Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 10 de 91

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Em Águas Sombrias

Lena

 

ESTAVAM TODOS ME encarando e me deu vontade de berrar com eles, de botar todo mundo para fora da nossa casa. Da minha casa. A casa é minha, é nossa, nunca vai ser dela. Tia Julia. Eu a encontrei no meu quarto, mexendo nas minhas coisas antes mesmo de ela me conhecer. Aí tentou ser simpática e me disse que sentia muito, como se eu não soubesse que ela não está nem se lixando.

Não durmo há dois dias e não quero falar com ela nem com ninguém. Também não quero a ajuda dela ou seus pêsames de merda, nem quero ouvir teorias imbecis sobre o que aconteceu com a minha mãe vindo de gente que nem a conhecia.

Eu estava tentando manter a boca fechada, mas, quando disseram que ela provavelmente caiu, eu me irritei, porque é óbvio que ela não caiu. Não caiu, não. Eles não entendem. Não foi um acidente aleatório, ela fez isso. Quer dizer, não que isso tenha importância agora, acho, mas acredito que todo mundo deva pelo menos admitir a verdade.

Eu disse a eles:

— Ela não caiu. Ela se jogou.

A policial começou a fazer perguntas idiotas do tipo: por que eu diria uma coisa dessas, e ela andava deprimida, e já tinha tentado isso antes, e o tempo todo tia Julia simplesmente ficou me olhando fixo com aqueles olhos castanhos tristes como se eu fosse alguma aberração.

Eu continuei.

— Vocês sabem que ela era obcecada por aquele poço, por tudo o que aconteceu ali, por todo mundo que morreu ali. Vocês sabem disso. Até ela sabe disso — falei, olhando para Julia.

Ela abriu a boca e fechou de novo, igual a um peixe. Parte de mim quis contar tudo para eles, parte de mim quis explicar tudo, tintim por tintim, mas, para quê? Não acho que sejam capazes de entender.

Sean — detetive Townsend, como tenho de chamá-lo quando o assunto é profissional — começou a fazer perguntas a Julia: quando foi a última vez que ela falou com a minha mãe? Como estava seu estado de espírito na ocasião? Havia alguma coisa a incomodando? E tia Julia ficou ali sentada e mentiu.

— Eu não falo com ela há anos — afirmou, o rosto ficando bem vermelho ao dizer isso. — Nós estávamos brigadas.

Ela conseguia ver que eu a estava encarando e tinha consciência de que eu sabia que ela estava mentindo, e foi ficando mais e mais vermelha, então tentou desviar a atenção de si perguntando para mim:

— Por que, Lena, por que você diria que ela se jogou?

Eu a encarei por um bom tempo antes de responder. Quis que ela soubesse que não conseguia me enganar.

— Estou surpresa por você me perguntar isso — falei. — Não foi você que disse à minha mãe que ela tinha tendências suicidas?

Ela começou a balançar a cabeça e a dizer:

— Não, não, eu não disse isso, não dessa maneira...

Mentirosa.

A policial começou a falar sobre como eles não tinham “prova alguma, no momento, que indique que esse tenha sido um ato deliberado” e sobre como eles não haviam encontrado nenhum bilhete.

Aí, eu tive de rir.

— E vocês acham que ela deixaria um bilhete? Minha mãe não deixaria porra de bilhete nenhum. Isso seria, tipo, tão banal.

Julia fez que sim com a cabeça.

— Isso é... isso é verdade. Posso imaginar Nel querendo deixar todo mundo curioso... Ela adorava um mistério. E teria adorado se ver no centro de um.

Tive vontade de dar um tapa na cara dela nesse momento. Sua vaca estúpida, me deu vontade de dizer, isso também é culpa sua.

A policial começou a se mexer à nossa volta, servindo copos d’água para todo mundo e tentando enfiar um na minha mão, e eu simplesmente não aguentei mais. Eu sabia que ia começar a chorar e não ia fazer isso na frente deles.

Fui para o meu quarto, tranquei a porta e chorei lá dentro. Enrolei uma echarpe no rosto e chorei o mais baixo que pude. Eu venho tentando não me entregar, não ceder ao desejo de me deixar arrastar e desmoronar, porque sinto que, quando isso começar, nunca mais vai parar.

Tenho tentado não deixar que as palavras venham, mas elas ficam girando e girando dentro da minha cabeça: me desculpe me desculpe me desculpe, foi minha culpa. Fiquei olhando fixamente para a porta do meu quarto e repassando sem parar aquele momento, no domingo à noite, quando mamãe veio me dar boa-noite. Ela disse: “Aconteça o que acontecer, você sabe o quanto eu te amo, Lena, não sabe?” Eu me virei na cama e enfiei os fones no ouvido, mas sabia que ela ainda estava ali, eu podia senti-la ali em pé, me olhando, foi como se eu pudesse sentir a sua tristeza e aquilo me deixou satisfeita porque achei que ela merecia. Eu faria qualquer coisa, qualquer coisa, para poder me levantar e abraçá-la e dizer que eu também a amo e que não foi nem um pouco culpa dela, eu nunca devia ter dito que a culpa era toda dela. Se ela teve culpa de alguma coisa, então eu também tive.