Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 78 de 91

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Em Águas Sombrias

Erin

 

 

HELEN FICAVA ERGUENDO a vista em direção à janela como se estivesse esperando alguém aparecer.

— Está esperando que Sean volte? — perguntei a ela.

Ela balançou a cabeça.

— Não. Por que ele haveria de voltar? Está em Newcastle conversando com seus superiores sobre essa confusão toda do Henderson. Certamente que você sabia disso, não?

— Ele não me falou — confessei. — Deve ter esquecido. — Ela arqueou as sobrancelhas, demonstrando incredulidade. — Ele é mesmo um pouco distraído, não é? — continuei. As sobrancelhas subiram ainda mais. — Quer dizer, não que afete o trabalho dele nem nada assim, é só que, às vezes...

— Pare de falar — vociferou ela.

Ela era impossível de decifrar, dando verdadeiras guinadas que iam da cordialidade à exasperação, da timidez à agressividade; raivosa um instante e assustada no outro. Aquilo estava me deixando nervosa. Aquela mulher miúda, sem graça e inexpressiva sentada à minha frente estava me assustando porque eu não tinha a menor ideia do que ela ia fazer em seguida — se ia me oferecer outra xícara de chá ou me atacar com a faca.

Ela chegou a cadeira para trás de repente, os pés arrastando no piso, levantou-se e foi até a janela.

— Já faz séculos que ele saiu — disse ela baixinho.

— Quem? Patrick?

Ela me ignorou.

— Ele sai para caminhar pela manhã, mas, normalmente, não por tanto tempo. Ele não está bem. Eu...

— Quer sair para procurá-lo? — perguntei. — Posso ir com você, se quiser.

— Ele vai até aquela casa quase todos os dias — disse ela, falando como se eu não estivesse ali, como se não pudesse me ouvir. — Eu não sei por quê. Era lá que Sean costumava levá-la. Era lá que eles... Ah, não sei. Não sei o que fazer. Eu nem sei mais o que é certo.

Ela cerrou o punho direito e uma mancha vermelha brotou no imaculado curativo branco.

— Fiquei tão feliz quando Nel Abbott morreu — disse ela. — Todos ficamos. Foi um alívio imenso. Mas durou pouco. Muito pouco. Porque agora não consigo deixar de me perguntar se não acabou nos causando ainda mais problemas. — Ela se virou, enfim, para me encarar. — Por que você está aqui? E, por favor, não minta, porque hoje eu não estou podendo. — Ela levou a mão ao rosto e, ao enxugar a boca, o sangue borrou seus lábios.

Procurei o celular dentro do bolso e o peguei.

— Acho que é hora de eu ir andando — avisei, me levantando devagar. — Eu vim aqui conversar com Sean, mas já que ele não está...

— Ele não é distraído, sabe — disse ela, dando um passo para a esquerda, se colocando entre mim e o caminho até a porta da frente. — Ele tem ausências, mas isso é diferente. Não, se ele não lhe disse que ia a Newcastle é porque não confia em você, e, se ele não confia em você, não tenho certeza se eu deveria. Só vou lhe perguntar mais uma vez — avisou ela —, por que está aqui?

Eu assenti com a cabeça fazendo um esforço consciente de baixar os ombros, de ficar relaxada.

— Como eu já disse, quero conversar com Sean.

— Sobre?

— Sobre uma alegação de conduta imprópria — respondi. — Sobre o relacionamento dele com Nel Abbott.

Helen deu um passo na minha direção e eu senti uma onda de náusea quando a adrenalina chacoalhou minhas entranhas.

— Vai haver consequências, não vai? — perguntou ela com um sorriso triste no rosto. — Como pudemos imaginar que não haveria?

— Helen — comecei —, eu só preciso saber...

Ouvi a porta da frente bater e dei um passo para trás, me distanciando dela rapidamente enquanto Patrick entrava no ambiente.

 

Por um instante, nenhum de nós disse nada. Ele olhou fixamente para mim, os olhos nos meus, a mandíbula travada, enquanto tirava o casaco e o pendurava no encosto da cadeira. Então virou a atenção para Helen. Notou a mão ensanguentada e imediatamente se agitou.

— O que foi que aconteceu? Ela fez alguma coisa com você? Minha querida...

Helen ruborizou e algo na boca do meu estômago se remexeu.

— Não foi nada — respondeu ela, imediatamente. — Não foi nada. Não foi ela. Minha mão escorregou enquanto eu picava cebola...

Patrick olhou para a outra mão dela, para a faca que ainda segurava. Tirou-a com todo o cuidado.

— O que ela está fazendo aqui? — perguntou ele, sem olhar para mim.

Helen inclinou a cabeça para o lado, olhando do sogro para mim e outra vez para ele.

— Ela está me fazendo perguntas — respondeu ela — sobre Nel Abbott. — Engoliu em seco. — Sobre Sean. Sobre a conduta profissional dele.

— Eu só preciso esclarecer um detalhe, processual, relacionado ao modo como a investigação vem sendo conduzida.

Patrick não parecia interessado. Sentou-se à mesa da cozinha sem olhar para mim.

— Você sabe por que mandaram ela para cá? — perguntou a Helen. — Eu andei me informando, ainda tenho contatos, claro, e conversei com um dos meus antigos colegas de trabalho lá de Londres. Ele me contou que esta bela detetive foi retirada da posição que ocupava na polícia metropolitana por ter seduzido uma pessoa mais jovem no trabalho. E não só uma pessoa qualquer: uma mulher! Dá para imaginar uma coisa dessas? — A gargalhada seca se transformou numa aflitiva tosse de fumante. — E cá está ela, perseguindo o Sr. Henderson, quando é culpada da mesma coisa. Abuso de poder para a própria satisfação sexual. E continua empregada. — Ele acendeu um cigarro. — Aí ela vem aqui e diz que quer falar sobre a conduta profissional do meu filho!

Por fim, ele olhou para mim.

— Você devia ter sido expulsa da polícia e ponto, mas, como é mulher, como é sapatão, deixaram você se safar. Isso é o que chamam de equidade. — Ele riu com escárnio. — Dá para imaginar o que aconteceria se fosse com um homem? Se Sean fosse pego dormindo com um dos seus subalternos, estaria no olho da rua.

Cerrei os punhos para fazer com que as mãos parassem de tremer.

— E se Sean estivesse dormindo com uma mulher que acabou morta? — perguntei. — O que o senhor acha que aconteceria com ele, então?

Ele é rápido para um velho. Estava de pé, a cadeira caindo no chão com um estrondo, e com a mão no meu pescoço no que pareceu ser menos de um segundo.

— Muito cuidado com essa boca, sua vagabunda imunda — sussurrou ele, soltando um bafo azedo na minha cara. Eu lhe dei um belo empurrão no peito e ele me largou.

Deu um passo atrás, os braços paralelos ao corpo, os punhos cerrados.

— Meu filho não fez nada de errado — disse ele, baixinho. — Assim, se você arrumar alguma encrenca para ele, mocinha, eu arrumo outra para você. Está me entendendo? E ainda vai receber a sua parte com juros.

— Papai — disse Helen. — Já chega. Você a está deixando assustada.

Ele se virou para a nora com um sorriso.

— Eu sei, querida. É proposital. — Ele olhou para mim outra vez e voltou a sorrir. — Com essas daí, é a única coisa que entendem.