As nove vidas de Rose Napolitano
Quarenta
23 DE AGOSTO DE 2024
ROSE, VIDAS 1-3, 5-9
“Por favor, me diz que Addie não vai se machucar, pulando daquelas pedras.”
Thomas se inclina para a frente na cadeira de praia com listras azuis, verdes e rosa, protegendo os olhos com a mão, meio brincando, meio falando sério.
Adolescentes de todas as idades, e talvez até alguns universitários, se aglomeram em cima da maior das pedras que se projetam ao final da praia. Uma menina ruiva de cabelo comprido grita de alegria depois de pular, antes de chegar na água.
“Ah, não se preocupa.” Tiro areia dos pés e das mãos. “Addie vai ficar bem. Ela está se divertindo. Eu costumava pular daquelas pedras quando tinha a idade dela. Fiz isso por anos.”
“Mas os pais são muito mais estressados e cautelosos hoje”, diz Thomas. “Fico surpreso que a associação de pais e mestres local ainda não tenha proibido pular daquelas pedras. A gente devia propor uma lei que impedisse esse tipo de comportamento, Rose.”
“Você é ridículo”, digo a ele, então beijo seu ombro. Um amigo de Addie, Tim, grita para a menina na água voltar lá para cima para pular outra vez.
“Não estou brincando! Olha só aquilo. É a porra do monte Everest, só que numa praia da Nova Inglaterra!”
Eu o cutuco. “Não é tão alto assim. E a água é bem profunda naquele ponto.”
“Exatamente!”
Minha cadeira de praia está deitada demais para que eu consiga ver Addie nas pedras. Eu a ajeito em uma posição mais sentada. Como Thomas e eu, outras pessoas na praia estão olhando para as crianças que nadam até as pedras, escalam e mergulham, repetindo o processo em seguida. A atmosfera é festiva, graças à onda de calor, ao fim de semana e ao fato de ser agosto. Os guarda-sóis espalhados são vermelhos, cor-de-rosa, laranja, amarelos, roxos, verdes, listrados, de bolinhas, floridos. As toalhas e as roupas de banho constituem outra profusão de cores e padrões contra o pano de fundo da areia branca escaldante e do mar azul e frio.
Desde pequena, minha mãe incutiu em mim o amor pela natureza, nutrido à medida que eu crescia. Como todas as mães, ela podia ser crítica, indiferente, inacessível, mas também podia ser maravilhosa, divertida, amorosa e generosa; uma pessoa que me encorajava a assumir riscos, a seguir meu coração. Sinto sua falta, e agora ainda mais, porque ela adorava a praia.
“Ai, meu Deus. Addie está se preparando para pular.” Thomas leva as mãos aos olhos. “Não consigo ver.”
“Vai ficar tudo bem”, digo a ele, com os olhos fixos na menina magra de pernas finas usando biquíni verde-limão, com o cabelo comprido e molhado caindo em volta do rosto. Por um bom tempo, Addie usou cabelo curto, mas depois decidiu deixar crescer, e agora ele já passa dos ombros. Ela olha para baixo, para a água escura e profunda, e meu coração se enche de medo. Ela vai mesmo ficar bem? E se algo horrível acontecer? Como vou poder viver comigo mesma tendo-a deixado subir ali, tudo por causa das histórias que tinha lhe contado sobre fazer exatamente aquilo quando tinha a idade dela? Volto a falar. “Se Luke estivesse aqui, estaria dando o maior sermão sobre como não se deve permitir que uma criança arrisque a vida assim, ou seja, sobre como nenhuma criança deveria poder se divertir com nada arriscado.”
Addie coloca os braços para trás, dobra os joelhos.
“Acho que concordo com Luke nesse ponto”, diz Thomas, com os olhos ainda tapados.
“Mentira.”
“Não, de verdade. Estou falando sério.”
“Lá vai ela”, grito, vendo Addie se jogar da pedra e cair direto na água. Um segundo depois, ela reaparece. As outras crianças comemoram. “Ela fez direitinho!”
Thomas finalmente destapa os olhos. Solta o ar demoradamente, depois olha para mim. “Ih. O que é esse sorriso no seu rosto, Rose?”
Eu me levanto da cadeira e pego uma toalha. “Apenas olhe.”
“Você vai também? Está maluca?”
“Não se preocupa! Sou especialista em pular daquela pedra…”
“Daquele penhasco, você quer dizer.”
Thomas estica a mão para mim. Eu a pego. “Vai ficar tudo bem. Vou ficar bem.”
“Ótimo. Agora tenho que ficar preocupado com a possibilidade de duas mulheres tendo uma morte horrível hoje.”
Thomas não solta minha mão. Eu a aperto de leve, depois meus dedos escapam dos dele.
“Tá, tá bom, vai lá com a Addie”, diz ele, balançando a cabeça. “Não gosto mesmo da ideia da menina sozinha lá em cima. Se algo terrível acontecer, você pode salvá-la.”
Ponho uma das mãos na cintura, fingindo estar ofendida. “E se algo terrível acontecer comigo?”
Thomas ri. “Aí Addie pode salvar você, claro.”
“Tenho certeza de que ela vai ficar muito feliz quando me vir chegando”, digo.
“Acho que ela vai ficar empolgada, mas em segredo.”
“Vamos ver!”
A caminhada até as pedras leva um pouco mais de cinco minutos. Crianças brincam na água e constroem castelos de areia, pessoas riem, a espuma das ondas indo e voltando fornece a trilha sonora de fundo. Quando chego, estou suando. Deve estar fazendo uns trinta e cinco graus.
Um menino alto e musculoso, que deve ter uns dezesseis ou dezessete anos e usa calção de banho verde-água, segura os joelhos junto ao corpo ao pular, e todos que esperam sua vez gritam e aplaudem. Alguns acabam me vendo ali, prestes a nadar até o ponto que todo mundo usa para subir nas pedras. Addie está entretida na conversa com seu amigo Tim. Ri de alguma coisa que ele diz.
Faço um aceno com a mão. “Addie!”
Ela olha. Quando sorri para mim, eu mergulho, e sinto o redemoinho de água fria. É refrescante, considerando o calor. Eu nado peito, e o bater da água contra meu corpo é como uma música de que senti falta. Memórias pungentes inundam meu cérebro quando chego às pedras e apoio minhas mãos molhadas — imagens da primeira vez que ousei fazer isso, aos treze anos, quando me empertiguei toda ao ouvir um menino de quem era a fim, Ray, me chamar lá de baixo. Foi mais ou menos no mesmo instante em que meu pai descobriu que eu lhe havia desobedecido e apareceu para me arrastar para casa e me deixar de castigo.
“Precisa de uma mãozinha, dra. Napolitano?”, Tim grita para mim.
Olho para o garoto alto de quem Addie parece gostar. Recentemente, ela declarou durante o jantar que era bissexual. Talvez tenha sido ele quem a ajudou a descobrir esse detalhe a seu respeito, porque, até então, ela só tinha se interessado por meninas.
“Tim, já falei para me chamar de Rose”, digo para ele.
“Mas não consigo. Você é professora e tudo mais.”
“Então fique à vontade”, digo, rindo, enquanto olho para o amigo de Addie e depois para Addie. Descobri que gosto bastante dos amigos dela. Descobri que gosto de adolescentes.
Há uma espécie de escada na beirada das pedras, uma sequência de degraus de ardósia. Tim olha para mim, provavelmente se perguntando o que essa velha está fazendo, nadando até as pedras para ficar com os jovens. Addie continua ao lado dele. Parece nervosa, como se mentalmente mandasse forças para me ajudar a chegar até onde eles estão. Quando chego perto do topo, Tim me oferece a mão, e eu a aceito.
“Obrigada, senhor”, digo, e ele ri.
“Não acredito que você subiu aqui!” Addie parece descrente, mas também feliz. Talvez só esteja feliz por eu não ter escorregado e morrido lá embaixo. Espero que Thomas tenha conseguido destapar os olhos, para ver que isso não aconteceu.
Abraço Addie. “Imaginei que devia ser como andar de bicicleta e tal.” Viro para Tim. “Espero que não se importe, mas acho que as próximas seremos nós duas.”
Tim aponta para a beirada. “Por favor…”
“Vamos, Addie. Vamos pular.”
“Sério?” Ela parece chocada.
“Por que não? O que achou que eu estava vindo fazer aqui?”
“Tá bom!”, diz ela, assentindo.
Quero abraçá-la de novo, mas me seguro.
Nós duas, Addie com suas pernas magras e bronzeadas e biquíni verde-limão, eu de maiô roxo, vamos até a beirada. Sinto os olhos dos jovens em nós, o som da conversa diminuindo. Damos as mãos.
“Pronta?”, pergunto, e então, rindo, pulamos juntas.