As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 14 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Treze

Parte III

 

ENTRAM MAIS ROSES, VIDAS 4 E 5

Treze

15 DE AGOSTO DE 2006

ROSE, VIDAS 4 E 5

 

Luke está de pé, no meu lado da cama. Ele nunca vai para o meu lado da cama. Tem um frasco de vitaminas na mão. Ele o ergue e sacode. O som é pesado e moroso, porque o frasco está cheio.

“Você prometeu”, diz ele.

“Às vezes esqueço.”

“Às vezes?” Seu tom é raivoso. Acusador.

Aceito a acusação. Sou culpada.

Ambos sabemos disso.

“Não estou tomando como disse que tomaria, tá bom?” Admito o crime, para acabar logo com aquilo.

Luke fica quieto. Então diz: “Está na cara que você não quer tomar”.

“Não”, eu digo, em outra confissão. “Está na cara que não quero.”

Minha força de vontade está se esgotando.

Posso sentir, meu corpo todo como um ovo cozido rolando contra um pano de prato para que a casca se solte.

Luke e eu não estamos nos falando. Faz quase uma semana que nos evitamos, ficamos no mesmo ambiente e mal reconhecemos a presença um do outro. Nossas únicas conversas são por educação — “Quer mais café ou posso beber esse restinho?”. Ou envolvem logística — “Vou chegar tarde hoje, tenho um evento do departamento”.

Ao mesmo tempo, dia após dia, a raiva fria e rígida que se estabeleceu entre nós depois da briga foi se abrandando, como se deixada fora do congelador por tempo suficiente para derreter. Não sei dizer o que resta de raiva, ou no que ela se transformou. Nossas interações mínimas ficaram um pouco mais simpáticas, um pouco mais delicadas, às vezes até um pouco afetuosas. Isso me permitiu entrever o futuro, e nosso futuro se bifurca em dois caminhos distintos. Em um caminho, ficamos juntos e temos um bebê — ficamos juntos porque temos um bebê. No outro, não temos um bebê e nos separamos — nos separamos porque não temos um bebê.

Seria tão ruim assim ter um filho? Posso fechar os olhos e me convencer a fazer isso? A ter um bebê e permitir que os sonhos do meu marido se tornem realidade? Salvar meu casamento?

Talvez fique tudo bem. Talvez seja ótimo. Talvez eu recorde esse momento da minha vida e pense: Ah, Rose, você era tão boba! Ter um bebê foi a melhor coisa que você já fez! Como poderia ter perdido isso? Não é isso que todas as mães pensam depois de ter filhos? Que é sua maior realização e tudo o mais, como em A menina e o porquinho?

Talvez metade das mulheres minta. Talvez só digam esse tipo de coisa porque precisam dizer, porque, depois que o filho vem, o que se pode fazer? Não dá para devolver na loja.

O fato de eu ter acabado de comparar um bebê a algo que se comprou na Bloomindgale’s ou na Nordstrom e que se pode devolver é um sinal? Uma placa luminosa avisando: Rose Napolitano, você não serve para ser mãe se está pensando em devolver um bebê para a Bloomingdale’s! É claro que a Nordstrom seria a melhor opção. É melhor comprar um filho em um lugar que sempre aceita devoluções — não é essa a política da loja?

À noite, deitada na cama ao lado do homem com quem me casei, mantenho esses pensamentos dentro de mim. No silêncio, a tristeza cresce, um reconhecimento, acho. Luke e eu estamos em uma encruzilhada. Em algum momento, um de nós vai ter que tomar uma decisão.

“Eu desisto”, digo.

“Do que você está falando, Rose?”

Luke está só de toalha diante do espelho do banheiro, se barbeando. Metade de seu rosto está coberto de espuma, a lâmina cuidadosamente passada deixando listras na bochecha. Estou no corredor, do outro lado da porta aberta. A luz do banheiro é forte.

“Vamos tentar, tá bom?”

“Tentar o quê?”, Luke pergunta. Mas há esperança, uma vivacidade em seu tom de voz que não ouço há muito tempo.

O fato de querer que eu diga em voz alta, de precisar ouvir a palavra “bebê”, vamos tentar ter um “bebê”, faz minha boa vontade acabar. “Nada, Luke. Argh! Esquece. Não vamos tentar nada, nem agora nem nunca.”

Ele apoia a lâmina de barbear na pia. A espuma branca que havia nela forma uma nuvenzinha no granito. Luke sabe que errou. “Só responde à pergunta. Por favor.”

Balanço a cabeça. Vou escorregando pela parede até estar sentada no chão.

“Rose?”

Antes que eu possa impedi-las, minhas mãos estão cobrindo meu rosto e estou chorando. Logo Luke está agachado ao meu lado. Ouço sua voz baixinha e grave — uma voz que eu costumava amar, mas será que ainda amo? — dizendo: “Rose, qual é o problema? Fala comigo”. É o primeiro sinal de preocupação verdadeira da parte dele desde a nossa briga.

Quero desfrutar disso, mas não consigo. Sei que Luke só está demonstrando preocupação porque sabe que cedi, sabe que vou lhe dar o que quer. Porque ele ganhou. Estamos pairando nesse limiar precário há muito tempo, e as coisas estão prestes a se encaminhar do jeito que ele deseja. Talvez por trás dessa preocupação em sua voz também haja um pouco de medo de que, bem no momento em que eu estava prestes a dizer que sim, uma pergunta errada tenha estragado tudo.

Levanto os olhos, lembrando que sou eu quem tem o poder de dar ou negar o que ele quer. A mulher sempre tem. O homem não pode fazer nada para mudar isso. Motivo pelo qual sempre encontram outras maneiras de nos punir pela única coisa que temos e eles não.

“Você sabe qual é o problema”, digo. “Nós somos o problema, Luke.”

Ele puxa o tapetinho do banheiro e se senta nele de pernas cruzadas, olhando para mim.

“A gente era tão feliz”, digo.

“Eu sei.”

“E olha só agora.”

Luke se inclina para a frente, piscando. “Um bebê mudaria isso, Rose. Tenho certeza. Um bebê nos levaria de volta ao ponto de partida.”

Olho para ele, absorvendo o que acabou de dizer, e o momento que escolheu para dizer. Luke não consegue se segurar, nem mesmo por alguns minutos, nem mesmo comigo chorando. Ele está convicto do que quer, e tem que conseguir isso de mim. O que ele quer é um bebê, porque não sou mais o bastante para ele. Será que percebe isso? A mensagem implícita que manda para a esposa, com tamanho desespero?

Seus olhos parecem um pouco desvairados agora, um pouco frenéticos.

Tenho que fazer uma escolha, e faço. Parece a única opção real, porque a outra me deixaria sozinha.

“Tá bom”, eu digo, soltando o ar. “Vamos tentar, Luke.”