As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 28 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Vinte e sete

 

18 DE DEZEMBRO DE 2009

ROSE, VIDA 8

 

A decisão de transar vai acabar comigo.

O fato de ter que tomar uma decisão — como uma obrigação, como se fosse igual a lavar a louça ou passar aspirador na casa. Tornou-se penoso. Quem imaginaria que um dia o sexo seria como esfregar o chão? Eu costumava gostar. Costumava adorar. Costumava adorar transar com Luke. Mas agora fico apavorada só de pensar em sexo, de ter que tirar a roupa e me deitar nua com esse homem, em nosso esforço para fazer um bebê. Faz séculos que estamos tentando. O que já foi uma não decisão se tornou uma exigência desse casamento que detesto com toda a força do meu ser. E detesto Luke também. Sua pele, seu corpo, sua boca, seu hálito.

Isso acontece com todas as pessoas casadas? Ou só com aquelas que estão tentando engravidar — tentando e fracassando? Luke pelo menos está tentando. Eu estou só deixando que ele tente.

“Rose? Já, já estou indo pra casa. Chego o mais rápido que puder.”

Ouvir a mensagem de voz dele faz meu corpo estremecer. Luke está correndo para casa porque hoje é dia de sexo obrigatório. Temos que cumprir com nosso dever e nos submeter à programação ditada pelo meu corpo. Meu relógio biológico não para, meus órgãos reprodutivos anunciam — por meio do calendário, da minha temperatura, da dor que sempre sinto no lado direito ou esquerdo do abdome, dependendo de que ovário vai fornecer o óvulo este mês —: Agora! Façam neste instante, ou se arrisquem a fracassar de novo! A ver aquela única linha cor-de-rosa no teste, em vez de duas linhas triunfantes!

Luke está controlando o calendário. Entre as pessoas que sei que tiveram dificuldade de engravidar, em geral é a mulher que controla o calendário de fertilidade, que conta os dias e marca aqueles em que há maior probabilidade de gravidez. Mas, neste casamento, Luke está encarregado do controle, do fluxo da ovulação, e muito embora eu tenha certeza de que algumas mulheres gostariam que o marido assumisse essa responsabilidade, não sou uma delas. Luke está tão desesperado que às vezes tenho a impressão de que rastejaria até meu útero se pudesse, carregando seu esperma em uma garrafinha para plantá-lo em um dos meus óvulos e depois monitorar seu crescimento, sem se preocupar nem um pouco com meu conforto ou desconforto.

Eu queria ter os ovários removidos. Gostaria de ter nascido sem eles.

Entro no nosso quarto e fico ali. A cama é uma bagunça de lençóis emaranhados, travesseiros caindo no chão, roupas espalhadas por toda parte. Visto uma legging cinza velha que sobra na bunda e está furada nos joelhos, e meu moletom preferido, com FIM DE SEMANA escrito na frente. Ele é largo e vai até a metade das minhas coxas, como um vestido. Visto as meias grossas de arco-íris que são quase uma sapatilha, porque estou congelando, e prendo o cabelo em um rabo de cavalo. Nem tomei banho.

Essa sou eu. Muito sedutora.

Não tive aula hoje, por isso não fui à universidade. Além do mais, é o fim do semestre. Tenho prazos relacionados à bolsa de pesquisa vencendo em janeiro e uma pilha enorme de coisas para corrigir na mesa da cozinha. De quem se esperaria um banho nessas circunstâncias? De quem se esperaria sexo nessas circunstâncias?

“Oi, Luke.” Atendo o telefone assim que toca. Uma pequena parte de mim torce para que ele tenha se atrasado com o que quer que esteja fotografando e precise cancelar o sexo da tarde.

“Rose, desculpa por estar demorando tanto, mas chego logo. Prometo.”

“Não precisa se desculpar”, digo a ele. “Não tem pressa. E se você não conseguir chegar antes de eu ir pra cama, não tem problema. Não precisa me acordar. Tenho um longo dia na universidade amanhã.”

“Ah, não, eu vou chegar. Não podemos perder a janela! Te vejo logo mais!” E desliga.

“É claro que não podemos perder a janela. Não a janela! Não a porra de janela todo-poderosa!”, digo para o celular apagado em minha mão.

Então penso em outras coisas que poderia dizer a ele.

“Luke, eu estava brincando com uma bola de beisebol antes de você chegar e acabei quebrando a janela! Foi mal!”

Ou: “Querido, eu estava com tanto frio que fechei a janela, e agora não tem mais como abrir. Desculpa!”.

Vou para a sala, pego o laptop e uma das enormes pilhas de trabalhos para corrigir, depois volto para a cama, me ajeito sobre os travesseiros e começo a trabalhar. É melhor corrigir alguns trabalhos antes que Luke chegue e tenhamos que nos concentrar na janela.

“Como vocês sabem, Maria e eu fazemos uma vez por semana, às segundas.”

Jill estava falando de sua vida sexual, em um bistrô perto do campus, com outra professora amiga nossa, Brandy, que é casada.

“Mas agendar o sexo é péssimo”, resmunguei, porque ultimamente estava sempre resmungando ao falar de sexo com Jill e outras amigas. Olhei para Brandy como quem pede desculpas. Perdi minha capacidade de ser discreta. “Eu detesto.” Dei uma bela mordida no sanduíche, para me impedir de dizer mais coisas patéticas.

“Ora, então quer dizer que as coisas estão ótimas entre você e Luke?”, Brandy brincou, mas não sem compaixão. Brandy é linda, tem grandes olhos escuros e o cabelo comprido e todo trançado. “Estou com Jill nesse caso. Garantir que role uma ou duas vezes por semana já economiza muita dor de cabeça. Estou tentando virar professora titular, tenho artigos para escrever e não estou com tempo para me aprofundar nas questões do meu relacionamento com Tarik. É o jeito mais fácil. Tirar isso do caminho e ficar livre por pelo menos sete dias. Talvez até catorze!”

“A terapeuta de casais recomendou uma vez por semana”, explicou Jill, “para nos mantermos ‘conectadas’ .” O sarcasmo era claro em sua voz, e ela fez o sinal de aspas com as mãos. “Fico tensa, mas, enquanto rola, não é tão ruim. Foi Maria quem decidiu que ia ser às segundas. Considerando a agenda dela.”

“Essa é a conversa mais deprimente que já tive com outras feministas”, falei, e as duas riram. “A gente devia ligar para Gloria Steinem para avisar que a geração posterior a ela é um fracasso quando o assunto é sexo.”

“Ou podemos nos parabenizar por fazer o que é preciso para manter a carreira nos trilhos”, disse Brandy. “Não vou mentir: é legal ter alguém me esperando quando chego no fim do dia. Fora que Tarik cuida de todo o trabalho da casa! Enquanto ela estiver sendo bem-cuidada, faço o que for preciso para manter o arranjo. Só leva… o quê? Dez, quinze minutos de vez em quando?”

Jill se inclinou para a frente, de modo que sua blusa quase mergulhou na sopa. “A verdadeira questão, Rose, é se tudo isso vale a pena para ficar com Luke. Por que ainda está com ele? Ainda lembra?”

Fiquei olhando para o meu prato. Não era como se nunca tivesse pensado naquilo, ou como se Jill nunca tivesse me perguntado nada do tipo. Por que eu ainda estava com Luke, principalmente depois do que ele me havia feito passar? Por que eu estava com alguém cujo toque passara a temer, cujo corpo aprendera a evitar na cama?

A única resposta real era medo. Medo de mudar, medo de ficar sozinha, medo do luto pelo qual teria que passar com a ausência dele na minha vida. Seria uma perda. Eu amava Luke. Em algum lugar lá no fundo, ainda me agarrava a quem ele era no começo, a quem éramos no começo, quando éramos felizes. Porque tínhamos sido felizes. Eu costumava pensar que nunca ficava tão feliz quanto quando estava com Luke. Achava que ele era o amor da minha vida. Achava que ficaríamos juntos para sempre.

Mas as pessoas casadas não pensam todas o mesmo, a princípio? Quando estão diante dos amigos e familiares, depois de terem atravessado a igreja? Que a vida é cheia de esperança e promessa? Quando estão tão apaixonadas que mal conseguem ver qualquer outra coisa que não uma à outra? Mesmo quando casais mais velhos avisam que o casamento é algo complicado, que pode ficar difícil, que vocês podem chegar a se odiar às vezes, ninguém jamais acredita que vai acontecer consigo e com a pessoa que ama. Isso é só para os outros.

Quanto um casamento tem que suportar antes que as pessoas desistam? Antes que se esteja disposto a virar as costas para o amor que costumava ser tão real quanto suas próprias mãos? Quando se tem certeza de que não há como voltar ao que vocês dois tinham — de que é impossível voltar?

Por que ninguém fala como o amor é frágil? E, quando fala, por que você não escuta, para poder tentar fornecer a água, o cuidado e a luz de que ele precisa para sobreviver?

“A inércia é uma coisa poderosa”, falei, por fim. “Não acham?”

“Ah, sim”, concordou Brandy.

Ficamos as três quietas.

A inércia definitivamente era o que me mantinha casada. Eu sabia que seria doloroso seguir caminhos diferentes, e não queria passar por aquela dor. Não ainda.

“A inércia também ajuda a cumprir prazos, entregar as notas finais, seguir com a pesquisa”, acrescentei, tentando aliviar o clima. “O divórcio provavelmente nem tanto.”

Foi o aborto espontâneo que causou a mudança maníaca em Luke, no nosso casamento, na nossa vida sexual.

Cheguei a ficar grávida por algum tempo, algumas semanas. Meus seios doíam o tempo todo, me sentia enjoada e cansada. Fiz o teste e minhas suspeitas se confirmaram. Faz quase um ano, e já fazia bem mais de um ano que tínhamos começado a tentar. Meu primeiro erro foi contar a Luke.

Cheguei da universidade e preparei o jantar. Não lembro o quê, provavelmente macarrão. Estava atordoada.

Luke chegou e tirou o gorro, as luvas, o casaco. “Que cheiro bom.” Ele se juntou a mim no fogão, me abraçando por trás — algo que eu costumava adorar. Beijou meu pescoço.

As coisas continuavam boas entre nós. Por um ano abençoado desde a briga por causa das vitaminas, depois que parei de usar proteção e abri a porta para a possibilidade de ter um filho, voltamos a um ponto que achei que estava perdido para sempre.

Não respondi nada.

“Há algo errado?”, perguntou Luke.

“Não”, respondi. Sim.

“Rose, sei que tem alguma coisa errada.”

“Não tem nada errado. É só que…”

“O que foi?”

Posso não me lembrar do que estava cozinhando naquela noite, mas me lembro desse momento, de quando desliguei o fogo e fui me sentar à mesa da cozinha. Luke me seguiu e se sentou à minha frente. Eu tinha visto o teste de gravidez dar positivo, eu o tinha segurado na mão, sabia que era real, mas ainda não conseguia acreditar que era verdade. Talvez fosse verdade para uma mulher diferente, mas não para mim.

“Fiz um teste de gravidez”, falei.

Como posso descrever o rosto de Luke naquele momento? Feliz? Esperançoso?

“E?” A voz dele ficou mais aguda, de animação.

“Deu positivo.” As palavras soaram baixinhas em meio à tensa expectativa de Luke.

Ele se levantou tão abruptamente que sua cadeira foi ao chão. “Estamos grávidos?”

Houve um breve momento, provocado pelo uso do plural, em que tudo dentro de mim estremeceu. Era como o leve formigamento de uma alergia. Estávamos bem, e em questão de segundos tudo havia mudado. “Não estamos grávidos”, corrigi-o. “Eu estou. É o meu corpo, e não o seu, que vai ter esse bebê.”

“Rose, isso é incrível!” Luke assentiu, movimentando as mãos ao lado do corpo. Ele se levantou e foi buscar os vinhos no armário, depois voltou para a mesa. “Precisamos nos livrar de todo o álcool da casa. Se você não pode beber, também não vou.” Ele ficou tagarelando sobre todas as outras coisas que precisávamos tirar, consertar ou fazer na casa, para nos preparar para o bebê. Para me preparar para o bebê.

A cada nova frase de Luke, minha incerteza aumentava. Eu queria abraçar meu corpo, reivindicá-lo como meu, me recusar a deixar que me tocasse. Queria me levantar, pegar todas as garrafas de vinho, levá-las para minha sala na universidade e escondê-las lá. Beber entre as aulas. Lixar os cantos das mesas e dos móveis para que ficassem ainda mais pontiagudos e perigosos.

“Tenho que ligar para os meus pais.” Ele pegou o telefone. “E tenho que marcar uma consulta pra gente.”

Fomos à médica dois dias depois. Ela confirmou que eu estava mesmo grávida. Luke ainda não tinha me perguntado como eu me sentia a respeito.

Será que era porque tinha medo do que eu poderia responder?

Eu andava pelo mundo, me perguntando se por acaso não seria contaminada pela alegria que Luke sentia em relação à gravidez, se não a contrairia como um vírus que curasse a incerteza. Por duas breves semanas, Luke ficou extasiado. Só fazia trabalhos com casais esperando um filho ou que tivessem um bebê. Assoviava e cantarolava pela casa, voltava do trabalho cheio de informações sobre o que fazer e o que não fazer durante a gravidez — nada de sushi, nada daquele queijo que eu adorava, porque certamente ia matar o bebê. Ele contava sobre os recém-nascidos encantadores que havia fotografado, falava das alegrias de ser pai.

Tentei deixar que sua animação me puxasse como uma corrente, tentei entrar com tudo para que me levasse. Mas não era forte o bastante; afundei direto, como uma pedra.

Uma manhã, quando já fazia mais de uma hora que eu estava acordada, percebi que não estava enjoada, não estava cansada, que meus seios já não doíam. Eu vinha sentindo um pouco de cólicas nos últimos dias. Não levara muito a sério, imaginando que fosse normal na gravidez. Mas as cólicas recomeçaram naquela manhã, e, quando fui ao banheiro, vi sangue. Não era o bastante para me assustar, e as cólicas pareciam normais. Cólicas menstruais.

Era minha menstruação chegando? A gravidez tinha sido um sonho?

Eu estava livre?

Era como se eu tivesse um passe para sair da prisão.

Fui até a farmácia e comprei três testes de gravidez. Luke estava trabalhando. Cheguei em casa e fiz os três testes ao longo da manhã.

Todos deram negativo.

Eu me lembro de ter ficado olhando para cada um deles. De tê-los alinhado na pia do banheiro. Como se ver todos juntos, enfileirados, fosse me ajudar a acreditar no que me diziam. Minha cabeça se enchia de perguntas. Como era possível que eu tivesse estado grávida dias antes e agora não estivesse mais? O que havia acontecido com o futuro bebê que estivera ali, dentro de mim, para que de repente fosse embora? Eu havia feito algo errado? Como uma criança podia ter se alojado na minha barriga e depois decidido deixá-la, sem nem me consultar?

E como eu me sentia a respeito?

Triste? Perdida? Aliviada?

Minha menstruação, ou o que quer que fosse, continuou vindo, ficando mais pesada ao longo do dia. A única certeza que eu tinha era de que temia a noite, quando teria que contar a Luke.

Ele chorou. Soluçou. Segurei sua mão do outro lado da mesa. Em determinado momento, ele me lançou um olhar inquisidor. “Por que não está chorando também?”, perguntou.

“Chorei o dia todo”, menti. Talvez eu chorasse no dia seguinte, ou no outro.

Luke assentiu, se recompondo. “Precisamos voltar a usar o calendário.”

Tirei a mão da dele. “O quê?”

“Precisamos saber exatamente quando você ovula. Precisamos controlar bem.”

Fiquei sentada ali, piscando para ele.

“Se aconteceu uma vez”, Luke prosseguiu, “pode acontecer de novo, não é?”

Quando Luke finalmente volta da sessão de fotos, não o ouço entrando em casa.

Estou profundamente envolvida em um trabalho de uma aluna da pós, porque é excelente. Fico fantasiando em dizer à jovem que adoraria ser orientadora dela. O que não é exatamente afrodisíaco.

“Hum, Rose?” Luke está à porta do quarto.

“Ah, oi.” Levanto os olhos do laptop. Tiro os óculos.

“Faz pelo menos dois minutos que estou aqui, e você nem notou.” Ele parece irritado.

“Ah, desculpa. Tenho uma aluna tão talentosa na pós! Estava escrevendo um e-mail para ela.”

Luke não responde. Provavelmente porque tem outras coisas na cabeça, como a tarefa que temos pela frente. Ele se aproxima. Tira o relógio e o deixa na mesa de cabeceira. Volto a pôr os óculos e a olhar para a tela do computador. Luke logo tira a camisa, a calça, a cueca, e entra debaixo da coberta, enquanto eu ainda estou totalmente vestida, sem ter tomado banho e envolvida no trabalho da aluna.

“Rose”, diz Luke, por fim. É a única iniciativa que toma, se é que se pode chamar assim. Seu tom é quase impaciente, quase uma súplica.

Dez minutos, digo a mim mesma, deixando o laptop de lado. No máximo, quinze. Aí acaba.

Por que cedi ao meu marido aquele dia, tanto tempo atrás, depois da briga? Por que não o afastei? Deveria ter feito isso? Estaria melhor se o tivesse simplesmente deixado, acabado com esse casamento?

“Estou com frio, não vou aguentar tirar o moletom”, digo a Luke.

“Não tem problema.”

Ele já está tirando minha calça. Deixo que o faça, porque o que mais posso fazer? Não foi com isso que concordei? Na alegria e na tristeza? Sexo é parte do acordo do casamento, então pronto. Teremos sexo.

Além disso, não preciso fazer nenhum esforço nessa parte do processo de fazer um bebê. No restante, sim. Mas é Luke quem precisa ter um orgasmo. É Luke quem precisa expelir o esperma. Graças a Deus não tenho que me preocupar com orgasmo durante essa provação, porque ele nunca viria, não assim.

Eu me deito de costas, com a cabeça virada de lado.

Do outro lado da janela, está quase escuro. O sol baixa cedo, agora que o inverno chegou.

Luke e eu nem nos beijamos; não nos beijamos mais. O que é bom, porque não quero. Parei de beijar meu marido no momento em que ele começou a controlar minha ovulação. Na bochecha, tudo bem, mas aqueles beijos demorados que costumávamos dar? De jeito nenhum.

Reparo na foto que Luke mantém na mesa de cabeceira, da Rose feliz, da Rose risonha. Para onde ela foi? Ainda está em algum lugar dentro de mim? Será que esta Rose e aquela outra vão voltar a se fundir? Ou aquela Rose se foi para sempre? Será que esse casamento a matou?

Quanto tempo isso pode perdurar? Será que um dia acaba?

E se eu nunca engravidar?

Terei que fazer isso pelo resto da vida? Ou, pelo menos, até a menopausa?

E pensar que eu costumava esperá-lo nua nesta cama, louca para surpreendê-lo com sexo no instante em que ele chegasse, que andava pela cidade usando saia sem calcinha só para poder sussurrar aquilo para Luke quando estávamos de mãos dadas no parque, ou indo jantar. Eu costumava planejar como seduziria este homem — quando namorávamos, quando ficamos noivos, ao longo dos primeiros anos de casamento. O fato de que eu me considerava hábil na sedução e em tudo que se referia a sexo parece risível agora. Como um papel desempenhado em um filme ou programa de televisão, um papel que durou um tempo, mas que afinal era apenas um papel.

Qual é a sensação de querer sexo?

Não consigo nem lembrar.

É como se houvesse um interruptor dentro do meu corpo que de alguma forma tivesse sido desligado, e agora que desligou — agora que sei que o interruptor existe — eu não conseguisse mais voltar a ligá-lo. É como se eu tivesse sofrido um curto-circuito, e o eletricista necessário para me consertar não existisse. Ou, pelo menos, Luke não tem a habilidade ou o conhecimento necessário para fazer isso.

Enquanto os minutos passam — três, quatro, cinco, já devem ser seis a esta altura —, penso naquelas conversas que as pessoas sempre têm com universitários sobre sexo e desejo, sobre consentimento e as consequências de não o receber do parceiro, sobre como, se não tomarmos cuidado, do lado oposto do desejo, o território do estupro e do crime nos aguarda.

A mera noção dessas conversas bem-intencionadas com alunos parece absurda e cômica enquanto meu marido se move em cima de mim e eu fico deitada ali de costas, sem reagir. Como nomear o que Luke e eu estamos fazendo? É com certeza um tipo de sexo, e teoricamente ambos consentimos. Mas ambos queremos? Desejamos? Posso dizer com certeza absoluta que o sexo em que estou envolvida agora não é desejado. Mas está rolando, mesmo assim. Concordei com isso, ainda que relutante. Então do que se trata? É semiconsensual? Mera transação? Sou uma prostituta no meu próprio casamento?

Sete minutos certamente se passaram.

Oito? Nove? Quanto mais isso vai durar?

Penso no trabalho, na minha pesquisa, no projeto mais recente que estou lançando. Vou entrevistar jovens mulheres que decidiram não ter filhos. Muito passivo-agressivo? Não contei a Luke, porque sei que vai ficar irritado, e estou cansada de brigar com ele. Mas estou animada com o estudo. Quero saber o que as mulheres têm a dizer. Penso a respeito o tempo todo. Estou pensando agora mesmo.

Dez minutos? Onze? Deve estar acabando.

Luke grunhe e geme.

Ah, graças a Deus finalmente acabou.

Nunca mais vou fazer isso, penso, enquanto a luz desaparece do lado de fora das janelas. Chega. Chega. Conforme as palavras se espalham, sei que são verdadeiras.

Luke cai em cima de mim, arfando, a cabeça apoiada no FIM DE SEMANA escrito no meu moletom. “Talvez tenha finalmente acontecido”, diz ele.

“Talvez”, eu digo.

“E, se não tiver, talvez a gente deva se consultar com especialistas em fertilidade.”

Luke sugere isso de maneira casual, entre uma e outra respiração, como se estivesse falando do clima, comentando que vai nevar e talvez minhas aulas sejam canceladas.

Não, penso. Não, porra.

E finalmente, finalmente, os pensamentos clandestinos de resistência que ando tendo abrem caminho até subirem por minha garganta, minha língua e minha boca.

“Não, Luke”, digo, tirando-o de cima de mim e pegando a calcinha do chão, depois a legging. Eu costumava ser uma mulher que dizia não ao marido com confiança. Preciso voltar a ser — ela ainda está dentro de mim. Sei disso. Posso senti-la despertando. “Não vou de jeito nenhum a um especialista em fertilidade. Podia acontecer ou podia não acontecer. E não aconteceu. Não vai acontecer. Ponto-final.”

“Mas, Rose…”

“Não, Luke”, repito. “Não.”