Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 75 de 91

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Em Águas Sombrias

Terça-feira, 25 de agosto | Erin

TERÇA-FEIRA, 25 DE AGOSTO

 

Erin

 

SAÍ CEDO DA casa dos Wards para minha corrida. Queria me afastar de Beckford para clarear as ideias, mas, ainda que o ar tivesse sido limpo pela chuva e o céu estivesse de um azul-claro perfeito, a neblina dentro da minha cabeça só se tornou mais escura e turva. Nada neste lugar faz sentido.

Até Sean e eu deixarmos Jules e Lena na Casa do Moinho, eu já estava num tal estado de agitação e tão puta da vida com ele que simplesmente abri o verbo ali mesmo no carro.

— O que exatamente estava rolando entre você e Nel Abbott?

Ele enfiou o pé no freio com tanta força que achei que ia atravessar o para-brisa. Paramos no meio da pista, mas Sean não pareceu se importar.

— O que foi que você disse?

— Não quer ir para o acostamento? — perguntei, olhando pelo retrovisor, mas ele não foi.

Eu me senti uma burra por ter deixado a coisa escapulir daquele jeito, sem nenhum preâmbulo, sem testar o terreno.

— Você está questionando a minha integridade? — Havia uma expressão em seu rosto que eu ainda não conhecia, uma dureza que eu não tivera de enfrentar ainda. — Então? Está?

— Me deram a entender — comecei, mantendo a voz calma —, me foi sugerido...

— Sugerido? — Ele parecia não acreditar. Um carro atrás de nós buzinou e Sean pisou de novo no acelerador. — Alguém te deu a entender alguma coisa, foi? E você achou que seria apropriado me questionar?

— Sean, eu...

Nós havíamos chegado ao estacionamento em frente à igreja. Ele parou o carro, inclinou o corpo por cima de mim e abriu a porta do carona.

— Você já viu o meu histórico como policial, Erin? — perguntou ele. — Porque eu já vi o seu.

— Senhor, eu não quis ofendê-lo, mas...

— Saia do carro.

Eu mal tive tempo de fechar a porta antes de ele acelerar e partir.

 

Eu estava sem fôlego quando cheguei ao topo do morro que fica ao norte da casa; parei no cume para respirar um pouco. Ainda era cedo — antes das sete da manhã —, o vale todo era meu. Perfeita e pacificamente meu. Alonguei as pernas e me preparei para a descida. Tinha a sensação de que precisava correr mais rápido, voar, me exaurir. Não era assim que se clareavam as ideias?

Sean havia reagido como um homem culpado. Ou como um homem ofendido. Um homem que achava que sua integridade estava sendo questionada sem provas. Aumentei meu ritmo. Quando ele zombara de mim a respeito de nossos respectivos históricos, tinha razão. O dele era impecável; por muito pouco eu não fui demitida por dormir com alguém mais jovem que eu no trabalho. Agora eu estava correndo de verdade, em desabalada carreira morro abaixo, os olhos grudados na trilha, o tojo na lateral do meu campo de visão um borrão. Ele tem um histórico de prisões impressionante, é altamente respeitado pelos colegas. É, como disse Louise, um bom homem. Meu pé direito prendeu numa pedra do caminho e eu voei. Fiquei deitada na terra, lutando para respirar, completamente sem fôlego. Sean Townsend é um bom homem.

Há um bocado deles por aí.

Meu pai era um bom homem. Era um policial respeitado. Isso não o impedia de sentar o cacete em mim e nos meus irmãos quando perdia a cabeça, mas, ainda assim. Quando minha mãe se queixou com um dos colegas dele depois que ele quebrou o nariz do meu irmão mais novo, o colega disse: “Nós somos uma irmandade, meu anjo, e não nos metemos nos assuntos uns dos outros.”

Eu me levantei do chão, limpando a terra do corpo. Eu podia ficar calada. Podia permanecer de bem com a irmandade ignorando as sugestões e insinuações de Louise, podia ignorar a possível ligação pessoal de Sean com Nel Abbott. Mas, se eu fizesse isso, estaria ignorando o fato de que, onde há sexo, há motivação. Ele teria motivo para se livrar de Nel, assim como a mulher dele. Lembrei do rosto dela no dia em que conversamos na escola, do jeito como falou de Nel, de Lena. O que era mesmo que ela tanto detestava? Sua insistente e cansativa expressão de disponibilidade sexual?

Cheguei ao pé do morro e contornei o tojo; a casa estava a apenas duzentos metros de distância e dava para ver que havia alguém do lado de fora. Um vulto robusto e envergado usando um casaco escuro. Nem Patrick, nem Sean. Quando me aproximei, percebi que era a velha gótica, a médium, a doida de pedra da Nickie Sage.

Estava encostada no muro da casa, o rosto arroxeado. Parecia estar à beira de um ataque cardíaco.

— Sra. Sage! — gritei. — A senhora está bem?

Ela ergueu os olhos para mim respirando com dificuldade e empurrou o chapéu molengo de veludo mais para cima da testa.

— Estou bem — respondeu ela. — Mas já fazia um bom tempo que eu não andava tanto assim. — Ela me olhou de cima a baixo. — Parece que você andou brincando na lama.

— Ah, é — falei, fazendo um péssimo trabalho em tirar o resto da terra de cima de mim. — Levei um tombo. — Ela assentiu com a cabeça. Quando endireitou o corpo, deu para ouvir o chiado em seu peito enquanto respirava. — Quer entrar e se sentar?

— Aí dentro? — Ela fez um gesto com a cabeça em direção à casa. — Nem pensar. — Deu alguns passos se afastando da porta da frente. — Você sabe o que aconteceu aí dentro? Sabe o que Anne Ward fez?

— Assassinou o marido — respondi. — Depois se afogou, bem aqui no rio.

Nickie deu de ombros, seguindo em direção à margem com seu andar gingado. Eu a segui.

— Foi mais exorcismo que assassinato, se quer saber minha opinião. Ela estava se livrando de seja lá qual mau espírito tinha tomado conta daquele homem. E o espírito realmente deixou o corpo dele, só que não deixou esse lugar, não é? Tem dificuldade para dormir aí?

— Bem, eu...

— Não me surpreende. Não me surpreende nem um pouco. Eu poderia ter lhe dito isso. Não que você fosse me dar ouvidos. Esse lugar é cheio de maldade. Por que acha que Townsend o mantém como se fosse dele, toma conta da casa como se fosse um lugar especial?

— Não tenho a menor ideia — respondi. — Achei que ele a usasse como cabana para pescaria.

— Pescaria! — exclamou ela como se nunca tivesse ouvido nada tão ridículo em toda a sua vida. — Pescaria!

— Bem, eu realmente já o vi aqui fora pescando, então...

Nickie deu um resmungo de reprovação, desdenhando da ideia com um gesto da mão. Estávamos na beira da água. Cutucando um dos calcanhares com a ponta do pé, depois o outro com a ponta do outro pé, Nickie foi deslizando os pés inchados e manchados para fora dos mocassins. Enfiou um dos dedos na água e deu uma risada satisfeita.

— A água aqui em cima é fria, não é? Limpa. — De pé, dentro do rio, com a água na altura dos tornozelos, ela perguntou: — Você já foi vê-lo? Townsend? Já perguntou sobre a mulher dele?

— Está falando de Helen?

Ela se virou para me olhar com uma expressão de desdém.

— A mulher de Sean? Aquela Helen com cara de bunda que levou uma palmada? O que ela tem a ver com coisa alguma? Ela é tão interessante quanto tinta secando num dia úmido. Não, a que devia lhe interessar é a mulher de Patrick. Lauren.

— Lauren? A Lauren que morreu há trinta anos?

— Sim, a Lauren que morreu há trinta anos! Você acha que os mortos não importam? Acha que os mortos não falam? Devia ouvir as coisas que eles têm a dizer. — Ela foi arrastando os pés um pouco mais para dentro do rio, abaixando-se para molhar as mãos. — Foi aqui, foi aqui que Anne veio lavar as mãos, exatamente assim, sabe, só que ela seguiu em frente...

Eu estava perdendo o interesse.

— Preciso ir andando, Nickie, tenho que tomar um banho e sair para trabalhar. Foi bom conversar com você — falei, me virando para deixá-la.

Já estava na metade do caminho até a casa quando a ouvi gritar:

— Você acha que os mortos não falam? Devia prestar atenção, talvez escute alguma coisa. É Lauren que você está procurando, foi ela que começou isso tudo!

Eu a deixei no rio. Meu plano era pegar Sean logo cedo; achei que, se aparecesse na casa dele, o pegasse e o levasse para a delegacia, eu o teria prisioneiro por pelo menos quinze minutos. Ele não seria capaz de se afastar de mim nem me expulsar do carro. Era melhor do que confrontá-lo na delegacia, onde haveria outras pessoas em volta.

 

Da casa dos Wards até a casa dos Townsends não é uma distância grande. Seguindo o rio, são cerca de cinco quilômetros, mas não há estrada direta, então é preciso ir até a cidade e sair outra vez, e já passava das oito quando cheguei lá. Era tarde demais. Não havia nenhum carro no pátio — ele já havia saído. Eu sabia que o mais sensato a fazer seria dar meia-volta e ir para a delegacia, mas eu estava com a voz de Nickie dentro da cabeça, além da de Louise, então resolvi só dar uma olhada, na remota possibilidade de Helen estar em casa.

Não estava. Bati à porta algumas vezes e não houve resposta.

Já estava voltando para o carro quando pensei que não custava nada tentar a casa vizinha, de Patrick Townsend. Ninguém atendeu lá, também. Espiei pela janela da frente, mas não consegui ver muita coisa, só um cômodo escuro e aparentemente vazio. Voltei à porta da frente e bati outra vez. Nada. Mas, quando experimentei a maçaneta, a porta se abriu e isso me pareceu um convite.

— Olá? — chamei. — Sr. Townsend? Olá?

Não tive resposta. Entrei na sala de estar, um espaço austero com piso de madeira escura e paredes sem quadros; a única concessão a algum tipo de decoração era uma seleção de fotografias em porta-retratos sobre o console da lareira. Patrick Townsend fardado — primeiro no exército, depois na polícia — e uma série de fotos de Sean quando criança, depois adolescente, sorrindo sem graça para a máquina fotográfica, a mesma pose e a mesma expressão em cada uma delas. Havia também uma foto de Sean e de Helen no dia do casamento, de pé na frente da igreja de Beckford. Sean com uma aparência jovem, bela e infeliz. Helen não mudara quase nada — era um pouquinho mais magra, talvez. Parecia mais feliz, porém, sorrindo timidamente para a câmera apesar do vestido feio.

Num aparador de madeira, à frente da janela, havia uma coleção de quadros contendo certificados, condecorações, diplomas, um monumento às realizações de pai e filho. Não havia nenhuma foto, pelo que pude ver, da mãe de Sean.

Deixei a sala de estar e chamei outra vez:

— Sr. Townsend?

Minha voz ecoou de volta para mim no corredor.

O lugar como um todo me pareceu abandonado e, no entanto, imaculadamente limpo, nem uma partícula de poeira nos rodapés ou no corrimão. Subi a escada até o patamar. Havia ali dois quartos, um ao lado do outro, tão escassamente mobiliados quanto a sala de estar lá embaixo, mas com sinais de uso. Os dois, ao que parecia. No quarto principal, com uma enorme janela com vista para o vale até o rio, estavam os objetos de Patrick: sapatos pretos bem engraxados perto da parede, ternos pendurados no armário. No quarto vizinho, ao lado de uma cama de solteiro meticulosamente arrumada, havia uma cadeira com um paletó pendurado, que reconheci como sendo o que Helen usara quando eu a entrevistei na escola. E no armário havia outras roupas suas: pretas e cinza e marinho e sem personalidade.

Meu telefone fez um bipe ensurdecedoramente alto no silêncio de funerária daquela casa. Era uma mensagem de voz, uma chamada perdida. Jules: “Sargento Morgan”, dizia, com a voz solene. “Preciso conversar com você. É muito urgente. Estou indo vê-la. Eu... é... Preciso conversar com você a sós. Eu te vejo na delegacia.”

Enfiei o celular de novo no bolso. Voltei ao quarto de Patrick e dei outra olhada rápida, nos livros das prateleiras, na gaveta ao lado da cama. Havia fotos ali, também, fotos antigas, de Sean e Helen juntos, pescando no rio perto da cabana, Sean e Helen com cara de orgulho, encostados num carro novo, Helen de pé na frente da escola parecendo, ao mesmo tempo, feliz e envergonhada, Helen no pátio da casa com um gato aninhado nos braços. Helen, Helen, Helen.

Ouvi um barulho, um clique, o som de uma porta abrindo e logo um rangido nas tábuas do assoalho. Coloquei as fotos de volta no lugar depressa, fechei a gaveta e passei o mais silenciosamente que pude para o patamar da escada. Então, gelei. Helen estava ao pé da escada com a cabeça erguida para me olhar. Segurava uma faca pequena, mas pontiaguda, na mão esquerda e agarrava a lâmina com tanta força que seu sangue pingava no chão.