As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e oito
16 DE FEVEREIRO DE 2014
ROSE, VIDAS 1 E 2
“Quer mais sorvete, mãe?” Olho em volta, à procura da enfermeira, mas ela saiu. “Posso ir ver se consigo mais. De morango?”
“Não, querida. Não precisa.” Minha mãe está de olhos fechados.
Eu me levanto, depois me sento. Olho em volta.
Não sei o que fazer. Nunca sei o que fazer quando estou aqui.
A enfermeira entra, para trocar o saco quase vazio enganchado no alto do suporte de metal. O novo está cheio, e a quimioterapia começa a gotejar lentamente na corrente sanguínea da minha mãe. Ela abre os olhos. “Ah, oi, Sylvia”, ela sussurra, sonolenta.
“Olá, sra. Napolitano. É bom ver a senhora. Como se sente?” Sua voz parece alta demais, entusiasmada demais em meio ao silêncio desta sala cheia, em que todos têm câncer e todos estão recebendo medicação, como minha mãe, mas cada um se encontra em um estágio diferente da doença. Alguns parecem saudáveis e têm a pele ainda corada. Outros estão emaciados, pálidos, com o rosto e a pele flácidos, caídos. Alguns pacientes eu nunca vi, mas muitos são presenças regulares; estão aqui sempre que minha mãe vem. Nós nos cumprimentamos, “como você está?”, “como andam as coisas?”, mas em geral é só isso. De tempos em tempos, uma pessoa desaparece e nunca mais a vemos, muitas vezes porque a quimioterapia acabou. Mas, às vezes, descobrimos que ela não sobreviveu. Talvez seja por isso que as pessoas não conversem muito nesta sala. Nunca se sabe quem se vai perder a seguir, e, quando se tem câncer, já se perdeu muito.
“Sra. Napolitano?”, Sylvia pergunta, um pouco mais alto agora.
Minha mãe fica pegando no sono. Ela se força a abrir os olhos. “Bom, você sabe, Sylvia. Estou tão bem quanto seria de esperar.”
“Os médicos estão experimentando algo diferente hoje, né? O outro coquetel não estava fazendo bem para o seu corpo?”
“Não”, eu mesma digo, para mim mãe não precisar responder.
Sylvia vira para mim, com os olhos cheios de compaixão. “Talvez esse funcione melhor.”
“É o que esperamos”, digo, porque quero fazer alguma coisa, contribuir com qualquer coisa, mesmo que sejam só algumas palavras.
Sylvia dá dois toquinhos no saco com a ponta do dedo, satisfeita. O gotejamento começa. Ela olha ao redor, depois volta a olhar para mim. “Não percam a esperança, tá?”
Denise e Jill estão à minha espera na entrada do hospital quando saio. A sensação da lufada de ar frio é agradável, depois do ar abafado e estéril do hospital.
“Aonde vamos?”, pergunta Jill. Está usando uma jaqueta roxa acolchoada. Sua respiração forma nuvenzinhas de fumaça que perduram por um momento, mas depois desaparecem. “O que está a fim de fazer?”
Nos dias em que minha mãe tem quimioterapia, depois que meu pai chega para que eu possa fazer um intervalo, minhas amigas vêm e me levam a algum lugar. Às vezes, Raya e Denise; às vezes, Denise e Jill, como hoje; às vezes, apenas Jill. Visitamos lojas por uma hora. Ou vamos a um museu. Às vezes, só passeamos pela cidade, sem ir a nenhum lugar em especial. “Acho que preciso comer alguma coisa”, digo. “Não comi nada hoje.”
“Rose, você não pode se esquecer de comer!” Denise soa indignada, maternal. Fico grata por isso.
“Que tal… não sei, pizza?”
Denise considera a possibilidade. Sei que está pensando que pizza não é a opção mais saudável. Antes que possa protestar, Jill intervém. “Se você quer comer pizza, vamos comer pizza.”
Começamos a andar. Denise e Jill falam, contam as novidades, Jill comenta que ela e Maria estão planejando ir a um daqueles resorts com tudo incluso, o que nunca fizeram, mas Maria quer experimentar, e Denise fala sobre o andamento de sua nova pesquisa e sobre como é bom contar com a ajuda de alunos da pós em vez de ter que fazer tudo sozinha.
Fico ouvindo e de vez em quando rio ou pergunto alguma coisa.
Não falamos da minha mãe, não falamos do câncer, do fato de que ela não está reagindo à quimioterapia. Não falamos da velocidade com que tudo aconteceu, de como ela ficou doente rápido e piorou. Não falamos do prognóstico, que não é bom. Enquanto andamos pela rua e ouço minhas amigas discutindo sobre qual é a melhor pizzaria e qual tem o serviço mais rápido, já que não tenho muito tempo antes de precisar voltar ao hospital, penso em como sou sortuda por ter amigas tão boas. Entre Denise, Raya, Jill e alguns colegas de departamento queridos, que cobrem minhas aulas quando preciso, sou capaz de seguir em frente. Estou fazendo o meu melhor, torcendo para que de alguma forma através da minha própria sobrevivência possa ajudar minha mãe a sobreviver também, a superar a doença.
“Como estão as aulas, Rose?”, pergunta Denise.
É a primeira pergunta que me fazem em algum tempo. Estamos sentadas à mesa, esperando a comida chegar. “Estão indo bem. São uma boa distração.”
“Você continua correndo de manhã?”, pergunta Jill. Ela sempre se preocupa com a possibilidade de eu não estar me exercitando.
“Estou, sim. Todo dia. Ajuda. Ando com dificuldade de dormir.”
Minhas amigas assentem.
A pizza chega. Nem a toco.
Começo a chorar.
Denise está sentada perto da parede, e eu estou a seu lado. Jill se levanta e se junta a nós, de modo que as três ficamos apertadas no banco. Elas só esperam enquanto choro, Denise me abraçando e Jill com a cabeça apoiada no meu ombro.
Fiz um pacto comigo mesma: nada de chorar na frente da minha mãe. Sou sempre forte. Ela faria o mesmo por mim. Faria o mesmo pelo meu pai. É o mínimo que posso fazer por ela. Mas não tenho que fazer isso agora com minhas amigas.
Denise dá uma olhada no celular depois de um tempo, para conferir as horas. “Rose, é melhor comer alguma coisa. Daqui a pouco você vai ter que voltar.”
Faço que sim com a cabeça. Jill volta para o outro banco. Denise coloca uma fatia de pizza no meu prato, depois se serve. As duas voltam a falar sobre coisas inócuas, sobre o fato de que talvez neve esta semana, sobre a viagem que Jill vai fazer em breve para uma pesquisa de campo, sobre o novo colega de Denise, que vive passando pela sala dela. “Ele é bonito?”, pergunto, conseguindo participar da conversa. É hora de me recompor.
Ela sorri e suas bochechas coram. “É, sim.”
“Você podia chamá-lo para sair”, Jill sugere.
“Talvez”, diz Denise, e enfia o último pedaço de pizza na boca.
Quando nos aproximamos da entrada do hospital, meus passos estão pesados. Tenho que me esforçar para seguir adiante. “Não sei como conseguiria fazer isso sem vocês”, digo a Jill e Denise quando estamos nos despedindo.
“Que bom que você não precisa descobrir”, diz Jill, me dando um abraço.
Dou as costas para minhas amigas e volto a entrar. O cheiro do hospital penetra minhas narinas, meus pulmões. A caminhada até a sala de quimioterapia, onde minha mãe recebe seu tratamento, parece interminável, enquanto navego pelos corredores frios deste lugar. Das primeiras vezes, tive que pedir ajuda a enfermeiros e assistentes administrativos, mas a esse ponto já vim tantas vezes que sei o caminho de cor.
Quando chego, meu pai está sentado ao lado da minha mãe.
Ela está acordada agora, e um homem que não conheço está de pé do outro lado da poltrona dela. Os três estão conversando. Minha mãe parece animada. Meu humor melhora.
“Ah, ela chegou, minha filha! Rose!” Minha mãe fala e acena para mim como se não nos víssemos há tempos.
Meu pai se vira para mim, levantando as duas mãos em um gesto de inocência. “Rose, só quero que saiba que não tive nada a ver com isso”, diz ele em voz baixa quando chego perto o bastante para ouvir.
Olho para ele. Oi?
Ele dá de ombros e ri.
“Rose, conheci este professor muito simpático” — minha mãe para de falar por um momento e sorri para o homem, que retribui seu sorriso, provavelmente por educação — “que está acompanhando um amigo.”
Olho para o amigo, homem também, e está rindo. Ele acena para mim. “Oi. Meu nome é Angel.”
Aceno de volta. “Prazer.”
“Estou gostando de passar mais tempo com minha filha aqui na cidade”, minha mãe diz para eles. “Ela mora do outro lado da ponte.”
Olho para minha mãe. Não era assim que eu queria passar tempo com ela na cidade.
“Vocês dois não se conhecem?” Minha mãe está falando comigo de novo, apontando para o homem de pé do outro lado da poltrona dela. “Ele é seu colega, Rose! Sociólogo como você!”
Dou uma boa olhada nele agora, mas não reconheço seu rosto. O que reconheço é a paciência em seus olhos. Está sendo muito tolerante com as maluquices de minha mãe, e ela já o adora — percebo isso. Faço que não com a cabeça e aperto de leve o ombro da minha mãe. “Então somos colegas?”
O sujeito ri. “Parece que sim. Quer dizer, sou sociólogo. E professor.” Ele parece se preparar para dizer algo — talvez seu nome, talvez o nome da universidade em que trabalha, mas como saber? Antes que o faça, minha mãe já está falando de novo.
“Dei a ele seu telefone, Rose. Vocês dois deviam ir tomar um café e se conhecer melhor.”
“Ai, meu Deus, mãe! Não acredito!”
“Falei pra ela não fazer isso”, diz meu pai, com o canto da boca.
Viro para o cara, que está rindo de novo, depois para o amigo dele, que ri mais ainda. “Desculpa, minha mãe é assim”, digo. “Gosta de se intrometer.” Olho para ela como quem diz: Para! Então vejo como está feliz, noto o sorriso largo em seu rosto, e minha frustração passa. Volto a me virar para o homem. Talvez ele compreenda que as coisas andam difíceis para minha família. O amigo dele também está aqui fazendo quimioterapia, afinal de contas. Estendo a mão. “Oi, sou a Rose. Como você se chama?”
Ele aperta minha mão. “Thomas”, diz. “Prazer.”
Então me dou conta de que quase todo mundo na sala está prestando atenção, inclusive os pacientes. Os enfermeiros parecem achar graça, e meus pais nos observam.
“Eu disse a Thomas que vocês deviam sair”, diz Angel, rompendo o silêncio. “E, agora que você chegou, estou mais convencido ainda.”
Todo mundo ri. Minhas bochechas queimam, mas rio também.
A dor do dia parece suspensa.
Quando eu estava na faculdade, às vezes minha mãe ia me visitar, sozinha. Pegava o trem até o campus e saíamos para almoçar com meus amigos. Ela invadia a minha cozinha e fazia panelas de almôndegas com molho de tomate antes de ir embora, para que tivéssemos comida caseira para a semana. Mas houve uma visita em particular, quando ela veio porque eu estava arrasada por causa de um cara com quem andava saindo, Arturo.
Eu me lembro de ter ido encontrá-la na estação e de vê-la andando pela plataforma, vindo na minha direção. De como arrastava a mala de rodinha atrás de si, de como seu cabelo parecia recém-cortado, de como ele roçava seus ombros conforme ela se movia. Tudo em mim parecia vazio naquele momento, em branco, como se todas as sensações tivessem deixado meu corpo, assim como qualquer vontade.
“Como você está, querida?”, minha mãe perguntou imediatamente, abrindo os braços e me apertando com força. Ela sempre cheirava a roupa lavada e lavanda. “Melhor?”
Fiz que não e saímos da estação de trem para pegar um táxi. Tive que me esforçar para não chorar, mordendo o lábio para segurar as lágrimas. Minha mãe olhou bem para o meu rosto, que eu sabia que estava inchado. Fazia dias que estava.
“Que bom que me ligou, Rose”, disse. O motorista deu a partida e acelerou, passando pelo semáforo amarelo quando já ficava vermelho. Percorremos a cidade onde ficava a minha universidade, bem longe do lugar onde eu havia crescido. “Fico feliz de vir fazer uma visita.” No banco de trás do carro, ela pegou minha mão e entrelaçou seus dedos nos meus. “É para isso que as mães servem.”
Todo tipo de coisa passou pela minha cabeça durante o trajeto de táxi. Pensei em como me sentira animada e segura no segundo em que vi minha mãe na plataforma. Em como, pela primeira vez desde que Arturo terminara comigo, passei a acreditar que uma hora ficaria bem. Muito embora tivesse sido constrangedor ligar para minha mãe e pedir a ela que viesse ficar comigo, estava muito feliz por tê-lo feito. Também estava grata por ter uma mãe que literalmente largara tudo, fizera as malas e agora estava ali, segurando minha mão.
O táxi parou na frente do prédio em que eu morava na época. Eu dividia o apartamento com uma amiga, que ia passar o fim de semana fora. Minha mãe pagou o motorista enquanto eu tirava a bagagem dela do porta-malas. Subimos para o apartamento e entramos no silêncio da sala.
“Ah, é um bom lugar, Rose”, disse minha mãe, olhando para as paredes quase vazias, para as mesas e estantes sem cor ou qualquer decoração além de livros. Era a primeira vez que ela via o apartamento em que morei durante o terceiro ano de faculdade. “Só precisa de uma ajeitadinha.”
“Pode ser.”
Eu não disse a minha mãe que um dos motivos pelo qual o lugar parecia tão vazio era eu ter me livrado de tudo ali que me lembrava de Arturo, depois do nosso término.
Minha mãe pegou a mala que estava comigo e a levou para o meu quarto, sem perguntar nada, então começou a tirar suas coisas de lá. Eu a segui e fiquei olhando enquanto pendurava as roupas ao lado das minhas no armário.
Antes de Arturo, eu não sabia que alguém podia ficar tão arrasada. Achara que ele era minha alma gêmea, que ficaríamos juntos para sempre. Agora que tínhamos terminado, eu não sabia bem como atravessar os dias. Era um pouco como um fantasma vagando, sem encontrar seu lugar.
Minha mãe fechou a mala já vazia e a guardou no armário. Depois, virou e deu uma olhada no meu quarto. “Onde ficam os lençóis?”
Eu lhe mostrei o armário no corredor. Ela pegou um conjunto limpo e foi imediatamente trocar os lençóis da cama, afofando os travesseiros e deixando tudo bem esticadinho, como em um hotel. Eu me lembro de vê-la fazendo aquilo, parada ali como um zumbi.
“Melhor assim, não acha?”
Fiz que sim. Estava melhor.
Segui minha animada e determinada mãe até a sala. “Então, eu estava pensando, Rose”, ela começou a dizer. “Vamos limpar este lugar até deixar tudo brilhando, porque uma casa limpa sempre faz com que eu me sinta melhor. Depois vamos sair para comprar algumas coisas para deixar o apartamento mais colorido. Talvez um tapete, almofadas, uns enfeites para as mesas e as estantes, para dar uma animada. Podemos dar uma voltinha e comprar tudo que você precisa.”
“Tá bom”, concordei. Estava nas mãos dela.
Minha mãe sorriu. “Maravilha.”
Mostrei a ela o armário em que April e eu guardávamos o limpa-vidros, a vassoura, o esfregão, os panos e o espanador. Começamos a limpar tudo, avançando pouco a pouco pela cozinha pequena até que estivesse impecável e organizada, depois seguindo para a sala e o banheiro.
Em nenhum momento minha mãe me perguntou sobre Arturo. Nem quando estávamos comprando coisas para o apartamento, nem quando estávamos na livraria, decidindo que romances de mistério eu deveria ler, nem quando ela me levou para jantar. Minha mãe não me perguntou por que tínhamos terminado, ou por que eu não o conseguia esquecer. Ela não perguntou e eu não me ofereci para explicar, não contei chorando que tinha visto Arturo no campus outro dia, de mãos dadas com uma menina que parecia mais nova e talvez estivesse no primeiro ano, que ele tinha me substituído rapidinho e que saber daquilo doía muito. Minha mãe não gostava de remoer as coisas.
Mas aquele foi o primeiro dia em muito tempo que não chorei.
A energia da minha mãe era infinita, e sua alegria também. Irradiava de seu corpo, e eu a senti se infiltrando na minha pele, chegando a meu coração partido.
Quando escureceu lá fora e já estávamos prontas para ir para a cama, comecei a arrumar o sofá da sala, para dormir ali. Minha mãe me impediu.
“Não, Rose. Sua cama é grande o bastante para nós duas.” Ela olhou para mim de um jeito que fez com que eu me sentisse investigada. Parecia que estava vasculhando meu cérebro. “Acho que vai ser bom ter companhia. Sei que está com dificuldade de dormir, e sempre dormiu mais fácil quando havia alguém acordado junto com você. Só vou fechar os olhos depois que você pegar no sono.”
Pisquei para ela. Sim, eu andava com dificuldade de dormir, e, sim, tudo que ela havia dito era verdade. Eu me vi ansiosa por aquele alívio tão simples que minha mãe oferecia, mas também resistente a ele. “Não sou mais criança”, disse.
“Não. Mas pode me deixar fazer essa coisa mínima por você?”
Não respondi diretamente, apenas peguei os travesseiros que havia levado para o sofá, voltei para o quarto e fui para a cama. Minha mãe se sentou do outro lado e ficamos as duas à luz dos abajures, lendo os romances de mistério que havíamos comprado.
Houve momentos na vida em que pensei que minha mãe era muito antiquada e rígida. Mas, conforme envelheci e a vida ficou muito mais difícil, muito mais complicada, acho que passei a valorizá-la mais — ou pelo menos espero que sim. Quem ela é e como ela é. Há momentos em que me ocorre que gosto dela como pessoa, quase como se fosse uma amiga, momentos em que a constatação de que, apesar das nossas diferenças, ela é incrível, me atinge com tudo. Quanto mais velha fico, mais momentos assim experimento, mais me identifico com ela, como poderia me identificar com Jill, Denise ou Raya. Só que ela é ainda melhor do que uma amiga, porque é uma mãe, é a minha mãe, e vai me amar como ninguém mais no universo poderia.
Mas e durante aquela visita em particular, quando eu ainda estava na faculdade?
Foi a primeira vez que percebi o quanto gostava daquela pessoa sentada ali, lendo ao meu lado na cama. Fiquei muito agradecida por aquela mulher, que, quando eu estava pegando no sono e desliguei o abajur ao lado do meu travesseiro, me disse: “Boa noite, querida, vou continuar lendo mais um pouquinho”, como se não fosse nada de mais, como se pudesse ler a noite toda enquanto eu dormia, muito embora eu soubesse que ela estava cansada depois de um dia agitado. Eu conseguia ver isso em seu rosto.
Agora, consigo ver a exaustão no rosto da minha mãe, recostada na poltrona do hospital. Thomas voltou para o lado do amigo e meu pai foi à lanchonete, comer alguma coisa. Sou eu que tenho vontade de me deitar com minha mãe agora e ficar acordada lendo enquanto ela não pega no sono, sem nunca sair do seu lado, para que, quando estiver acordada, quando abrir os olhos, veja que tem alguém que ama ao seu lado, em vigília, se certificando de que está tudo bem.
Seus olhos ficam indo para Thomas e Angel, depois voltam para mim. Ela sorri, e eu noto que parte de sua energia retorna.
Pego sua mão e a aperto. “No que você estava pensando, mãe? Dando meu número a um cara que acabou de conhecer?” Parece que a estou repreendendo, mas na verdade estou achando graça.
“Não é óbvio? Eu estava pensando em arranjar alguém para a minha filha”, diz. “E não é um cara qualquer. Ele é que nem você, Rose, professor! Acho que é o cara perfeito! Bonito, alto, simpático com a sua mãe.” Ela parece ter cada vez mais energia, como se interferir na minha vida amorosa a ajudasse a voltar a ser a mulher forte que em geral é, sempre se metendo nas minhas coisas.
“Eu estou bem, mãe”, digo a ela. “Vou acabar conhecendo alguém.”
“Bom, eu gostaria que você conhecesse alguém agora.”
“Tenha paciência, mãe.”
Ela fica quieta por um momento, depois diz: “Tenho que fazer o que posso enquanto ainda estou aqui, Rose. Quero te ver encaminhada e feliz antes de partir”.
Um nó se forma na minha garganta. “Mãe, não fala assim!”
A respiração dela está constante. Aos pingos, a quimioterapia entra em suas veias, devagar, sempre muito devagar. “Querida, em algum momento, todos vamos ter que encarar a verdade.”
Eu inspiro de maneira audível. Levanto. Meu peito dói. Tenho que sair daqui. “Vou pegar alguma coisa para beber. Já volto.”
Quando chego à máquina de café, já estou chorando. Procuro por moedas na bolsa e coloco na máquina, uma a uma, ouvindo o som do metal aterrissando. Um copo cai sobre a grade debaixo do bico por onde sai o café. Ouço um zumbido, depois um assovio, e o líquido fumegante começa a escorrer, denso como lama.
Não parece bom, penso, olhando mais de perto.
Por um momento, me deixo distrair por algo tão idiota quanto a máquina de café — do hospital, do câncer, da minha mãe, da quimioterapia e do horror do que ela está vivendo, que estamos todos vivendo com ela, das últimas palavras que me disse sobre a verdade, o que quer que ela ache que é — embora eu mesma saiba bem. O café para de pingar, mas só chega até a metade do copo. Decido que não tem problema e vou pegar o copo quando a máquina de repente volta a funcionar, descontrolada, espirrando pó de café e água quente em toda parte, em mim, na minha mão, na manga da malha.
“Merda!” Puxo a mão de volta e olho para minha pele, onde bolhas vermelhas já se formam. “Merda!”, repito, agora mais baixo. Balanço a cabeça, me viro e apoio as costas contra a parede. “Não consigo…”, sussurro para ninguém, deixando os ombros caírem e a frase morrer no ar.
“Essa máquina é péssima. A do segundo andar é bem melhor.”
Ergo os olhos. Thomas está ali. “Cacete”, digo baixinho. Tento me recompor. Estou toda suja de café, tenho pó em todo o braço. “Desculpa. É que… não estou tendo um bom dia.”
“Talvez eu possa ajudar”, diz Thomas. Ele abre a mochila e começa a procurar alguma coisa dentro dela.
“Não sei como fazer isso”, digo, mais para mim mesma que para ele.
E não estou falando do café.
Aquele cara, Thomas, fica quieto por um momento. Então tira um guardanapo da mochila e me oferece. Eu aceito. Olho para ele, olho para ele de verdade desde que minha mãe nos forçou a nos conhecermos. Thomas retribui meu olhar. Vejo compreensão em seus olhos. Ele estende a mão para mim.
“Ninguém sabe”, diz.