As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e quatro
22 DE ABRIL DE 2009
ROSE, VIDA 5
Tenho meu marido dormindo de um lado.
E Addie dormindo do outro.
Só preciso de Thomas deitado aos meus pés.
Ele está aqui, de certo modo. Está sempre aqui, a lembrança dele, o desejo dele, mesmo quando tento banir sua presença. Faço isso agora. Prometo a mim mesma fazer.
O abajur na mesa de cabeceira ilumina Addie, mas ela não parece notar. Está encolhida ao meu lado, na posição engraçada em que gosta de dormir, com a bunda para cima, respirando audivelmente pelo nariz, do jeito também engraçado que é uma das coisas que adoro nela. É totalmente irracional, tão irracional que me faz acreditar que talvez eu seja uma boa mãe. Sinto a respiração dela na minha orelha, seu som suave, tão à vontade.
Funga-Funga. É assim que eu a chamo. O apelido surgiu logo cedo. Eu me sentava e ficava ouvindo Addie como se fosse o rádio. Ficava olhando para ela como se fosse a televisão. É como se os sons que ela faz ao dormir fossem cordinhas prendendo meu coração, sinos de igreja que o puxam toda vez que os ouço. Eu seria capaz de ficar ouvindo e olhando para Addie o dia todo, como se fosse um programa para maratonar.
“Oi, Funga-Funga”, sussurro para ela, aproveitando que Luke está dormindo. Eu nunca diria algo do tipo na frente dele. Se Luke me ouvisse, uma expressão presunçosa surgiria em seu rosto de quem ganhou, de quem sabia o tempo todo que toda mulher tem o gene do bebê dentro de si, inclusive eu, sua esposa relutante. O apelido é um segredinho só meu e de Addie.
Assim como as fotos que tiro dela no primeiro dia de cada mês, registrando outro marco em sua vida. Logo vai fazer catorze meses que ela habita este planeta.
O corpo de Addie se sacode um pouco, sua bunda se mexe e ela funga especialmente alto. Tenho que cobrir a boca para não rir.
Às vezes, não é só o caso com Thomas que me faz querer acabar com meu casamento. Às vezes é Addie, e o fato de que eu gostaria de ser eu mesma com ela, de não ter que ser mãe ao lado de Luke. Às vezes, quero descobrir o que significa ser Rose, a mãe relutante, claro, mas que mesmo assim encontra seu caminho para a maternidade. Quero ser mãe sem os olhos de meu marido em mim e em Addie o dia todo, todos os dias, julgando. Quero poder sentir que estou louca de paixão por essa filha Funga-Funga com a bunda para o alto sem precisar tentar esconder de Luke, sem ter que suportar seu “Não falei?” caso testemunhe alguma coisa. Por isso, às vezes a possibilidade de deixar Luke não tem nada a ver com Thomas.
Mordo o lábio.
Fiz o que jurei que não ia fazer, e duas vezes. Permiti que o nome de Thomas passasse pela minha mente. Sempre que isso acontece, dói. Como Addie, Thomas parece ter um conjunto de cordas prendendo meu coração. Eu gostaria de poder cortá-las.
Thomas e eu estamos dando um tempo.
Não vai durar. Nunca dura. Ficar sem Thomas é como tentar prender a respiração debaixo d’água. Só consigo fazer por certo tempo antes de começar a sentir que estou me afogando.
Mas estou tentando. De verdade.
“Tenho que salvar meu casamento”, falei a Thomas da última vez que nos vimos.
Isso foi há três semanas. Eu estava na cama, olhando para as costas dele, para a curvatura de seus músculos, para o brilho de sua pele macia. Luke e Addie estavam na cama conosco, o fantasma dos dois, Luke flutuando próximo a mim e Addie debaixo das cobertas, os dois assistindo à cena — Thomas e eu nus em um quarto de hotel numa terça-feira à tarde —, me imprimindo uma culpa que só fica mais profunda a cada dia que passa, que se infiltra nos meus ossos. Antes eu sentia culpa em relação a Thomas, só que, quanto mais tempo passa, quanto mais velha Addie fica, pior me sinto. Luke e Addie estão sempre assistindo quando estou amando Thomas, o que é sempre. Esse é o problema.
Thomas se virou na cama. “Não, Rose.”
“Sim.”
“De novo, não.”
“Preciso fazer isso.”
Seus olhos já estavam vermelhos e lacrimejantes. “Não precisa. Deveria fazer o oposto.” Ele esticou um braço. “Deveria acabar com esse casamento, em vez de tentar salvá-lo.”
Deixei que me puxasse para perto. Queria Thomas — sempre queria, mesmo que tentasse não querer.
Não havia nada como o corpo dele, a sensação de sua pele perto da minha. Sempre deixei acontecer conosco, sempre me entreguei a esse homem exatamente como faço quando estou nadando no mar. Permiti a mim mesma ter Thomas como se não tivesse nada a perder, quando tenho tudo a perder. Um marido, uma filha, uma família.
Assim como não posso mais suportar o toque do meu marido, não posso suportar não ser tocada por Thomas. Anseio por ele, sempre, desejo tocar cada centímetro de sua pele de uma só vez. Nunca achei que tivesse o bastante de Thomas, e me perguntava se um dia teria.
“Eu te amo”, ele sussurrou no meu pescoço.
Ajeitei-me para ficarmos lado a lado, para que eu pudesse olhar em seus olhos. “E eu te amo. Mas não posso continuar com isso”, falei, com os braços em volta dele, uma das mãos em seu cabelo, pressionando meu corpo contra o dele com tanta força que era como se eu achasse que pudesse atravessá-lo, ou que se imprimisse pressão o bastante Thomas e eu finalmente iríamos nos fundir, nos tornar uma única pessoa. Eu nunca havia desejado habitar um coração, ficar encolhida dentro daquelas câmaras misteriosas. Queria que as partes inacessíveis de Thomas se tornassem minhas, queria as chaves, queria que ele as entregasse a mim para sempre.
Eu deveria querer essas coisas com Luke, deveria sentir esse tipo de amor incompreensível pela minha filha — e sinto, de alguma forma, no caso de Addie. Às vezes, amá-la é uma forma de loucura. Terrível, maravilhosa, assustadora.
Mas amar Thomas é outra forma de loucura. Nele eu me encontro, encontro novos afluentes, novas avenidas, encontro desejo, esperança e anseio, encontro quietude, silêncio e tranquilidade. Thomas é um lugar onde posso ir descansar, sem me mover nem um centímetro e sem me sentir inquieta. Posso me enrolar em seu corpo, fechar os olhos e não ser ninguém além de Rose, eu, a essência da mulher que sou. A mulher que pareço não conseguir encontrar, que não pareço conseguir ser, quando estou com Luke.
Os beijos de Thomas foram urgentes, depois preguiçosos, como se tivéssemos todo o tempo do mundo, quando tudo que tínhamos eram as horas já minguantes da tarde, naquele quarto de hotel com as cortinas bem fechadas para bloquear o resto da cidade pelo tempo que conseguíssemos, fingindo que não estava mais ali, esperando por nós.
Eu sacrificaria tudo por este homem. De verdade.
Então por que não faço isso? Estou só mentindo para mim mesma, com esses pensamentos? Minhas ações não refletem esse sacrifício. Em vez disso, dizem: Rose, você é uma covarde. Rose, você não dá nenhum passo para ficar com esse homem, não deu e nunca dará.
Thomas e eu acabamos nos separando. Eu tinha que ir para casa porque Addie precisava comer, Luke precisava ir a uma sessão de fotos, a vida real acenava para mim. Thomas começou a se vestir, eu me vesti. Ficamos a alguns passos da porta, mal conseguindo olhar um para o outro.
“Por favor, para de chorar”, pedi. Resisti a tocar sua bochecha, mesmo querendo. Tinha que endurecer antes de ir para casa, tinha que endurecer meu coração para esse homem, para conseguir sair. Mas não consegui.
Ele passou a mão nos olhos. “Quando vou te ver de novo?”
“Não sei, Thomas”, falei. “Te amo”, acrescentei, e saí depressa.
Luke muda de posição, se ajeita para virar na cama. Acaba virando para longe de mim e de Addie, em vez de na nossa direção. A tensão deixa meus músculos.
Comecei a fantasiar com a morte de Luke, em como seria seguir em frente sem ele. Seria um enorme alívio, e não só por causa de Thomas. Com Luke, sempre me sinto vigiada, avaliada, julgada. Estou sempre atuando, sempre tentando conseguir a aprovação dele, sempre tentando fazer ou dizer a coisa certa com Addie, sobre Addie.
Eu me lembro da primeira vez que percebi que meu marido me via diferente, avaliava meu comportamento, e do choque que isso representou para mim.
Era uma tarde de sábado em agosto, não muito tempo depois da briga sobre ter filhos naquele jantar com os pais de Luke. Estávamos na festa de um ano da filha de uma amiga. O ar-condicionado tornava o apartamento um refúgio do ar abafado lá fora. Brinquei um pouco com a bebê, dei tchauzinho e acenei para ela, admirei com os outros convidados sua habilidade recém-adquirida de engatinhar. Mas, sinceramente, ficar brincando com uma criança de um ano não é minha atividade preferida.
Eu preferia falar com os adultos presentes, ouvir sobre o trabalho deles, sobre suas viagens. Na verdade, qualquer conversa que não fosse sobre crianças ou com crianças. Nunca fui do tipo que brincava com elas, que as fazia gritar e rir. Em geral, o que penso quando vejo um adulto em meio a um grupo de crianças gritando é: Que bom que não sou eu, ou Por que alguém faria isso quando há tantas conversas interessantes rolando aqui?
No meio da festa, fui com meu prato pegar mais comida e Luke se aproximou. Ele direcionou minha atenção para as crianças do outro lado do cômodo, pulando, brincando e engatinhando. “Não são fofas?”
Peguei uma miniquiche caseira e enfiei na boca. “Hum, acho que sim. Por que não?” Dei risada, mas Luke não se juntou a mim.
Sua expressão era neutra, impossível de ler. Depois de encher o próprio prato, ele disse: “Queria que você gostasse mais de crianças”, e foi embora antes que eu pudesse responder.
Uma espécie de pânico se instalou no meu peito, nos meus pulmões. Era possível que os pais de Luke tivessem voltado a pressioná-lo pelas minhas costas? A opinião dele quanto àquele assunto estava começando a mudar?
Agora que eu sabia que estava sendo observada, fiquei me alternando entre conversar com os outros adultos na festa e as inúmeras crianças que eles haviam trazido. Meio a contragosto, sentei-me no chão para falar com uma delas, enquanto a aniversariante engatinhava por perto. De vez em quando, dava uma olhada e notava que meu marido estava assistindo.
Voltando para casa a pé, Luke disse: “Sei que você só fez tudo aquilo para provar um ponto”.
Parei na hora. “Por que está agindo assim? Que diferença faz, a maneira como trato as crianças? Não é como se fôssemos ter filhos.”
Luke parou também. Ficamos ali na calçada, desconfortáveis, o concreto exalando calor. Ele pareceu prestes a dizer alguma outra coisa, mas não disse. Só voltou a andar.
O pânico que havia se instalado em mim aumentou e se expandiu. O que exatamente estava acontecendo ali?
Corri atrás de Luke. Oscilava entre a raiva e o medo, mas a raiva acabou ganhando. Eu queria magoá-lo. “E quem é você para falar, Luke? Não o vi nem uma vez no chão”, escarneci. “Até parece que você gosta tanto assim de crianças.”
Não nos falamos pelo resto da noite.
Agora, Luke vira para o outro lado da cama, ainda dormindo. Vem para mais perto de mim. Eu me afasto, mas não muito, porque não quero acordar Addie.
Será que outras mulheres fantasiam com a morte do marido, ou só eu? Talvez seja algo normal no casamento, o desejo de libertação, de uma chance de começar tudo de novo, de fazer escolhas diferentes. Às vezes, Luke morre porque não vê um ônibus e atravessa na frente dele. Ou viaja e seu avião cai. Ele nunca é assassinado. É sempre um acaso do destino que tira Luke de mim.
Mas sempre acabo pensando em Addie. Seria a pior parte. Ela sentiria falta dele. Sei que sentiria.
Mas e eu?
Talvez ficasse devastada. Talvez acabasse sendo a pior coisa que poderia me acontecer. Talvez depois que Luke partisse eu me desse conta de que o amava de verdade, de que não podia viver sem ele, de que a tragédia de sua perda era real.
Mas tenho a sensação de que eu ficaria bem. O que faço com Addie não seria mais julgado como bom ou ruim, como um excelente sinal de instinto maternal ou um fracasso retumbante. Eu poderia falar o quanto quisesse sobre como o trabalho é a minha vida, sem precisar fazer uma ressalva em relação a Addie. Poderia reclamar quando estivesse cansada, ou ficar irritada quando Addie estivesse mesmo sendo irritante, ou colocá-la na frente da televisão sem que Luke fizesse cara feia, pelo amor de Deus. Eu poderia chamar Addie do apelido mais bobo da história sem me preocupar com quem fosse ouvir. Poderia finalmente curtir o fato de ser mãe. Poderia me permitir curtir.
Nossa, seria tão libertador!
Avalio Luke, o modo como a luz do abajur recai sobre seu corpo adormecido.
Eu poderia pedir o divórcio.
Deveria pedir, não?
Addie rola na cama e acaba saindo da posição engraçada de ioga de cachorro olhando para baixo em que dormia. Entreabre um olho, mas depois se ajeita de novo, e sua respiração fica pesada e estável.
“Boa noite, Addie”, digo, baixinho.
Desligo o abajur.
Você sentiria falta de Luke.
O pensamento é só um sussurro na escuridão.
Mesmo depois de todos os pensamentos terríveis relacionados ao que eu ganharia com a ausência de Luke, sei que isso é verdade. Queria que não fosse, mas é.