As nove vidas de Rose Napolitano
Trinta e seis
22 DE MAIO DE 2020
ROSE, VIDAS 3 E 6
“Addie, se você não pegar esse celular e me ligar de volta agora mesmo, vai ficar um mês de castigo!”
Desligo depois de ter deixado uma mensagem de voz e desabo sobre a mesa da cozinha.
Todas as luzes do apartamento estão apagadas, a não ser por uma, acima do fogão. O sol já se pôs, escurecendo o mundo à minha volta. Estou sentada aqui, imóvel, olhando para o celular, esperando que o rosto de Addie apareça na tela. Eu me levanto e acendo alguns abajures, até que um brilho rosado preenche a sala e a cozinha. Luke e eu sempre achamos que luzes no teto eram fortes demais, ofuscantes demais, enquanto luzes indiretas forneciam uma iluminação mais agradável, um clima. Tínhamos orgulho de ter decorado nosso apartamento pensando em romance. Agora as sombras leves e os halos à minha volta parecem uma provocação.
Bato o telefone contra a mesa, como se aquilo pudesse fazê-lo tocar. Então o atiro, com um grito. A tela racha, é claro. Sou tão idiota! “Olha o que você me fez fazer, Addie!”, grito para o apartamento vazio.
Penso em quando era nova e desafiava minha mãe. Em como ela ficava brava, em como gritava comigo como uma louca quando eu chegava em casa. Lembro que eu dizia isso a ela, Você é louca! Eu gritava, depois subia para o quarto, batendo os pés, sabendo que logo ouviria os passos dela na escada, seguidos pelo anúncio de que eu estava de castigo. Então eu gritava de volta e batia a porta tão forte quanto podia. Às vezes, eu a abria só para poder batê-la de novo, várias vezes, gritando de raiva.
Se minha mãe estivesse viva, eu ligaria para ela e pediria desculpas por tudo que a fiz passar. Se minha mãe estivesse viva, eu poderia contar isso a ela, e então riríamos, recordaríamos as vezes em que me comportei da pior maneira possível. Então eu contaria a ela como Addie tem agido ultimamente e ela ofereceria seus conselhos de mãe. O mundo é um lugar muito solitário sem ela.
Às vezes, quero gritar isso para Addie. Você sentiria minha falta se eu não estivesse aqui! Pode ter certeza!
Ser mãe ou pai é mesmo de enlouquecer.
Meu celular acende, mas é Luke ligando, não Addie. “Ela falou com você?”, pergunto.
“Não.” Seu suspiro é pesado, cansado.
Sei o que ele está pensando sem que precise dizer. “Estou muito brava com ela agora, mas continuo achando que não devemos rastrear o celular. Ela precisa de independência.”
“Sim, concordo”, diz Luke. “Acho que a gente devia pegar leve com ela.”
“De jeito nenhum. Esse comportamento é inaceitável.”
“Rose.” Outro suspiro. “Ela está se comportando assim por nossa causa.”
Não respondo.
“É verdade. Você sabe disso.”
“Faz mais de dois anos, Luke, e já estávamos separados antes”, digo, mas ele está certo.
“Divórcio é sempre difícil para os filhos.”
Sei que ele está certo de novo, mas sou tomada pelo pânico. “E se alguma coisa horrível aconteceu com ela?” Minha voz sobe, e eu vou junto, me levantando. “E se alguém a sequestrou?”
“Ninguém a sequestrou, Rose. Ela está bem. Só está fazendo drama.”
Eu murcho. “Acha mesmo?”
Luke ri, gargalha. “Acho que ela vai ficar de castigo quando a encontrarmos, mas, fora isso, está tudo bem. Ela só está se rebelando contra os pais malvados.”
Vou para a sala e me deito de costas sobre o tapete, entre o sofá e a mesa de centro. Fico olhando para o teto. “Quando foi que nos tornamos maus? Não éramos maus.”
“Se formos comparar, imagino que eu seja pior que você.”
Há um leve tom de brincadeira na voz de Luke. “Agora vamos competir para ver quem é pior?”
“Acho que sim. E vou ganhar.”
Levo a mão à boca para segurar a risada. Como posso rir? Addie sumiu! Luke e eu estamos divorciados! “Acho que você vai acabar ganhando mesmo.”
“Ah, com certeza. Tive um bebê com uma mulher que não é a mãe dela.”
“Isso é bem sacana.”
“Muito sacana.”
“Vou te dar uma capa e uma máscara no seu aniversário, para representar a intensidade da sua vilania e suas aventuras malignas aqui na Terra.”
“Estou muito à sua frente. Já tenho minha fantasia de supervilão. Comprei numa promoção, depois do Halloween.”
Ouço uma sirene lá fora, o volume aumentando e depois reduzindo. Mas estou rindo. Não consigo evitar. “Então vou te comprar uma nova, para você poder usar enquanto a outra estiver lavando.”
Luke ri alto. Não o ouço rir tanto desde muito antes de nos separarmos. “Onde você está?”, ele pergunta de repente.
“Deitada no tapete, na frente do sofá, olhando para o teto. Comprei um tapete novo depois que você foi embora, muito gostoso. Nunca gostei daquele áspero que você insistiu em comprar só porque estava em promoção.” Uma brisa entra pela janela e varre a sala. Eu me sento e apoio os cotovelos na mesa de centro. As cortinas se agitam ligeiramente. “Sinto sua falta, Luke”, digo, sem pensar. “Não de um jeito inapropriado. Sinto falta do seu senso de humor. E da sua amizade, acho. Éramos tão bons amigos.”
“Também sinto falta da nossa amizade.”
“Acha que um dia poderemos voltar a ser amigos?”
“Acho que seria bom para Addie se fôssemos amigos.”
“Sim. Mas talvez seja bom para nós também.” O que estou dizendo? Acho mesmo isso?
“Também acho.”
Acho que estou falando sério. Mas talvez só porque Luke e eu concordamos em relação a alguma coisa, e não concordamos em relação a nada já faz muito tempo. Mas talvez o motivo não importe.
Bato o punho cerrado contra a mesa de centro. “Onde será que Addie se enfiou, caralho?”
“Opa, opa. Olha como fala, dra. Napolitano.”
“Como eu falo não importa porra nenhuma, porque nossa amada filha está nos ignorando e se rebelando contra as suas maldades. Ela não vai me ouvir!”
“Acho que estamos fazendo muito progresso esta noite, Rose.”
“De que caralho você está falando, Luke?”
Ouço o barulho de uma cadeira sendo arrastada no apartamento de Luke, depois o de ele se sentando. “Acho que estamos indo bem no esforço para sermos amigos. Não conversamos assim desde…” Ele faz uma pausa. “Não me lembro da última vez que conversamos assim. Ou de ter rido tanto com você.”
Decido ser sincera. “Eu também. É legal.”
“Talvez esse seja o plano maligno da nossa filha. Talvez ela esteja querendo nos obrigar a nos relacionar de novo. Talvez saiba que é disso que precisamos. E por isso tenha decidido se escafeder com suas amiguinhas pré-adolescentes do mal para testar.”
“Bom, se isso é verdade, a culpa é sua. Minha filha é um anjo. Amorosa, fofa e perfeita.”
“Não era o que você estava dizendo antes.”
Eu me levanto do chão, pego um copo do armário e encho de água. “Estou dizendo agora. Decidi que, se focar no lado positivo e só pensar na versão da nossa filha que adorava a mamãe, talvez essa versão retorne e ocupe o lugar da pré-adolescente em que seu pai malvado a vem transformando.”
“Eu falei”, diz Luke.
Eu me sento e apoio o copo na mesa de centro. “Falou o quê?”
“Sabia que você ia adorar ser mãe.”
“Ah, pelo amor de Deus, não me venha com essa agora. Eu não amo ser mãe. Amo Addie. Não é a mesma coisa.”
“Do que está falando, Rose? Qual é a diferença?”
“Não sou do tipo maternal e acho que nunca vou ser. Só porque cedi e tive uma filha não significa que fui convertida. Mas, agora que tenho Addie, eu a amo como uma louca.” Tomo um pouco de água. “É horrível amar alguém tanto assim. Odeio isso.”
Luke está rindo de novo. “Você é uma ótima mãe.”
“É claro que sou uma ótima mãe. Sou uma mulher bem-sucedida. Tenho doutorado e publiquei vários livros. Posso fazer o que quiser.”
“Você é tão teimosa… impossível.”
“Há um minuto você estava me elogiando”, eu o lembro.
“Posso te perguntar uma coisa?”
O tom de voz sério dele me faz hesitar. “Hum, talvez. Depende do quê.”
Ouço Luke soltar o ar. “Como está o Thomas?”
Eu não estava esperando por isso. “Quer mesmo saber?”
“Quero.”
Luke e eu concordamos que eu contaria a ele se começasse a sair com alguém, porque isso afetaria Addie. Mas mencionar que eu estava com alguém era muito diferente de ter uma conversa real com meu ex-marido sobre esse relacionamento. “Essa é a conversa mais esquisita que já tivemos desde o divórcio.”
“Estou gostando”, diz Luke.
“Eu também”, digo. “Thomas está ótimo. Ele é ótimo.”
Thomas e eu nos conhecemos em uma das minhas noites de autógrafo. Ele tinha ido com algumas pessoas do meu departamento. Quase todo mundo que eu conhecia estava na livraria aquela noite. Meu pai, Addie, Jill, Maria, Raya, Denise, um número enorme de pais da escola de Addie. Foi muito legal, mas de um jeito inesperado — porque também foi a noite em que eu e Thomas nos conhecemos.
“Oi, qual é seu nome?”, perguntei automaticamente, quando chegou sua vez na fila.
“Thomas”, disse ele.
Ergui os olhos e me dei conta de que o homem que estava à minha frente não só tinha uma bela voz como era muito bonito.
Ele sorriu, o que só o deixou mais atraente. “Parabéns pelo livro. Estou muito animado para ler. Seus colegas têm você em alta conta.” Ele olhou em volta e apontou para o grupo de professores conversando perto do vinho. “Também sou sociólogo.”
“É mesmo?”, perguntei, um pouco empolgada demais. “Eu adoraria ouvir mais sobre seu trabalho!” Dava para ver que o homem esperando atrás de Thomas estava ficando impaciente. Ele não parava de olhar por cima do ombro de Thomas, fazendo cara feia. “Você pode ficar um pouco mais? Vamos sair para beber alguma coisa depois que o lançamento terminar. Poderíamos conversar um pouco.”
Ai, meu Deus. O que você está fazendo, Rose? Convidando um desconhecido para sair?
“Claro, eu adoraria”, disse Thomas.
Autografei o livro de Thomas e o devolvi a ele. “Obrigada por ter vindo. É sempre bom conhecer alguém da área.” Ainda mais alguém tão bonito quanto você.
“É mesmo”, disse ele, e sorriu de novo. Fiquei vendo enquanto ele seguia em direção aos meus colegas.
Conversamos a noite toda. Saímos os dois na semana seguinte, depois na outra, até que um dia acordei com Thomas ao meu lado na cama e me dei conta de que todas aquelas saídas constituíam um relacionamento. Um relacionamento que estava me fazendo feliz.
“Ainda é cedo”, digo a Luke. “Não faz nem seis meses que estou com Thomas.”
“Você parece gostar dele.”
“Eu gosto”, admito. O celular apita, porque estou recebendo outra chamada. Tiro o telefone da orelha por um segundo para olhar para a tela. “Aimeudeus, é Addie!”
“Que bom! Mas pega leve com…” Luke ainda está falando quando desligo para atender a outra ligação.
“Addie! Você está bem?”
“Claro, mãe.” Ela está impaciente. É como se ter que falar comigo fosse um saco.
“Addie, você me matou de preocupação!”
“Mãe…”
“Não vem com essa de ‘mãe’! Eu te amo, te amo muito, e por isso fico feliz em ouvir sua voz e saber que você está bem, graças a Deus, mas seu pai e eu estávamos ficando loucos, e você está de castigo! Vai ficar de castigo até os vinte anos!”