Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 28 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

ESTAVA QUENTE NO dia do seu enterro, o calor tremeluzindo na água, a claridade forte demais, o ar denso demais, pesado com a umidade. Lena e eu fomos a pé até a igreja. Ela avançou alguns passos à minha frente e a distância foi aumentando; eu não sei andar muito bem de salto alto, ela o faz com naturalidade. Estava muito elegante, muito bonita, aparentando ter muito mais do que os seus 15 anos, com um vestido de crepe preto com um decote em gota. Caminhamos em silêncio, o rio turvo serpenteando por nós, taciturno e silencioso. O vento quente cheirava a decomposição.

Quando dobramos a curva para pegar o acesso à ponte, senti medo de quem talvez estivesse na igreja. Temi que ninguém aparecesse e que Lena e eu nos víssemos forçadas a sentar sozinhas sem nada além de você entre nós duas.

Mantive a cabeça baixa, o olho na rua, me concentrei em colocar um pé na frente do outro, tentando não tropeçar no asfalto irregular. Minha blusa (preta e de tecido sintético com um laçarote no pescoço, errada para aquele clima) grudava nas minhas costas. Meus olhos começaram a lacrimejar. Não importa, pensei, se meu rímel borrar. As pessoas vão pensar que estive chorando.

Lena ainda não chorou. Ou pelo menos não na minha frente. Às vezes, acho que a ouço soluçar no meio da noite, mas ela desce para tomar café com os olhos normais e despreocupada. Entra e sai de casa sem dizer uma palavra. Eu a ouço falar baixinho dentro do quarto, mas ela me ignora, se encolhe quando me aproximo, é ríspida quando lhe faço qualquer pergunta, rejeita a minha atenção. Não quer assunto comigo. (Eu me lembro de você entrando no meu quarto depois que a mamãe morreu, querendo conversar, e eu a mandando sair. É esse o caso? Ela está fazendo a mesma coisa? Não sei dizer.)

Quando nos aproximamos do átrio da igreja, reparei numa mulher sentada num banco perto da rua. Ela sorriu para mim com dentes podres. Pensei ter ouvido alguém gargalhar, mas era só você, dentro da minha cabeça.

Algumas das mulheres sobre as quais você escrevia estão enterradas naquele átrio, algumas das suas encrenqueiras . Será que vocês todas eram encrenqueiras? Libby era, claro. Aos 14 anos, seduziu um homem de 34, levou-o a se separar da amada esposa e do filho pequeno. Ajudada pela tia, a bruxa May Seeton, e pelos inúmeros demônios que invocaram, Libby convenceu o pobre e inocente Matthew a realizar uma série de atos antinaturais. Encrenqueira, mesmo. Dizem que Mary Marsh realizava abortos. Anne Ward era assassina. Mas e você, Nel? O que foi que você fez? Com quem você criou encrenca?

Libby está enterrada ali. Você sabia onde ela havia sido sepultada, assim como as outras, você me mostrou as lápides, raspando o musgo para que pudéssemos ler as inscrições. Você guardou um pouco dele — do musgo, digo — e entrou sorrateiramente no meu quarto e colocou um pouco debaixo do meu travesseiro, então me disse que Libby o havia deixado lá. Ela passeava pela beira do rio à noite, você me contou; se a gente prestasse bem atenção, podia ouvi-la chamar pela tia, por May, para vir salvá-la. Só que May nunca vem: ela não pode. Não está no cemitério. Depois que extraíram sua confissão, eles a enforcaram na praça da cidade; seu corpo está enterrado no bosque para além do muro do átrio da igreja, com pregos atravessando-lhe as pernas para que ela nunca mais possa se levantar.

No ponto mais alto da ponte, Lena se virou, só por um segundo, para me olhar.

Sua expressão — impaciência, talvez só um pingo de pena — era tão parecida com a sua que estremeci. Cerrei os punhos e mordi o lábio: não posso ter medo dela! É só uma criança.

Meus pés doíam. Eu sentia o suor na testa, a vontade que eu tinha era de rasgar o tecido da minha blusa, de rasgar a minha pele. Dava para ver uma pequena multidão aglomerada no estacionamento em frente à igreja. Eles se viravam agora, se viravam para nós, observando a nossa aproximação. Pensei em qual seria a sensação de me atirar por cima do muro de pedra: apavorante, sim, mas só por um segundo. Eu poderia escorregar para dentro da lama e deixar a água cobrir a minha cabeça; seria um alívio tão grande sentir frio, ficar invisível.

Lá dentro, Lena e eu nos sentamos lado a lado (distantes uns trinta centímetros) no primeiro banco. A igreja estava cheia. Em algum lugar atrás de nós, uma mulher chorava sem parar, como se estivesse com o coração partido. O vigário falou sobre a sua vida, listou as suas realizações, falou de sua dedicação à sua filha. Fui mencionada de passagem. Tinha sido eu quem lhe dera as informações, então acho que não podia me queixar de o discurso parecer superficial. Eu mesma poderia ter dito alguma coisa, talvez devesse ter dito, mas não consegui pensar em como falar sobre você sem denunciar alguma coisa — você, eu mesma, ou a verdade.

O sermão terminou de maneira abrupta e, antes que eu me desse conta, Lena já estava se levantando. Eu a segui pela passagem entre os bancos, o calor da atenção que nos dispensavam de certa forma ameaçador, nada consolador. Tentei não enxergar os rostos à minha volta, mas não consegui evitar: a mulher chorosa, o rosto enrugado e vermelho, Sean Townsend, os olhos cruzando com os meus, um rapaz de cabeça baixa, uma adolescente rindo por trás do punho cerrado. Um homem violento. Parei de repente e a mulher que vinha atrás de mim pisou no meu calcanhar.

— Perdão, perdão — murmurou, desviando de mim para passar.

Fiquei imóvel, parei de respirar, não conseguia engolir, minhas entranhas viraram líquido. Era ele.

Mais velho, sim, mais feio, decadente, porém inconfundível. Um homem violento. Esperei que ele direcionasse o olhar para mim. Achei que, se o fizesse, das duas, uma: ou eu choraria ou me atiraria em cima dele. Esperei, mas ele não estava olhando para mim. Olhava para Lena, observando-a.

Minhas entranhas liquefeitas viraram gelo.

Segui em frente sem ver para onde eu ia, empurrando as pessoas para fora do meu caminho. Ele ficou de lado, ainda vidrado em Lena. Observava enquanto ela tirava os sapatos. Os homens olham meninas como Lena com vários tipos de sentimento: desejo, luxúria, aversão. Eu não tinha como ver seus olhos, mas não precisava. Sabia o que havia dentro deles.

Comecei a avançar na direção dele, um ruído subindo pela minha garganta. As pessoas olhavam para mim, com pena ou confusas, sei lá. Eu precisava chegar até ele... Mas então ele se virou de repente e saiu andando. Transpôs o caminho rapidamente até chegar ao estacionamento e eu fiquei ali em pé, o ar invadindo meus pulmões de uma só vez, a adrenalina fazendo minha cabeça girar. Ele entrou num grande carro verde e foi embora.

— Jules? Você está bem? — A sargento Morgan surgiu ao meu lado e pousou uma das mãos no meu braço.

— Você viu aquele homem? — perguntei a ela. — Você o viu?

— Que homem? — perguntou ela, olhando à sua volta. — Quem?

— Ele é um homem violento — falei.

Ela pareceu se alarmar.

— Onde, Jules? Alguém fez alguma coisa... disse alguma coisa para você?

— Não, eu... não.

— Que homem, Jules? De quem você está falando?

Minha língua estava amarrada com algas, e minha boca, cheia de lama. Eu queria contar a ela, queria dizer: Eu me lembro dele. Eu sei do que ele é capaz.

— Quem você viu? — ela me perguntou.

— Robbie — enfim, eu disse o nome dele. — Robbie Cannon.