Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 65 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

UM SOM QUE parecia um clique. Um clique e um silvo, um clique e um silvo, então:

— Ah. Aí está você, finalmente. Entrei por conta própria, espero que não se incomode.

A velha — a de cabelo roxo e delineador preto, a que diz ser médium, a que anda pela cidade arrastando os pés, cuspindo e xingando as pessoas, a que eu tinha visto no dia anterior batendo boca com Louise na frente da casa — estava sentada no banco da janela, balançando as pernas inchadas para lá e para cá.

— Eu me incomodo, sim! — exclamei, bem alto, tentando não deixá-la perceber que eu estivera com medo e que continuava, estúpida e ridiculamente, com medo dela. — Eu me incomodo muito, até. O que você está fazendo aqui? — Clique e silvo, clique e silvo. O isqueiro, o isqueiro de prata com as iniciais de Libby gravadas, ela o segurava. — Isso... Onde foi que você achou isso? É o isqueiro de Nel! — Ela balançou a cabeça negativamente. — É, sim! Como foi parar com você? Você esteve nesta casa, pegando coisas? Você...

Ela fez um aceno para mim com a mão gorda e coberta de bijuterias chamativas.

— Ora, acalme-se, está bem? — Ela abriu um sorriso encardido. — Sente-se. Sente-se, Julia. — Ela apontou para a poltrona à sua frente. — Venha se juntar a mim.

Fiquei tão perplexa que fiz o que ela pediu. Atravessei a sala e me sentei na sua frente enquanto ela se remexia em seu assento.

— Isto daqui não é muito confortável, é? Podia ser mais acolchoado. Embora algumas pessoas pudessem dizer, talvez, que eu tenho acolchoamento próprio suficiente! — Ela riu da própria piada.

— O que você quer? — perguntei. — Por que está com o isqueiro da Nel?

— Não da Nel, não é da Nel, é? Olhe bem aqui — ela apontou para a gravação. — Aqui, está vendo? LS.

— É, eu sei. LS. Libby Seeton. Só que não pertenceu a Libby, não é mesmo? Não creio que fabricassem esse tipo de isqueiro em especial no século dezessete.

Nickie deu uma gargalhada.

— Não é da Libby! Você achou que LS era de Libby? Não, não, não! O isqueiro pertencia a Lauren. Lauren Townsend. Lauren, que foi Slater um dia.

— Lauren Slater?

— Isso mesmo! Lauren Slater, também Lauren Townsend. A mãe do seu detetive-inspetor.

— A mãe de Sean? — Eu pensei no garotinho subindo a escada, no garoto da ponte. — A Lauren da história é a mãe de Sean Townsend?

— Isso mesmo. Jesus! Você não é das mais espertas, é? E não é só uma história, é? Não é só uma história. Lauren Slater se casou com Patrick Townsend. Teve um filho que ela amava de paixão. Tudo lindo. Só que, ou pelo menos foi o que a polícia quis que acreditássemos, ela se matou! — Chegou o corpo para a frente e sorriu para mim. — Não é muito provável, é? Eu disse isso na época, claro, mas ninguém me dá ouvidos.

Será que Sean era mesmo aquele menininho? O que estava na escada, o que viu a mãe cair, ou que não viu a mãe cair, dependendo de em quem você acreditava? Isso era mesmo verdade, não só uma história inventada por você, Nel? Lauren foi a tal que teve o caso, a que bebia demais, a irresponsável, a péssima mãe. Não era essa a história dela? Lauren foi a tal em cujas páginas você escreveu: Beckford não é um local de suicídios. Beckford é um local para se livrar de mulheres encrenqueiras. O que você estava tentando me contar?

Nickie continuou falando.

— Está vendo só? — disse ela, apontando um dos dedos para mim. — Está vendo? É isso o que eu quero dizer. Ninguém me ouve. Você está sentada aí e eu estou bem aqui na sua frente e você não está nem ouvindo!

— Eu estou ouvindo, estou, sim. Eu só... eu só não entendo.

Ela resmungou.

— Bem, se você escutasse entenderia. Este isqueiro — clique, silvo — pertenceu a Lauren, certo? Você precisa se perguntar por que sua irmã o tinha lá em cima no meio das coisas dela?

— Lá em cima? Então você esteve dentro desta casa! Você o pegou, sim, você... foi você? Você entrou no banheiro? Escreveu alguma coisa no espelho?

— Me ouça! — Ela pôs-se de pé. — Não se preocupe com isso, não é importante. — E deu um passo na minha direção, inclinando o corpo para a frente, e fez um clique no isqueiro outra vez, a chama bruxuleando entre nós duas. Ela cheirava a café queimado e rosas. Cheguei para trás, me afastando daquele cheiro de velha.

— Você sabe para que ele usou isto daqui? — perguntou ela.

— Quem usou isto para quê? Sean?

— Não, sua tonta. — Ela revirou os olhos e se atirou outra vez no banco da janela, que rangeu dolorosamente por baixo do peso do seu corpo. — Patrick! O pai. Ele não usou isto para acender cigarros. Depois que a mulher morreu, ele pegou todas as coisas dela, roupas, quadros e tudo o que pertenceu a ela, colocou no quintal dos fundos da casa e botou fogo. Queimou tudinho. E isto — ela fez um clique com o isqueiro uma última vez — foi o que ele usou para acender a fogueira.

— Muito bem — comecei, a paciência chegando ao fim. — Mas eu continuo sem entender. Por que ele estava com Nel? E por que você o pegou?

— Perguntas, perguntas — disse Nickie com um sorriso. — Bem. Em resposta a por que está comigo, eu precisava de alguma coisa dela, não precisava? Para poder conversar com ela direito. Eu costumava escutar a voz dela tão direitinho, com tanta clareza, mas... você sabe. Às vezes as vozes são caladas, não é mesmo?

— Eu realmente não tenho a menor ideia sobre essas coisas — respondi, secamente.

— Ora, escute só isso! Você não acredita em mim? Não é como se você jamais fosse falar com os mortos, não é mesmo? — Ela deu uma risada cúmplice e meu couro cabeludo se retraiu. — Eu precisava de alguma coisa para invocá-la. Tome! — Ela me ofereceu o isqueiro. — Tome de volta. Eu poderia tê-lo vendido, não poderia? Podia ter pegado todo tipo de objeto e passado adiante; sua irmã tinha uns negócios caros, não tinha? Joias e coisas assim? Mas não fiz isso.

— Quanta bondade sua.

Ela abriu um imenso sorriso.

— Passemos à sua segunda pergunta: por que sua irmã estava com esse isqueiro? Bem, disso eu não tenho certeza.

A frustração acabou por me vencer.

— Jura? — zombei. — Achei que você falava com os espíritos? Pensei que esse fosse o seu lance. — Olhei em volta da sala. — Ela está aqui agora? Por que não pergunta a ela diretamente?

— Não é tão fácil assim, é? — retrucou, magoada. — Eu tenho tentado contato, mas ela calou a boca. — Até parece. — Não precisa ficar toda ouriçadinha. Eu só estou tentando ajudar. Só estou tentando lhe dizer que...

— Bem, então fale logo! — esbravejei. — Desembuche!

— Calminha — reclamou ela, fazendo biquinho, a papada balançando. — Era o que eu estava lhe dizendo, se pelo menos você escutasse. O isqueiro é de Lauren, e Patrick estava com ele por último. E isso é que é importante. Não sei por que Nel estava com ele, mas o fato de estar com ela é que é o xis da questão, percebe? Ela o tirou dele, talvez, ou ele o deu a ela. De qualquer maneira, essa é a questão importante. Lauren é a peça importante. Isso tudo, a sua Nel, não tem nada a ver com a coitadinha da Katie Whittaker nem com aquele professor idiota nem com a mãe de Katie nem com nada disso. Tem a ver com Lauren e com Patrick.

Mordi o lábio.

— Como é que isso tem a ver com eles?

— Bem — ela se remexeu no assento. — Nel estava escrevendo histórias sobre eles, não estava? E ela ouviu a história de Sean Townsend porque, afinal de contas, ele supostamente foi testemunha, não é mesmo? Então ela achou que ele tinha lhe contado a verdade, e por que haveria de não achar?

— E por que ele haveria de não contar a verdade? Quer dizer, você está dizendo que Sean mentiu sobre o que aconteceu com a mãe dele?

Ela comprimiu os lábios.

— Você já conheceu o velho? Ele é um demônio, é, sim, e eu não digo isso no bom sentido.

— Então Sean mentiu sobre como a mãe morreu porque tem medo do pai?

Nickie deu de ombros.

— Não posso afirmar com certeza. Mas eis o que eu sei: a história que Nel ouviu, a primeira versão, aquela na qual Lauren sai correndo no meio da noite e o marido e o filho vão atrás dela, essa não é verdade. E eu disse isso a ela. Porque, sabe, minha Jeannie, minha irmã, ela estava aqui nessa época. Estava lá. Naquela noite... — De repente, ela mergulhou a mão dentro do casaco e começou a vasculhar à procura de alguma coisa. — O negócio é que — recomeçou ela — eu contei à sua Nel a história da nossa Jeannie e Nel a escreveu.

Ela sacou um bolo de folhas. Estendi a mão para pegá-lo, mas Nickie o recolheu outra vez.

— Só um instante — falou. — Você precisa entender que isto — ela sacudiu as folhas à minha frente — não é a história toda. Porque mesmo eu tendo contado a história toda, ela não quis escrever tudo. Que mulher cabeça-dura, a sua irmã. Parte do motivo de eu gostar tanto dela. E foi aí que tivemos o nosso pequeno desentendimento. — Ela se acomodou outra vez no banco, sacudindo as pernas mais vigorosamente. — Eu contei a ela sobre Jeannie, que era policial na época em que Lauren morreu. — Ela tossiu bem alto. — Jeannie não acreditava que Lauren tinha entrado naquela água sem um empurrão, porque tinha um monte de outras coisas acontecendo, sabe. Ela sabia que o marido de Lauren era um demônio e que ele batia nela e que contava histórias sobre ela ir se encontrar com algum amante lá na casa de Anne Ward, muito embora ninguém nunca tenha visto nem sombra de tal homem. Essa foi, supostamente, a razão, entende? O sujeito com o qual ela andava transando deu no pé, ela ficou deprimida e então se jogou. — Nickie acenou com a mão para mim num gesto de desdém. — Bobagem. Com um menino de 6 anos em casa? Bobagem.

— Bem, na verdade — protestei —, é preciso levar em conta que a depressão é um assunto complicado e...

— Pffft! — Ela me silenciou com outro aceno. — Não tinha amante nenhum. Nenhum que qualquer pessoa das redondezas jamais tenha visto. Você poderia perguntar isso à minha Jeannie, só que ela está morta. E você sabe quem acabou com ela, não sabe?

Quando ela finalmente parou de falar, ouvi a água sussurrar no silêncio.

— Você está dizendo que Patrick matou a mulher dele e que Nel sabia disso? Está dizendo que ela escreveu isso?

Irritada, Nickie fez um barulhinho de desaprovação.

— Não! É isso o que eu estou te dizendo. Ela escreveu algumas coisas, mas não outras, e foi aí que nós nos desentendemos, porque ela ficou feliz em escrever as coisas que Jeannie me contou enquanto estava viva, mas não as coisas que Jeannie me contou quando já estava morta. O que não faz o menor sentido.

— Bem...

— O menor sentido. Mas você precisa me ouvir. E se você não me ouvir — começou ela, estendendo as folhas em minha direção —, ouça a sua irmã. Porque ele acabou com elas. De certa forma. Patrick Townsend acabou com Lauren, acabou com a nossa Jeannie e, se eu não me engano, acabou com a sua Nel e tudo.