As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 10 de 42

Páginas do PDF

As nove vidas de Rose Napolitano

Nove

 

10 DE NOVEMBRO DE 2007

ROSE, VIDA 1

 

“Rose, você está bem?”, Devonne me pergunta, se materializando à porta da minha sala. Eu estava olhando para o nada, para o corredor, através dele, na verdade. Mas não o notei até que falasse.

“Hum… o quê?” Forço meus olhos a focarem, e Devonne ganha forma, a cintura arredondada, os dentes visíveis por causa do sorriso amplo, claros em contraste com a pele.

Devonne é um homem corpulento, doce e generoso. O departamento inteiro o adora, e adora a esposa dele. Os dois estão sempre fazendo jantares e convidando todo mundo, ou combinando de sair para beber. Sociólogos e acadêmicos em geral podem ser umas cobras — insensíveis, mesquinhos —, mas esse não é o caso de Devonne.

Ele entra na minha sala e apoia as mãos no encosto de uma das cadeiras que ficam do outro lado da minha mesa. “O que está acontecendo? De verdade. Você não parece a mesma ultimamente.”

Tenho que parar de vagar pelas profundezas sombrias do meu cérebro quando as pessoas estão falando, parar de pensar na imagem dos documentos do divórcio na mesa da cozinha, sob a pilha de correspondências que tento ignorar quando chego em casa à noite. Quero voltar a ser eu mesma. A Rose normal. Não a Rose se divorciando, não a Rose perdida. “Não sei, Devonne. Eu só… eu estou bem.”

Ele me olha por um momento — de um jeito firme, como se não acreditasse em mim. Meus colegas de trabalho ainda não sabem de Luke. Tenho evitado contar a eles. Devonne solta o ar, pesadamente. “Bom, vai ter um happy hour com o pessoal do departamento na quinta.”

Isso me faz rir. Não era o que eu esperava que ele dissesse. Seu “bom” parecera pesado, como se algo sério estivesse prestes a sair de sua boca, e não um convite para beber alguma coisa. “É? Eu não sabia. Acho que ando meio distraída.”

“Você devia ir. Por que não vamos juntos? Eu passo aqui e…”

“Sei o que você está fazendo, Devonne.”

“O que eu estou fazendo?”

“Você está fazendo a mesma coisa que fazemos com os alunos quando estamos preocupados com eles. Para ter certeza de que eles recorram ao centro de apoio, nós os acompanhamos até lá. E você quer me acompanhar até o happy hour.”

É a vez de Devonne rir. “Pode ser. Mas você parece estar precisando sair, sabe? Se divertir. Talvez te faça bem.”

Por um segundo, uma onda de esperança se espalha pelo meu corpo. Tenho um desses momentos preciosos em que a possibilidade de uma nova vida se abre dentro de mim, brilha como o sol, aquecendo meu corpo. Então ela é imediatamente apagada pela dúvida que sempre se segue, a dúvida de que posso voltar a ser feliz sem Luke, a dúvida que tenho em relação a mim mesma depois do fracasso do meu casamento — uma dúvida que é muito mais forte que os breves momentos de esperança, e mais poderosa, como um supervilão que construiu seu covil nas profundezas da minha mente.

O sorriso no rosto de Devonne — bondoso, esperançoso o bastante para nós dois — me dá a motivação necessária para o que digo a seguir. “Tá bom. Vou te esperar aqui na minha sala na quinta. Você me pega e vamos.”

O sorriso de Devonne se espalha pelo rosto, destacando suas bochechas. Ele brilha, como uma fonte de luz, um farol, e eu penso: Por que não? Por que não seguir essa luz amistosa? Nunca se sabe, Rose Napolitano. Coisas boas podem estar à espera na próxima esquina.

Mas então, quando Devonne se vira e se despede com um “A gente se vê na quinta” por cima do ombro, já saindo da minha sala, o supervilão à espreita dentro de mim volta a se revelar, dando uma risada maligna de autossabotagem, e toda a luz que vinha de Devonne se apaga.

Na quinta o restaurante do happy hour está lotado. Fico mudando de opinião o tempo todo, sem saber se cometi um erro ao deixar Devonne me trazer aqui.

“Oi, Rose!” Meu colega Jason, especialista em comportamento de grupos religiosos e outros cultos, acena com a cerveja na minha direção quando chegamos ao balcão de mármore do bar. “Onde foi que se escondeu este ano?”

Devonne me envolve com um braço e aperta meu ombro. “O que quer beber?”, diz, me salvando de ter que responder à pergunta de Jason.

Fico em dúvida. Nunca bebo quando estou triste, porque isso só me deixa mais triste. De modo que quase esqueço o que costumo pedir. “Um old-fashioned, acho.”

Devonne assente e se debruça no balcão para chamar a atenção do atendente.

Jason continua me olhando, à espera de uma resposta, imagino. “Já volto”, digo a ele, e vou para o banheiro feminino.

Meu celular está cheio de mensagens não lidas, provavelmente da minha mãe. Ela está preocupada comigo, me liga todo dia para saber como estou. Parei de retornar as ligações, porque a resposta é sempre a mesma: estou triste, me sinto sozinha e angustiada. Ligo para Jill, que não atende. “Jill, se estiver livre, venha me resgatar no Maison’s, por favor. Deixei Devonne me convencer a vir a um happy hour do departamento e já me arrependi. Acho.”

Mulheres entram e saem das cabines do banheiro. Olho para o espelho grande com moldura dourada à minha frente, inclinada sobre a pia, e tenho uma visão que gostaria de poder engarrafar e beber quando estou especialmente desanimada. Vejo refletida ali uma mulher atraente — ou melhor, bonita —, cujo cabelo está num bom dia, e que pode até ser uma professora, mas uma professora estilosa. Sem refletir muito, pego o batom no fundo da bolsa e passo nos lábios, depois saio para o bar, onde Devonne, Jason e agora Brandy, Sam, Winston e Jennifer, todos colegas queridos, estão conversando em uma rodinha, com um homem que não conheço.

Coloco um sorrisão no rosto. “Oi, gente. Que bom ver vocês!”

Segue-se um coro de “Oi, Rose!”, e Devonne me entrega minha bebida. Dou um bom gole, e a sensação de calor na garganta parece confirmar que, sim, Rose, você estar aqui neste bar é uma coisa boa. Você saiu para o mundo e está agindo como uma pessoa normal! Alguém que usa batom! Que encontra os colegas! Uma professora estilosa!

Devonne acena com a cabeça para o homem que não conheço, me fazendo dar uma boa olhada nele. “Vocês dois se conhecem?”, pergunta.

Algo se espalha pelo meu corpo, uma sensação familiar, mas tênue, uma lembrança muito antiga tentando vir à tona. Por um segundo, não sei o que é, mas, ao absorver a visão daquele homem, seu cabelo escuro ondulado, o brilho de seus olhos castanhos, percebo do que se trata. Estendo a mão para ele. “Não, não nos conhecemos. Sou Rose.”

O homem sorri, na verdade dá um sorriso de lado, o canto esquerdo da boca se erguendo, uma expressão descontraída e furtiva nos olhos. Ele aperta minha mão. “Sou o Oliver”, diz, com um sotaque britânico maravilhoso.

“Oliver é de Londres, como deve ter percebido”, explica Devonne.

Oliver ri, eu rio, nós dois rimos, como se Devonne fosse o cara mais engraçado do mundo.

“Ele tirou uma licença sabática”, prossegue Devonne, “e veio dar aula no departamento de literatura.”

Oliver é lindo, meu cérebro acrescenta, meu corpo acrescenta, e essa é uma noção estranha, proibida, porque se trata de um homem que não é Luke. A esse pensamento se seguem outros, mais encorajadores: Tudo bem achar esse homem lindo, Rose. Você está se divorciando. Deveria mesmo achar esse tipo de coisa.

Esses pensamentos se demoram, se transformam em algo mais duradouro, algo que começa a crescer, a tranquilizar, a curar, mesmo depois que o aperto de mão chega ao fim.