Deontologia Jurídica: Ética das Profissões Jurídicas
Capítulo XXIII – Um Advogado Chamado Jesus Cristo
Capítulo XXIII
UM ADVOGADO CHAMADO JESUS CRISTO
130. Ter fé, saber e ter a disposição de dirigir-se ao Criador de tudo,
chamando-o coloquialmente “Pai” (Gal. 4, 6), é privilégio, é dom sobrenatural, que, de certo, não se bebe nos livros de dogmática jurídica, nem mesmo na filosofia ou em qualquer livro de ciência, mesmo a teológica, mas se recebe por comunicação direta do Espírito Divino; dom que, como semente, requer cultivo, humildade e disponibilidade espiritual.
Quantas vezes, no interior da consciência, a voz do Mestre parece
endereçar ao advogado aquela mesma ponderação feita a uma mulher da Samaria, aquela que lhe regateara o favor de um pouco da água que tirava de um poço: “Mulher, se tu soubesses valorar o dom de Deus...” – Mulier... si scires donum Dei (Jo. 4, 10).
É sem dúvida como um presente de Deus que o advogado deve olhar a
sua profissão. Aliás, a mesma profissão que, depois de ressuscitado, Cristo passou a exercer, segundo nos revelou o apóstolo João: “Nós temos junto a Deus um Advogado: Jesus Cristo, o Justo” (1 João 2, 1). Inquestionavelmente, para os que têm o dom da fé, depara-se-lhes como privilégio de grande significado exercer junto aos homens essa mesma função que é exercida junto de Deus pelo Advogado Justo, Jesus Cristo.
A) A ORAÇÃO DO ADVOGADO
131. Leio num certo autor, enfatuado pela sabedoria do capitalismo e
embevecido pelo sucesso do marketing da profissão, que, ao entrar no seu escritório, deve o advogado deixar do lado de fora da porta, o indivíduo, o religioso, o bom chefe de família e os preconceitos de natureza moral. Do lado de dentro do escritório, está apenas o advogado, comprometido com a vitória e com o sucesso profissional, descompromissado com quaisquer preconceitos éticos.
A experiência dos grandes advogados que serviram de exemplo para a
nossa profissão ensina precisamente o contrário. É no rumo desse horizonte, aberto pelos luminares da advocacia, que se destaca a Oração do Advogado, da lavra do juiz Elizer Rosa:
“SENHOR, que eu Te encontre no escritório (destaques nossos), ao
sair de casa; que eu Te encontre no Foro, ao sair do escritório; que eu Te encontre em casa, quando a ela regressar.
Está no meu caminho. Vigia-me. Acompanha-me. Dá-me clientes. Dá-
me compreensão para seus problemas, palavras para conciliar e confortar. Ensina-me a unir e não a separar aqueles que devem andar unidos – pais e filhos, marido e mulher, irmã e irmão, amigo e amiga.
Ensina-me a ler na alma do cliente; ajuda-me a saber distinguir entre
o bom e o mau cliente, para que eu não sirva ao mau contra o bom.
Afasta de mim as causas injustas. Dá que eu as conheça antes de
ajuizar. Faze que minha presença não intranquilize os juízes. Que eu nunca insulte, nem lisonjeie o julgador. Faz-me ver na decisão do juiz o fruto de sua convicção.
Que eu não minta; que as testemunhas não mintam perante o juiz.
Faze-me respeitado pela minha vida em público e em particular. Dá-me a riqueza do espírito e esta me bastará. Que o pão dos meus filhos venha dos meus honorários; mas que meus honorários não venham do pão dos filhos do meu cliente. Ensina-me a pôr o mesmo empenho na causa paga como na gratuita.
Ajuda-me a ser advogado. Não deixes, SENHOR, que nenhum
advogado tenha fome, cometa crime, ou esteja em prisão. Perdoa-lhes aos que tenham errado. Ensina aos homens a perdoar-lhes também. Todo advogado quer ser bom. Má é a vida. E Tú o sabes, SENHOR. Abençoa-
nos. Amém”. 1
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1 Boletim nº 27 da OAB – Secção da Guanabara, de 15.09.1972, p. 3, apud Ruy de Azevedo
Sodré, ob. cit., p. 117.
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