As nove vidas de Rose Napolitano

Donna Freitas · Capítulo 40 de 42

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As nove vidas de Rose Napolitano

Trinta e nove

15 DE AGOSTO DE 2006

ROSE, VIDA 9

 

Luke está de pé, no meu lado da cama. Ele nunca vai para o meu lado da cama. Tem um frasco de vitaminas na mão. E o ergue.

Dou um passo na direção dele. Certifico-me de respirar, de inspirar e expirar. “Parei de tomar, tá bom?”

Seus ombros caem. “Rose. Você prometeu.”

“Luke, eu…”

Mas ele ainda não acabou de falar.

“Rose, você prometeu e mentiu.”

Fico olhando para ele, de pé ali, largado, o retrato da vítima. Como se eu tivesse feito algo com ele, o magoado. “Sério, Luke? Eu menti? Então me diz: você não quebrou nenhuma promessa? Não tem nenhuma de que consiga se lembrar? Alguma mentira que possa ter contado?”

“Rose.” Ele suspira, soltando o ar devagar. “Não seja assim…”

“Não seja assim como? Como sempre fui? Sincera com você em relação a isso tudo? Desde praticamente o primeiro encontro, Luke, eu avisei que não queria filhos. Repeti isso um monte de vezes. E sabe o que você me disse?”

Mais suspiros. Dessa vez, mais pesados. Meu marido está murchando diante de mim, derretendo na nossa cama. Ele afunda na beirada. “Rose…”

“Era recíproco, Luke”, digo, e meu corpo se expande, eu toda me expando, tomando conta do quarto, pulsando. “O que eu ouvia toda vez que o lembrava de que não ia ter filhos era que você também não queria. Que nunca ia querer. Você me disse isso um monte de vezes antes de entrarmos naquela porcaria de igreja e nos casarmos. Então quem é o mentiroso aqui?”

“Eu não menti…”

“Para. Só para com essa porra toda, porque estou cansada. Estou cansada de me culparem por decepcionar você e todo mundo na sua família. Estou cansada de pensar que sou um fracasso como mulher, uma pessoa horrível, uma vaca egoísta.” Faço uma pausa para respirar e vejo o choque atingir o rosto de Luke, como se eu levantasse a mão para bater nele. “Por acaso não lhe ocorreu que você falhou comigo? Que foi você que falhou nesse casamento?”

“Rose, isso não é justo.”

Dou uma risada amarga. Vou até meu marido e olho para ele, jogado na cama, e então sei. Luke levanta a cabeça, olha nos meus olhos. Um lampejo de medo passa por eles. “Esse tempo todo, toda essa tortura de você e sua família me dizendo que vou me arrepender pelo resto da minha vida de não ter sido mãe, que nós vamos nos arrepender, que sou uma pessoa terrível, uma mulher egoísta e horrorosa, que estou acabando com a sua vida… simplesmente presumi que fosse tudo verdade. Quando a verdade é que você está acabando com a minha vida.”

“Rose?” Meu nome sai tenso e quase estridente da boca de Luke.

Eu me inclino e coloco uma mão em cada bochecha dele, então beijo sua testa. Luke pisca, e eu vejo a confusão em seus olhos. Então o solto, viro e saio do quarto, atravessando a sala para chegar ao armário da entrada, onde ficam as malas, na prateleira mais alta. Faço um esforço para pegar a maior de todas, tão grande que sempre brincamos que um cadáver caberia ali. Ela bate contra a porta do armário antes de cair no chão.

“Rose?” Ouço meu nome de novo.

Ponho a mala de rodinhas de pé e a levo até o quarto. Vou diretamente à cômoda em que guardo sutiãs, calcinhas e meias. Deixo a mala no chão, abro e começo a enchê-la. Pilhas de sutiãs se misturam com partes de cima de pijamas, mas não me importo. Sou uma máquina, virando para um lado e depois para o outro, repetidamente, meus braços dobrados parecendo pequenas empilhadeiras esvaziando os contêineres desta vida, do meu casamento.

Vejo pés descalços à minha frente, os pés de Luke. “O que está fazendo?”

Arrasto a mala até o armário, abro a porta e começo a tirar coisas dos cabides e jogar sobre as calcinhas, as regatas, as calças de dormir, as meias coloridas com cachorrinhos estampados. Malhas, camisetas, vestidos.

“Eu fiz uma pergunta.”

“O que parece que eu estou fazendo, Luke?”

“Qual é o plano? Passar a noite na Jill?” Ele parece esperançoso.

Não quero que tenha falsas esperanças, então digo a verdade. “Chega”, digo. “Eu te amo, de verdade, sempre amei, mas não vou deixar que acabe com a minha vida.”

“Sério?”

O som do zíper da mala fechando parece alto demais. “Sim, é sério. Estou indo embora. E não vou voltar.” Respiro fundo, então volto a falar. “Não posso continuar com isso. Com esse casamento.”

Uma onda de alívio me percorre, como asas me levantando, como se todos os órgãos do meu corpo estivessem mais leves, flutuassem, e eu não fosse mais puxada pela gravidade. Meus ombros se endireitam, meu pescoço se estica, meu queixo se levanta.

A questão da maternidade, se vou me tornar mãe, e, em caso positivo, quando, e, se eu não me tornar, o que vai acontecer, tudo isso intimamente relacionado a quem sou enquanto mulher, boa ou má, realizada ou não, egoísta ou abnegada, feliz ou infeliz, tudo isso ligado a casamento, trabalho, divórcio, constituía uma pedra gigantesca, pesada, que carreguei durante anos, rolando, empurrando, como um Sísifo formoso, de salto alto ou tênis de corrida, com as roupas do trabalho, pijama ou calça jeans.

Agora dou um toquinho nessa pedra, de leve, e a vejo rolar montanha abaixo e se despedaçar na ravina.

Gostaria de nunca a ter carregado.

Ponho a mala de pé, pego a alça, inclino a mala e a puxo na direção da porta. Luke fica o tempo todo atrás de mim, seus passos parecem ecoar sua perplexidade com o que estou fazendo. “Tchau, Luke. Espero que um dia encontre uma mãe que o faça feliz.”

Destranco a porta e vou embora.