As nove vidas de Rose Napolitano
Vinte e três
3 DE JULHO DE 2007
ROSE, VIDAS 6 E 8
“Mãe?”
“Sim, meu bem?” Minha mãe está distraída abrindo a massa da torta na ilha da cozinha. Tem a parte da frente de sua camiseta vermelha, branca e azul coberta de farinha. Estou entrando no espírito do Dia da Independência!, ela havia dito ao aparecer vestida como uma bandeira para o café da manhã. Estamos na casa de frente para o mar que meus pais costumam alugar no verão para passar o feriado de Quatro de Julho.
“Você e papai pensaram em não me ter?”
Os pegadores do velho rolo de macarrão, meio frouxos pelos anos de uso, tilintam enquanto minha mãe abre a massa. Ela pega o papel-manteiga e polvilha farinha em cima. Uma nuvem branca se forma no ar úmido. “Do que você está falando, Rose?”
O guardanapo em volta do copo plástico em que tomo café gelado já está todo molhado, com o gelo quase derretido. Dou um gole, mordendo o canudinho. O som das ondas do lado de fora do chalé preenche o silêncio. Quero mesmo contar a ela? Vou mesmo fazer isso?
Sim.
“Quando você e papai estavam tentando engravidar, consideraram deixar a ideia de lado? Simplesmente não ter filhos?”
Tlim!, faz o rolo sobre a massa aberta. Minha mãe para e olha para mim. “Claro que sim. Muitas vezes!”
“Sério?” Pareço cética, embora tenha perguntado justamente aquilo.
Minha mãe franze a testa. Noto uma leve camada de suor ali. Ela continua com ambas as mãos no rolo e o segura no ar, na altura do peito. “Rose, quando você está há dez anos tentando ter um filho, em diversos momentos decide jogar a toalha. Mas nunca foi porque não queríamos ter você.”
“Claro”, eu digo, depressa. “Faz sentido.”
Minha mãe deixa o rolo de lado e espana a farinha da camiseta patriótica. O rangido de uma espreguiçadeira entra pela tela da janela. É meu pai mudando de posição no deque lá fora. “Mas por que a pergunta?”
Penso em mudar de assunto, em falar de outra coisa, algo menos pesado, mas sigo em frente. “Você vai ficar surpresa, mas…” — engulo em seco — “Luke e eu estamos tentando engravidar.”
Minha mãe movimenta os braços e o corpo todo como se fosse uma marionete. As mãos e os cotovelos se agitam e derrubam o rolo pesado no chão, produzindo um baque forte. “O quê?”
“Tudo certo aí dentro?”, meu pai grita do deque.
“Tudo, pai!”, grito de volta.
“Mas você não quer ter filhos”, minha mãe sussurra. “Nunca quis. Desde a adolescência me atormentou com isso, deixando claro que eu nunca teria netos”, ela resmunga. “Não acredito em você.”
A conversa é claramente um erro. “Tudo bem, não precisa acreditar. Desculpa por ter tocado no assunto.” Tomo um pouco mais do café, que na verdade está na temperatura ambiente. Já estou saindo da cozinha quando uma mão enfarinhada segura meu braço.
“Fica aqui”, diz minha mãe. “Vamos conversar.”
Não me viro. “Tocar no assunto exigiu muito de mim, e não quero conversar a respeito se você for ser difícil ou me fizer sentir constrangida.” Inalo o ar quente do dia de verão. “Não é fácil para mim.”
Ouço minha mãe inspirar fundo e soltar o ar devagar. “Rose, pode me contar qualquer coisa. Eu não devia ter reagido assim. Só fiquei surpresa. Nunca pensei…”
“Eu sei.”
“Por que não vamos nos sentar no quarto? Para ter mais privacidade?”
Minha mãe passa por mim, sinalizando para que eu a siga até o quarto em que ela e meu pai estão dormindo, o que tem vista para o mar, quando se fica à janela em determinado ângulo. Luke e eu estamos num quarto menor, do outro lado do corredor. Ele saiu para fotografar um santuário de pássaros no outro extremo da praia. Meu pai está tomando sol e lendo.
Minha mãe se senta na cama e dá algumas batidinhas no espaço à sua frente. Pega o travesseiro e o segura contra a barriga, apertando-o com os braços. Está sujando tudo de farinha: a manta cinza, o travesseiro… Tem farinha até no cabelo porque passou a mão por ele, mas não digo nada.
Eu me sento, engulo em seco e tento falar apesar da ansiedade, apesar de ainda estar em dúvida quanto a ter esta conversa. “No começo, não estávamos decididos. Luke e eu só… nos abrimos à ideia.” Minha mãe me olha como quem diz: Sei. “Bom, eu decidi que ia parar de pensar demais. Se ficasse grávida, tudo bem. Se não ficasse, paciência.”
“Nossa, Rose. Nossa!”
Sinto a frustração subindo pela minha pele. “Mãe, se você for ficar fazendo essa cara de surpresa o tempo todo, eu vou embora.”
Ela suspira de leve e foca sua atenção na janela. “Não é isso, querida. Você só precisa me dar um tempo para eu me acostumar. É bastante coisa para absorver de uma vez só.” Ela sorri e bate palmas uma vez, animada. Depois deixa a empolgação de lado. “Bom, já tive meu momento de alegria e agora estou mais calma, pronta para ouvir. Quando foi isso? Quando você e Luke começaram a… deixar acontecer?”
“Faz quase um ano.”
“Querida, um ano não é nada. Ainda mais quando não se está tentando ativamente.”
“Talvez seja o destino tomando uma decisão por nós dois.”
“Talvez.”
“Eu e Luke nunca dissemos em voz alta que íamos tentar.”
Minha mãe franze a testa ao ouvir isso. “Como é possível?”
Penso no dia da briga que terminou em sexo. “Não sei, nós só… paramos de discutir a questão. É como um acordo tácito. Talvez Luke tenha medo de ser direto e me deixar brava, de que eu diga a ele para esquecer a ideia.”
Minha mãe desdenha. “Você faria isso?”
Decido ser sincera. “Não sei. Talvez.”
“Coitado.”
“Coitado? Sério, mãe?”
“Rose, acho que seria bom garantir que vocês dois estão na mesma página quanto a esse assunto.”
Eu me levanto e ligo o ar-condicionado. O calor está me incomodando. Também tenho medo de que Luke chegue e nos ouça conversando. O aparelho treme um pouco, então se estabiliza em um rugido baixo. Estou diante dele, com as mãos apoiadas na grade, e sinto o ar frio saindo. “Luke e eu nunca vamos estar na mesma página quanto a esse assunto.” Olho para minha mãe. “Isso é o máximo a que podemos chegar.”
Minha mãe vem para mais perto de mim. “E você acha isso justo?”
Viro as costas para o aparelho. O ar está gelado, logo vai ficar frio demais, mas não me movo. Não gosto das coisas que minha mãe está dizendo. Não tenho boas respostas para ela. “Bom, é justo eu ser pressionada para ter um filho que nunca quis?”
Eu a ouço suspirar. “Não, Rose. Não acho justo.”
Estou tremendo. “Você não ficaria brava no meu lugar?”
“Não sei. Tenho dificuldade de entender. Sou uma dessas mulheres que você tem em baixa conta, que cresceram sonhando em ter filhos, que tinham verdadeira necessidade de ter filhos, como se sua vida dependesse disso, que fizeram tudo que podiam para ter filhos. Minha vida é ser mãe.”
“Mãe.” Volto para a cama e me sento diante dela. “Não tenho você em baixa conta.”
Ela inclina a cabeça e me observa com seus olhos castanho-escuros. “Mas não chega a respeitar mulheres como eu. Sou a última pessoa que você gostaria de se tornar.”
“Isso não é verdade.” Mas será que ela não está certa?
“É claro que é. Você passou a vida toda se tornando meu oposto, se devotando a tudo que nunca fiz. E tenho muito orgulho disso! Você se tornou independente, incrivelmente bem-sucedida! E sei que ama o que faz, o que é a melhor parte.” Seus olhos recaem sobre a colcha, e ela abraça o travesseiro com mais força. “Mas às vezes tenho dificuldade de entender você. Sempre pensei que se tivesse um filho ficaríamos mais próximas. E é claro que quero um neto. Mas a verdade é que já me perguntei algumas vezes se você precisaria de mim caso tivesse um filho. Se eu poderia ser útil a você. Eu gostaria disso.” Ela ri, mas parece triste. “Não é como se eu pudesse te dar conselhos de carreira.”
Suas palavras pairam no ar opressivo de agosto.
“Desculpa, mãe.”
Ela olha nos meus olhos, com intensidade. “Não precisa pedir desculpa. Tudo bem ser diferente da sua mãe.”
Não sei bem o que dizer. De certo modo, minha mãe sempre foi o modelo do que eu não queria me tornar — uma mãe em tempo integral, que ficava em casa cuidando da filha, que dedicava a vida a cozinhar, limpar e tomar conta de mim e do meu pai. Decidi seguir o caminho oposto, o tempo todo expressando abertamente que não queria ser nem um pouco parecida com ela quando crescesse.
Se eu tivesse uma filha, ela faria o mesmo comigo? Tentaria se tornar o exato oposto de mim e anunciaria isso o tempo todo? Discordaria das escolhas que eu havia feito? Eu suportaria isso? Como uma mãe suporta uma coisa dessas?
“Você sabe que eu te amo”, digo a ela. “Às vezes sou uma vaca com você. Queria não ser. Sinto muito.”
Isso faz minha mãe rir de verdade, agora sem qualquer traço de tristeza. “Você não é uma vaca. Não fale assim de si mesma.”
“Eu seria uma péssima mãe”, prossigo. “Talvez essa seja a resposta, né? Eu devia ouvir meus instintos e proteger minha possível filha da encrenca que seria ter uma mãe como eu.”
“Rose! Não fale assim também! Além do mais, não acredito que seja verdade. Acho que você seria uma boa mãe. Uma ótima mãe. E eu seria uma avó incrível!”
“Acredito nessa última parte.” Apoio uma das mãos na cama, perto do pé da minha mãe. “Mas, quanto à primeira parte, quanto a ser uma boa mãe… tenho minhas dúvidas.”
Ela espana a farinha da bochecha. “Você nunca vai saber se não tentar.”
“Bom, no ritmo que as coisas vão, nunca vou saber. E talvez isso não seja um problema.”
“Talvez. Mas acho que você e Luke deviam continuar tentando. Vai que você gosta? E, se não conseguirem engravidar, podem pensar em adotar.” A voz dela é gentil, mas insistente. “É uma opção.”
A temperatura no quarto caiu, e noto que minha mãe está com os braços arrepiados. “Vamos lá fazer as tortas”, digo. “Papai provavelmente está se perguntando onde estamos, e Luke não deve demorar a chegar.”
“Está bem”, diz minha mãe depois de um momento.
Nós nos levantamos da cama. Minha mãe desliga o ar-condicionado, e o silêncio se faz à nossa volta.
“Você acha mesmo que não tem problema, mãe, eu não saber como me sinto em relação a um bebê, e talvez acabar tendo um mesmo assim?”
“Acho.”
“Por quê?”
“Porque tenho fé em você, Rose Napolitano”, diz ela, e abre a porta.