Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 41 de 91

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Em Águas Sombrias

O Poço dos Afogamentos | Katie, 2015

O Poço dos Afogamentos

 

Katie, 2015

 

A caminho do rio, ela parava de vez em quando para pegar uma pedra, ou um pedaço de tijolo, que colocava na mochila. Fazia frio, ainda não havia amanhecido, embora, se ela tivesse olhado para trás em direção ao mar, teria visto um toque de cinza no horizonte. Ela não olhou para trás, nem uma vez sequer.

Caminhou rapidamente, de início, descendo a ladeira em direção ao centro da cidade, distanciando-se de sua casa. Não foi direto para o rio; quis, uma última vez, caminhar pelo lugar onde fora criada, passando pela escola primária (sem ousar olhar para ela caso lembranças de sua infância a imobilizassem), pelo mercado do vilarejo, ainda fechado, pelo gramado onde o pai tentara, sem sucesso, lhe ensinar a jogar críquete. Passou pelas casas das amigas.

Havia uma casa em especial a visitar na Seward Road, mas ela não se sentiu capaz de passar por ela, então escolheu outra, e seus passos se tornaram mais lentos enquanto o fardo ia ficando mais pesado, enquanto a estrada subia em direção à cidade velha, as ruas estreitando entre casas de pedra cobertas de rosas trepadeiras.

Seguiu em frente, rumando para o norte e passando pela igreja até a estrada fazer uma curva acentuada para a direita. Atravessou o rio, parando um instante na ponte arqueada. Ela olhou para baixo, para a água, oleosa e fluida, correndo ligeira sobre as pedras. Podia ver, ou talvez apenas imaginar, o contorno escuro do velho moinho, a roda pesada e apodrecida imóvel, há meio século sem girar. Pensou na menina que dormia lá dentro e pousou as mãos, branco-azuladas de frio, na lateral da ponte, para que parassem de tremer.

Desceu um lance da escada de pedra íngreme que ia da estrada até a trilha na margem do rio. Nessa trilha, poderia seguir até a Escócia se quisesse. Já havia feito isso uma vez, um ano atrás, no verão anterior. Eram seis, carregando barracas e sacos de dormir, e fizeram o percurso em três dias. Acamparam ao lado do rio à noite, tomaram vinho comprado ilegalmente sob a luz do luar, contando histórias sobre o rio, sobre Libby, Anne e todas as outras. Não poderia sequer imaginar naquela época que um dia caminharia por onde elas haviam caminhado, que o seu destino e o delas estavam interligados.

Nos oitocentos metros entre a ponte e o Poço dos Afogamentos, ela caminhou ainda mais lentamente, a mochila pesada nas costas, objetos duros cutucando a sua coluna. Chorou um pouco. Por mais que tentasse, não conseguia evitar pensar na mãe, e isso era o pior, o pior de tudo.

Ao passar sob as copas das faias que ladeavam o rio, a escuridão era tanta que ela mal conseguia ver um palmo à sua frente, e havia certo consolo nisso. Pensou em se sentar por um instante, tirar a mochila das costas e descansar, mas sabia que não podia, porque, se o fizesse, o sol nasceria e seria tarde demais e nada teria mudado e haveria mais um dia em que ela teria de acordar antes do amanhecer e deixar todos em casa dormindo. Assim, ela continuou andando.

Pé ante pé até chegar ao bosque, pé ante pé para sair da trilha, tropeçando de leve na margem, e então, pé ante pé, para dentro da água.