As nove vidas de Rose Napolitano
Onze
19 DE JANEIRO DE 2009
ROSE, VIDA 2
Ouço a porta do apartamento se abrir e fechar.
“Eeeeeiii”, digo do quarto, sedutora.
Bom, ou pelo menos tentando ser sedutora. Não tenho certeza de que vou atingir o efeito desejado, principalmente considerando que não estou me sentindo muito sedutora. Estou mais para consternada e com raiva. Até minha lingerie é um pouco colérica, em um tom de vermelho forte e vivo, vermelho-fogo, vermelho-ódio. Sou uma mulher furiosa de lingerie.
“Rose?” A voz desconfiada de Luke viaja pelo apartamento.
“Estou aqui! No quarto! Vem! Não vai se arrepender!”
Reviro os olhos para mim mesma.
É claramente o fim. O fim de tudo. O meu fim.
“Só um minuto”, diz Luke, alheio aos prazeres sexuais que o aguardam na cama, isto é, sua esposa, no momento enrolada em uma manta de vovó com listras multicoloridas. Meu plano é tirá-la logo antes de ele entrar no quarto, como se eu estivesse perfeitamente feliz deitada seminua na cama no meio de janeiro, em pleno inverno. Está fazendo um frio da porra. Eu devia ter ligado o aquecedor, mas agora é tarde demais. Não vou me esgueirar até o termostato na sala vestida desse jeito. Além do mais, estragaria a surpresa.
Posso ouvir meu marido verificando a correspondência, largando suas coisas na mesa da cozinha, abrindo um envelope e tirando a papelada lá de dentro. Ele lê em silêncio. Então o processo recomeça. Talvez ele nunca chegue aqui. Talvez decida dormir no sofá, sem nem entrar no quarto.
Seria tão terrível assim?
Tento não responder à pergunta, me distraindo com outras coisas. O início do semestre está chegando, mas ainda não fechei o programa da disciplina. Sempre começo a folga de dezembro com a intenção de fechar logo o programa, o que nunca acontece. Cinco minutos depois de entregar as notas dos alunos, entro no modo festas de fim de ano. E, nos últimos dois meses, mal avancei em minha pesquisa ou escrevi o que quer que fosse. Suspeitas de traição por parte do marido podem atrapalhar bastante a produtividade acadêmica de uma mulher.
Ouço outro envelope sendo rasgado, outra carta sendo aberta, em seguida o silêncio de Luke lendo o que quer que tenha nas mãos. Enrolo a manta com mais força no corpo.
Faz um bom tempo que eu e Luke não transamos. Meses. Quando Luke voltou atrás no desejo de ser pai, fiquei esperando por um recomeço, pensei que dias melhores viriam. Mas, ultimamente, parecemos seguir em direções opostas, nos afastando cada vez mais. Fora a vida normal, que se coloca entre nós. Dar aulas, trabalhar na pesquisa, sair para jantar com amigos, as viagens a trabalho cada vez mais frequentes de Luke. E não é que ele ande atrás de sexo, não é que eu esteja dizendo não. Faz muito tempo que ele não toma a iniciativa.
Talvez porque esteja fazendo sexo com outra pessoa.
Mas talvez ele esteja esperando que eu dê o primeiro passo, que reintroduza o sexo na nossa vida de casados, que reconheça o quanto nos afastamos e promova nossa reconciliação. Que eu faça dele, e do sexo, uma prioridade. Luke parou de me pressionar quanto a ter filhos, e agora era minha hora de dar um passo na direção dele. Na direção de um nós.
Há uma foto minha com Luke pendurada na parede do meu lado da cama, no dia do nosso casamento. Eu me inclino para beijá-lo na boca, e seus olhos brilham. Estamos tão felizes. É nossa felicidade que torna tão difícil olhar para essa foto agora. É doloroso pensar em como nos afastamos tanto daquilo, a ponto de chegar aqui. Eu me lembro do exato momento em que a foto foi tirada, logo depois da retrospectiva exibida para os convidados, pouco antes de cortar o bolo. Luke havia montado a retrospectiva, claro, como o fotógrafo oficial da nossa vida.
Ele me conduziu até as duas cadeiras no meio da pista de dança, posicionadas ali para que tivéssemos a visão desimpedida e para que todos os convidados pudessem observar nossa reação a nossas próprias fotos. Duas priminhas de Luke correram para ajeitar a cauda do meu vestido em volta da cadeira, como vinham fazendo o dia inteiro. Soltaram a música, e a retrospectiva começou. Luke sussurrou: “Sou o homem mais sortudo do mundo, Rose”.
Conforme as fotos se seguiam — desde algumas do dia em que nos conhecemos até uma tirada na semana anterior, de nós dois com nossos pais, os seis comendo pizza depois de ter discutido os últimos detalhes do casamento —, eu pensava em como costumava não gostar de câmeras. No entanto, de alguma maneira, por causa daquele homem que estava sentado ao meu lado, ali estava eu, sorrindo, rindo, muito à vontade. Pensei em como Luke conhecia a verdadeira Rose, quem eu era lá no fundo, e sabia como trazê-la à tona, como capturar minha verdadeira essência. Pensei em como, desde o momento em que ele me entregou o álbum da minha vida na pós para presentear os meus pais, nunca mais olhei para o passado, certa de que não podia haver um homem melhor no universo, um homem melhor com quem passar a vida. Minha vida.
A retrospectiva foi perfeita, a nossa cara. Quando terminou, eu me inclinei, virei para meu marido e disse: “E eu sou a mulher mais sortuda do mundo, Luke. Te amo. Você me conhece melhor que ninguém”.
“Eu sei disso”, ele falou, virando para mim. “Como você me conhece também.”
Eu o beijei. Ainda estávamos nos beijando quando as luzes se acenderam, e foi então que tiraram a foto que vive na nossa parede desde então. A foto para a qual estou olhando agora. A magnitude absoluta de nossa felicidade nessa imagem, quando me permito encará-la, me deixa com vontade de chorar sua perda.
Será que Luke pode voltar a se sentir assim a meu respeito?
Será que posso voltar a me sentir assim a respeito dele?
Ouço a torneira. Luke está enchendo um copo de água.
“Ei”, eu grito. “Não esqueça que estou esperando!”
“Um segundo!”
Ouço os passos de Luke na cozinha, depois na sala.
Tiro a manta e jogo no chão. Assim que fica descoberto, meu corpo inteiro se arrepia.
Mais cedo, experimentei posições diferentes de sedução. Deitada de lado, o cotovelo apoiado na cama e a cabeça na mão; deitada de bruços, com os pés no alto, os cotovelos apoiados na cama e a cabeça nas mãos; deitada de costas, opção que logo descartei, porque parecia que estava numa mesa de operação, esperando que abrissem meu corpo.
Ouço os passos de Luke se aproximando do quarto. Finalmente.
Estou tremendo de frio quando ele me vê. Mas também estou tremendo de nervoso, talvez um pouco de medo. É este o momento em que iniciamos o trajeto de volta à felicidade abençoada? Será o começo dessa jornada?
Será?
Luke para ao me ver. Não está sorrindo, não dá risada. Só tem uma expressão de espanto e não muito satisfeita no rosto. “Rose, o que é isso?”
A ideia era que ele entrasse no quarto e seu rosto se iluminasse com um sorriso, que seus olhos brilhassem como quando me desejava, como eu adorava ver, mas não via há muito tempo.
“Hum… o que você acha que é?” Não é a mais sedutora das respostas, mas eu me consolo dizendo que o que importa é o meu esforço. Considerando o que estou usando, e o fato de estar esperando meu marido nua na cama há uma hora, esse esforço deveria ser evidente.
Luke se aproxima da cama e a contorna. Pega a manta do chão e a joga para mim. “Você está congelando.”
Fico vermelha na hora. Cubro da barriga aos pés. “Queria fazer uma surpresa.”
“Rose.” Luke suspira. Em seguida, se senta na beirada da cama — bem distante, o suficiente para não conseguir me alcançar, mesmo estendendo o braço. “Acho que não consigo fazer isso hoje.”
Isso o quê? Sexo?
Fazer sexo?
Será que todas as pessoas casadas acabam se sentindo assim em relação ao sexo? Será que acabam por considerar uma atividade que já foi prazerosa e conectiva uma espécie de tarefa a cumprir, como lavar a louça ou aspirar a casa? Não algo gostoso, mas algo que precisa ser feito?
Luke me olha como se preferisse estar em qualquer outro lugar que não na cama com a esposa querendo sexo. Eu estava errada em pensar que podíamos salvar nosso casamento? Que podíamos salvar nossa relação? Será tarde demais?
“Eu andei pensando, sabe?” Eu me aproximo dele, imprudente. “Talvez eu esteja errada, Luke. Talvez devêssemos tentar.”
O que você está fazendo, Rose?
Seus olhos parecem céticos. Até um pouco frios. “Tentar o quê?”
“Você sabe… ter um bebê.” Estou desesperada. Claramente.
Luke se levanta da cama na mesma hora. “Não.” Ele parece bravo.
Eu o encaro, incapaz de me mover, uma pilha de manta, lingerie e esposa rejeitada. “Como assim, não? Por que não? Faz anos que você me atormenta por causa disso. Quando finalmente digo sim, você diz não?”
“Você está brincando comigo, Rose? Está de brincadeira comigo?”
Abro a boca, depois fecho. Deveríamos estar nos reconciliando, reacendendo a chama, mas é um desastre. Droga.
Pela expressão fria nos olhos de Luke, é como se, ao fazer isso hoje, me oferecendo para transar, de repente aceitando o bebê, depois de todo esse tempo, esse bebê que ele tanto queria, ou costumava querer, de alguma forma eu tivesse transformado esse desejo numa ofensa para ele.
Incapaz de evitar, faço outra pergunta, a pergunta que tem ocupado minha mente nos últimos meses, mas que não ousei dizer em voz alta.
“Você está saindo com alguém?”, pergunto ao meu marido.
O silêncio dele é infinito.