Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 40 de 91

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Em Águas Sombrias

Lena

 

 

JULIA QUIS ME levar para casa de carro, mas eu disse a ela que estava com vontade de ir a pé. Não era verdade, mas: a) eu não queria ficar sozinha num carro com ela, e b) eu vi Josh, de bicicleta, do outro lado da rua, dando voltas e mais voltas, e saquei que ele estava me esperando.

— E aí, Josh? — perguntei quando ele se aproximou na bicicleta. Quando ele tinha uns 9 ou 10 anos, começou a dizer “E aí?” em vez de oi, e Katie e eu nunca mais o deixamos esquecer isso. Normalmente, ele acha graça, mas dessa vez não. Parecia assustado. — O que há de errado, Josh? O que foi que aconteceu?

— O que eles estavam te perguntando? — indagou ele com uma vozinha sussurrada.

— Nada, não, não se preocupe. Eles acharam uns comprimidos que a Katie andou tomando e acham que eles, quer dizer, os comprimidos, talvez tenham alguma coisa a ver com... com o que aconteceu. Estão enganados, claro. Não se preocupe. — Dei um abraço nele, mas ele se afastou, o que não costuma fazer. O normal é usar qualquer desculpa para ganhar um abraço meu ou segurar a minha mão.

— Eles te perguntaram sobre a mamãe? — perguntou ele.

— Não. Bem, sim, eu acho que sim. Um pouco. Por quê?

— Não sei — respondeu ele, mas não quis olhar para mim.

— Por que, Josh?

— Eu acho que a gente devia contar — disse ele.

Senti as primeiras gotas de chuva morna nos meus braços e olhei para o céu. Estava totalmente escuro, uma tempestade chegando.

— Não, Josh — falei. — Não. Nós não vamos contar.

— Lena, a gente tem que contar.

— Não! — repeti, e agarrei o braço dele com mais força do que queria e ele ganiu como um cachorrinho quando tem o rabo pisado. — Nós prometemos. Você prometeu. — Ele fez que não com a cabeça, então enterrei as unhas no braço dele.

Ele começou a chorar.

— Mas que bem isso está fazendo agora?

Soltei o braço dele e plantei as mãos nos seus ombros. Fiz com que olhasse para mim.

— Promessa é promessa, Josh. Estou falando sério. Você não vai contar para ninguém.

Ele tinha razão, de certa forma, nós não estávamos fazendo bem nenhum. Não havia bem algum a ser feito. Ainda assim, eu não podia traí-la. E se eles descobrissem o lance da Katie, iam fazer perguntas sobre o que aconteceu depois, e eu não queria que ninguém soubesse o que nós fizemos, a mamãe e eu. O que fizemos e o que deixamos de fazer.

Eu não queria deixar Josh naquele estado e não queria mesmo ir para casa, então passei o braço nos ombros dele, lhe dei um aperto tranquilizador e peguei sua mão.

— Vem — falei. — Vem comigo. Eu sei de uma coisa que a gente pode fazer, de uma coisa que vai fazer a gente se sentir melhor. — Ele ficou bem vermelho e eu comecei a rir. — Não é isso, seu moleque tarado! — Então ele também riu e enxugou as lágrimas do rosto.

Caminhamos em silêncio até a extremidade sul da cidade, Josh empurrando a bicicleta ao meu lado. Não havia ninguém na rua, a chuva caía com mais e mais vontade e eu percebia que Josh me espiava de vez em quando porque minha camisa tinha ficado completamente transparente e eu estava sem sutiã. Cruzei os braços e ele voltou a ficar vermelho. Eu sorri, mas não disse nada. Não dissemos nada até chegar à rua do Mark. Josh perguntou:

— O que a gente está fazendo aqui?

Eu me limitei a sorrir para ele.

Quando estávamos bem em frente à casa do Mark, ele voltou a perguntar:

— Lena, o que a gente está fazendo aqui? — Parecia assustado outra vez, mas parecia igualmente empolgado, e eu senti a adrenalina correndo dentro de mim, me deixando tonta e enjoada.

— Isto — respondi.

Peguei uma pedra sob a cerca viva e a atirei com toda a força em direção ao janelão da frente da casa, e ela atravessou o vidro direto, fazendo só um buraquinho.

— Lena! — gritou Josh, olhando em volta todo ansioso para ver se alguém estava olhando.

Não havia ninguém. Eu sorri para ele, peguei outra pedra e fiz a mesma coisa, e dessa vez ela estilhaçou a janela e a vidraça inteira desmoronou com um estrondo.

— Vamos — eu disse para ele, e lhe dei uma pedra.

Juntos demos a volta na casa toda. Foi como se a gente estivesse doidão de ódio — ríamos e gritávamos e xingávamos aquele escroto de todos os nomes que conseguíamos pensar.