As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 15 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Catorze

 

25 DE SETEMBRO DE 2007

ROSE, VIDA 4

 

Meu pai trabalha na garagem da casa em que eu cresci. Eles não estacionam lá dentro há anos, deixando os carros na entrada ou, quando há previsão de neve, sob a copa do enorme carvalho na extremidade do jardim. Minha mãe sempre reclama, porque eles têm que limpar os carros depois de tempestades, tirar o gelo do para-brisa, correr até a porta da frente quando está chovendo. Mas ela não fala muito a sério. Tem orgulho do talento do meu pai. Ele faz coisas lindas.

“Pai? Posso entrar?” Abro uma fresta da porta lateral.

“Rose? Filha? É você?”

Um corredorzinho coberto liga a casa à garagem, e é onde me encontro. Abro um pouco mais a porta. “Oi, pai.”

Ele olha para mim, sua figura alta debruçada sobre a mesa, luvas nas mãos e um pedaço de lixa sob uma palma. Pó de madeira cobre o chão. Ao seu lado, há uma bancada onde deixa as ferramentas. Na parede atrás dele, chanfros especiais, onde pendura cadeiras em andamento e outros móveis inacabados. Do outro lado da garagem há um armário grande de metal cheio de latas de verniz, e, ao lado dele, pilhas de madeira. Meu pai está usando jeans largo e uma camiseta verde de manga curta, Seu cabelo brilha grisalho sob a luz. “Vem dar um abraço no seu velho.” Ele se endireita e tira as luvas de trabalho.

Seus braços me enlaçam, me apertam com força e me tiram do chão. “A que devo a honra da visita? Não tem aula hoje?”

“Não. Este semestre só dou aula de terça a quinta.”

Meu pai sorri. “Que vida dura, hein?”

Eu o cutuco. “Levo a vida na flauta, pai.” Ele sabe o quanto me dedico ao trabalho, por isso suas brincadeiras não me incomodam. Meus pais e eu percorremos um longo caminho desde a época em que eles tinham dificuldade de entender por que eu queria fazer doutorado e lecionar. Gosto que agora possamos brincar a respeito da minha carreira, e valorizo o orgulho genuíno que ouço na voz deles quando me perguntam de trabalho. “Eu não queria interromper. Pensei em me sentar para conversar um pouco enquanto você trabalha.”

“Você nunca interrompe.” Meu pai vai pegar a cadeira que mantém no canto da garagem. É do mesmo tom de azul de uma hortênsia, quase violeta, e é minha cadeira desde pequena. Ele a pintou dessa cor só para mim. É maior que uma cadeira normal, mais larga. Minha mãe fez uma almofada grossa e florida, que pode ser amarrada no encosto, mas cujas cores desbotaram.

Meu pai a posiciona perto da bancada de trabalho. “Pronto, filha.” Ele volta a pôr as luvas e pega a lixa. “Vamos lá, me atualize. Como estão as coisas? Como foram as primeiras semanas de aula? Algum aluno precisando de uma chamada?”

Rio. “Ainda não, mas é bom saber que posso contar com você.” Conto a ele sobre as aulas, o departamento, o novo projeto de pesquisa que espero desenvolver.

Sempre adorei ver meu pai trabalhando e fazer companhia a ele. Quando era pequena, às vezes levava um livro comigo e passava horas ali, nós dois lado a lado, ele trabalhando, eu lendo em silêncio. Meu pai não é muito falante, mas é um bom ouvinte, uma presença tranquilizadora. Às vezes, ouvimos música juntos. Quando eu era pequena, ele me apresentou suas músicas preferidas dos anos 1960 e 1970, e conforme fui crescendo forcei meu gosto adolescente aos seus ouvidos. Meu pai aguentou bem, porque aquilo significava passar mais tempo juntos.

Nos dias bonitos de primavera e outono, ele abre a porta da garagem enquanto trabalha, para poder respirar o ar fresco e ouvir os pássaros, mas hoje ela está fechada e o ar-condicionado está ligado. Já é fim de setembro, mas continua quente como se fosse verão.

“E você, pai, o que tem feito?”, pergunto a ele depois que o atualizo, sem ter mencionado o verdadeiro motivo da minha visita e aparentemente incapaz de fazê-lo.

“Ah, sabe como é. O mesmo de sempre. Faço móveis para as pessoas, e no final do dia como a comida que sua mãe cozinhou.”

“Recebeu alguma encomenda interessante?”

Essa pergunta o anima. Meu pai me conta de uma série de armarinhos especiais que está fazendo para um casal que traz toda a madeira do México. Não consigo nem pronunciar o nome da madeira, e ele mesmo nunca trabalhou com ela. Meu pai parece animado e me dá todos os detalhes do projeto, depois acabamos caindo em um silêncio companheiro. Fico ali sentada, vendo-o trabalhar, tentando criar coragem de dizer a ele o que vim dizer. De vez em quando, ele olha para mim, enquanto sua mão se move regularmente, para a frente e para trás, sobre o tampo da mesa.

Minhas pernas estão recolhidas, meus braços enlaçam minhas canelas. Ouço o som contínuo e familiar da lixa raspando a madeira. “Tenho uma encomenda interessante para você, pai”, digo afinal.

“Ah, é? O que quer que eu faça?”

Mordo o lábio, pensando em todas as coisas que meu pai fabricou para mim ao longo dos anos. Na época do ensino médio, ele me fez uma cama com dossel, que minha mãe achou um exagero, mas eu amava. Fez porta-retratos lindos, nos quais coloquei fotos minhas e dos meus amigos nos bailes de formatura e de início de ano letivo, depois de mim e de Luke no nosso casamento. Além disso, ele fez nossas mesinhas de cabeceira e a escrivaninha onde trabalho de casa. Metade dos móveis da casa em que cresci é obra das mãos dele. Todos lindos. Todos especiais, como meu pai.

“Rose?” Meu pai parou de trabalhar e agora me encara.

Respiro fundo. “Um berço, pai”, digo. “Eu estava pensando que você podia me fazer um berço.”

Ainda não contei a Luke que estou grávida.

Depois de prometer a ele que ia tentar, acho que acreditei que meu corpo lutaria contra a gravidez. Eu me perguntava se era mesmo uma boa ideia ter um filho se fazia tanto tempo que as coisas estavam complicadas.

Então houve algumas mudanças em Luke — mudanças boas.

A primeira foi pequena e simples. Eu estava sentada à escrivaninha de casa, trabalhando, quando ergui os olhos do laptop e girei a cadeira. Luke estava apoiado no batente da porta, me observando.

“Acho que a gente devia sair pra jantar esta semana”, disse.

“É?”

“É. Tipo um encontro.”

“Você quer ter um encontro comigo?” Meu ceticismo era audível.

Luke não se abalou. “Li sobre um restaurante italiano novo. Parece que tem um ravióli caseiro muito bom. A gente podia ir no sábado.”

Olhei para ele. “Adoro ravióli caseiro.”

“Eu sei. Por isso pensei que a gente devia experimentar.”

Ele ficou parado ali, desconfortável, esperando que eu dissesse sim ou não.

Fazia um século que a gente não saía. Éramos casados, morávamos juntos, mas havia um bom tempo éramos mais como duas pessoas dividindo um apartamento. Fazíamos sexo, sim, e aparentemente estávamos tentando ter um bebê, mas não éramos pessoas apaixonadas. Não como antes. Eu ainda amava Luke, sempre tinha amado. Mas não me sentia apaixonada por ele já fazia um tempo. Toda aquela insistência para ter um bebê, toda a pressão de Luke e dos pais dele não me davam nenhum tesão. Na verdade, acabavam com ele. Talvez ele também não estivesse se sentindo muito apaixonado por mim ultimamente.

Pessoas casadas podem voltar a se apaixonar?

“Por que está querendo sair comigo, Luke?”

É só um novo prelúdio para a tentativa de fazer um bebê?

“Precisa ter um motivo?”

“Sim”, falei.

Desde que havia dito a Luke que tentaria lhe dar um bebê, eu sempre desconfiava quando ele tentava criar o clima para o sexo. Era a mim que ele desejava ou o óvulo que descia por uma trompa de falópio?

Luke enfiou as mãos nos bolsos do jeans e balançou o corpo para a frente e para trás, o peso passando dos calcanhares aos dedos dos pés e voltando. O ar-condicionado pareceu embalar, o barulho do aparelho retumbando acima de nós. “Só estou com saudade de você”, disse ele. “E com saudade de nós. De quem costumávamos ser. Você não?”

Fiz que sim com a cabeça.

“Então por que sair para jantar parece tão complicado?”

Eu me levantei da cadeira e passei por Luke, a caminho da sala. Ele me seguiu, e nos sentamos no sofá. Decidi ser sincera. “Tenho dificuldade em acreditar nos seus motivos, Luke. Tudo que você faz neste casamento parece estar relacionado a sua necessidade de ter um filho. Até mesmo um convite para jantar.”

Luke cruzou as mãos, olhando para elas. “Acho que mereço isso.” Ele parecia prestes a acrescentar algo, mas não o fez.

“Olha”, continuei, “mais que qualquer outra coisa, quero que seus motivos sejam simples, que você sugira ir a esse restaurante só porque sabe que sua esposa gosta de ravióli.” A tarde chegava ao fim, e o céu começava a avermelhar. “Mas é difícil acreditar que isso não faz parte de um plano para me convencer, sei lá, a me esforçar mais para ter um bebê, a acompanhar meu ciclo com mais cuidado, a tomar mais vitaminas, dez vitaminas por dia, vinte vitaminas por dia. Ou vai ver você leu que ravióli é bom para a fertilidade ou coisa do tipo.”

Luke começou a rir. “Juro que não li em lugar nenhum que ravióli é bom para a fertilidade.”

Olhei feio para ele. “Você acha que é piada! Mas eu não ficaria surpresa se fosse verdade! Nem consigo acreditar no quanto você sabe sobre comidas que são boas e ruins para o bebê, e nem temos um bebê ainda. Não estou grávida, Luke!”

A risada dele morreu. “Tá bom, tá bom. Entendi. E entendo por que você se sente assim, considerando como tenho agido.”

“Entende mesmo?” Por favor, entenda. Entenda, Luke.

Luke estendeu a mão no sofá e a deixou ali, entre nós. “Você acreditaria em mim se eu dissesse que só quero ir a esse restaurante porque sei que minha esposa, Rose Napolitano, ama ravióli tanto quanto seu marido, Luke, ama sushi? E não porque tenho segundas intenções, como engravidar essa esposa?”

Fiz uma cara cética e dei de ombros. “Talvez.”

“Pode tentar acreditar?”

Avaliei meu marido sob a luz cambiante.

Eu podia?

Ele piscou, depois voltou a piscar. Tive a sensação de que Luke estava nervoso. Algo se acendeu dentro de mim, a vaga lembrança de uma época em que eu acreditava que ele era o único homem que eu amaria, o único homem que eu poderia amar. Como seria voltar a sentir aquilo, depois de tudo por que havíamos passado?

A mão de Luke me pareceu muito solitária no sofá. “Posso tentar”, falei. Entrelacei meus dedos nos dele. “Vou tentar.”

“Então vou perguntar de novo. Rose Napolitano, você aceita sair comigo no sábado? Só porque eu gostaria de te ver feliz e porque sou seu marido e te amo muito?” Luke levou minha mão aos lábios e a beijou.

Dei risada, e foi o bastante para quebrar a tensão. “Sim, Luke, eu aceito sair com você, por nenhum motivo além do fato de que te amo.” Quando eu disse isso, senti o corpo esquentar. Pareceu uma confissão. Algo que deveria ser automático entre marido e mulher, dadas as circunstâncias, fez com que eu me sentisse vulnerável. Era como se eu tivesse revelado um segredo.

Então Luke sorriu também, mais do que eu, e disse: “Eu não tinha segundas intenções, Rose. Só queria fazer minha esposa feliz. Sério”.

Ficamos os dois sentados ali, sorrindo como bobos um para o outro. Então Luke abriu uma garrafa de vinho e nos embebedamos um pouco, conversamos por horas, rimos e esquecemos, tudo de uma vez, todos os problemas que vinham atormentando nosso casamento. Quando Luke apoiou a taça na mesa de centro e me beijou com vontade, deixei que o fizesse, deixei que voltássemos a amar um ao outro sem me preocupar de onde aquilo vinha e quais eram os motivos dele. Quando fomos para a cama aquela noite, uma semente de esperança havia brotado dentro de mim, e peguei no sono feliz.

A partir daquela conversa, Luke e eu começamos uma longa e lenta jornada de reaproximação. Pouco a pouco, a felicidade voltou a se esgueirar e começou a cauterizar as feridas do nosso amor, da nossa vida, do nosso casamento. O bastante para que, ao fazer aquele primeiro teste de gravidez e ver duas linhas aparecerem, formando um sinal de positivo, por mais que tenha ficado com medo e talvez até um pouco arrependida, também tivesse sido capaz de sentir alguma esperança. Depois de toda aquela luta e resistência, talvez ter um bebê com Luke pudesse ser bom. Não apenas para ele, ou para nós dois, mas para mim. Para mim também.

“Um berço?” Meu pai parecia incerto. Ele amassou a lixa que tinha na mão, com a força com que a segurava.

Meu pai talvez seja a única pessoa na minha vida, além de Jill, que nunca me pressionou para ter um filho, que nunca me questionou sobre maternidade e sobre os motivos pelos quais eu era tão avessa a ela.

“Não gosto de como Luke tem pressionado você”, ele havia me dito pouco tempo antes, depois de minha mãe comentar com ele que vínhamos brigando quanto a ter filhos ou não.

Estávamos falando ao telefone enquanto eu voltava para casa, depois de dar aula. Carros passavam, buzinando. Pessoas passavam, recém-saídas do trem. Mas ele não teve que explicar do que estava falando. Ambos sabíamos.

“Tudo bem, pai”, falei, muito embora não estivesse nada bem, motivo pelo qual Luke e eu vínhamos brigando.

“Você sabe o que é melhor para você, Rose, confio no seu julgamento. Você também devia confiar.”

“Obrigada, pai”, falei, e depois a conversa passou a assuntos mais tranquilos, como a tempestade que estava chegando e o fato de que ia chover forte um dia inteiro.

Agora, meu pai continua esperando que eu responda. Seus olhos buscam os meus.

“Isso, pai. Um berço.” Solto o ar, e então falo, experimento pronunciar as palavras que ainda não saíram da minha boca. “Porque estou grávida.”

Ele é a primeira pessoa para quem eu conto.

“Filha”, diz meu pai, simplesmente.

“Estou tentando me sentir bem em relação a isso.”

Suor escorre pela testa dele. Ele o enxuga com as costas da mão. “Rose, tem certeza de que quer seguir em frente com o bebê?”

Meus olhos se enchem de lágrimas. “Ah, pai.” Amo que meu pai me lembre de que tenho opções, de que ainda posso decidir não ter o bebê, caso seja a coisa certa para mim. Tudo isso sem hesitar.

No momento que transcorre entre a pergunta do meu pai e minha resposta, penso no ciclo de esperança, depois dúvida, esperança, depois mais dúvida, que se repete na minha cabeça desde que fiz o teste de gravidez, depois outro, depois um terceiro. Em como continuo voltando à esperança, a um ponto onde meu marido e eu redescobrimos o amor, à nova possibilidade que é um filho.

“Vou ficar com ele”, digo. “Vou ter o bebê. Pode me fazer um berço, pai?”

“Claro que sim.” Ele deixa a lixa amassada de lado, tira as luvas e as coloca sobre a mesa inacabada. Então volta a estender os braços para mim. “Vou fazer para você o berço mais lindo que já fiz na vida.”

Naquela noite, de volta à cidade e voltando a pé da estação de trem, decido que vou contar a Luke o que acabei de contar a meu pai.

“Luke”, digo, assim que passo pela porta da frente do apartamento. Eu o encontro na cozinha, fervendo a água do macarrão. “Precisamos conversar.”

Ele se vira, vê que estou sem fôlego e olha para mim de um jeito engraçado, como se não soubesse o que pensar ou sobre o que posso estar querendo conversar, quer seja uma coisa boa ou uma não tão boa.

“Fui ver meu pai hoje”, continuo falando.

Luke tem uma colher de madeira na mão, pingando água. “É?”

Faço que sim com a cabeça. “E ele me disse que vai fazer um berço pra gente.”

Ao ver o rosto do meu marido se iluminar, o brilho intenso que surge em seu sorriso e em seus olhos, penso por um breve momento: Talvez tudo isso tenha valido a pena, talvez tudo acabe bem, talvez um dia eu olhe para trás, para este momento, e perceba que ter um filho foi a melhor decisão que tomei em toda a minha vida.