que eu queria que aquilo que havia se tornado uma parte muito importante de quem eu era nos ligasse de alguma forma. No entanto, essa ligação permanecia ilusória. Eu queria encurtar a distância entre nós, por isso estava no estúdio dele, tirando aquelas fotos, que talvez pudessem servir de ponte.
“Tenho uma ideia”, disse Luke, quando cheguei ao final da história.
Ele pegou a beca e a pendurou no armário, deixou o capelo sobre a cadeira e pediu que eu o levasse ao lugar onde estudara.
“Tá bom”, falei. Por que não?, pensei.
Era uma tarde razoável, não muito bonita, mas seca, apesar de meio fria e nublada. Luke me disse que as nuvens forneciam melhor iluminação para fotos que sol direto. Me senti meio esquisita passeando com ele pelo campus.
“Quero que me mostre tudo”, Luke pediu. “Todas as salas de aula, seu lugar preferido na biblioteca, seu banco preferido no pátio, a sala em que defendeu sua tese. Quero fazer o grande tour da experiência de Rose na pós-graduação e entender por que ela curtiu tanto.”
Quanto mais tempo passávamos lá e mais conversávamos, mais eu conseguia abstrair o fato de que Luke estava tirando fotos. Nossa sessão durou quatro horas, e terminou em um jantar — por minha conta. Eu insisti.
Há fotos minhas daquele dia, andando pelos corredores do meu departamento, olhando para a estante onde ficavam as monografias do corpo docente, abraçando minha tese na sala em que a defendi, procurando livros na seção de sociologia da biblioteca, falando com alguns dos meus professores preferidos, e uma foto linda e feliz com minha orientadora. São fotos bobas, divertidas, a minha cara. Mal acreditei quando as vi. Luke colocou as melhores em um álbum com uma inscrição na capa dizendo: Para meus pais, com amor, dra. Rose Napolitano.
Meus pais se sentaram no sofá com o livro. Fizeram perguntas sobre cada foto, e contei tudo a eles.
“Esta é minha preferida”, disse meu pai, apontando para a foto com minha orientadora. “Podemos separar essa e eu faço a moldura dela para pendurar na sala.”
Levei Luke para jantar de novo, como agradecimento por seu trabalho árduo, por ter criado algo tão especial, por ajudar meus pais a entenderem melhor em quem sua filha havia se tornado. E porque, bem, eu queria vê-lo de novo. Quando contei que meus pais tinham amado o álbum, que tinham me feito um monte de perguntas sobre a pós-graduação, Luke assentiu.
“Nunca fui muito fã de retratos”, disse ele. “Acho que as melhores fotos são aquelas em que estamos apenas vivendo, em lugares onde podemos ser nós mesmos. E você é muito mais você na universidade, Rose.”
Olhei para Luke no mesmo instante. Já o amava.
Luke coloca um último jeans em cima de tudo e fecha o zíper da mala.
“Aonde você vai?”, consigo dizer. As palavras saem secas e empoeiradas da garganta. Meu corpo cede, pendendo todo para o chão, os ombros curvados, o pescoço dobrado.
Ele está olhando para a mala, para o brilho do vinil azul-marinho. “Não posso, Rose. Não consigo.”
“Não pode o quê?”
“Não posso ficar. Neste casamento.”
Eu me endireito, com um movimento repentino, joelhos, ombros, vértebras ao longo da espinha, cotovelos, pulsos e dedos. “Vai me deixar por causa de um frasco de vitaminas?”
Ele se vira para mim, com os olhos cortantes. Vi essa expressão muitas vezes no último ano. A integridade, a determinação, a tragédia de ter se casado com uma mulher que se recusa a ter um filho, qualquer que seja o custo.
O custo, agora sei, é ele.
“Não. Vou deixá-la porque quero um bebê e você não, e não sei outra maneira de resolver isso.”
“Costumávamos nos entender”, digo, com a voz vazia. Derrotada. “Você costumava me entender.”
Luke engole em seco. Em seguida, balança a cabeça de maneira quase imperceptível.
Ele desce a mala da cama para o chão, com um baque alto. Então pega a alça, inclina a mala e sai do quarto, passando por mim.
Sigo atrás dele, ou flutuo, não tenho certeza, meu corpo e meu cérebro estão desconectados. Mas eu me movo, disso tenho certeza. Me movo como Luke se move, atravessando a sala, passando pela ilha da cozinha que fizemos há dois anos, porque eu adoro cozinhar, porque precisava de mais espaço para picar e fazer os preparos.
Luke acaba chegando ao corredorzinho que leva à porta da frente. Enfia os pés nos sapatos, leva a mão à maçaneta e a gira, produzindo um ruído alto e agudo.
“Tchau, Rose”, diz ele, de costas para mim, o azul-claro de sua camisa de manga comprida uma bandeira de rendição, sinalizando que é o fim. A batalha acabou.
“Para onde você vai?”, pergunto de novo.
“Não importa”, é tudo que ele diz.
Então vejo Luke sair pela porta de metal do nosso apartamento, fechando-a atrás de si. Ouço o som da lingueta, o elevador chegando ao andar, as portas se abrindo, Luke entrando, o zumbido da descida para o térreo, seguido pela quietude, pelo silêncio sem fim. Nada de passos, de zumbido, de malas de rodinha deslizando por tacos de madeira e corredores de concreto. Esse é o barulho de estar sozinha, de ser abandonada pelo marido, de ser deixada entregue ao trabalho. É o som de não ser mãe, de recusar a maternidade, o antirruído da vida que está por vir. Vou demorar para me acostumar com ele.