Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 64 de 91

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Em Águas Sombrias

Lena

 

 

ELE SE DESCULPOU quando me deixou sair da mala do carro.

— Foi mal, Lena, mas o que você queria que eu fizesse? — Comecei a rir, mas ele me mandou calar a boca, o punho cerrado, e eu achei que ele ia me dar outra porrada, então calei a boca.

Estávamos numa casa à beira-mar — só uma casa, completamente isolada, em cima de um penhasco, com um jardim, um muro e uma dessas mesas externas de pub. A casa parecia estar trancada, não tinha ninguém por lá. De onde eu estava, não dava para ver nenhuma outra construção por perto, só uma trilha passando ao lado, nem mesmo uma estrada de verdade. Também não dava para escutar nada, nenhum barulho de trânsito, nada assim, só as gaivotas e as ondas batendo nas pedras.

— Não adianta gritar — avisou Mark como se tivesse lido meus pensamentos.

Então me pegou pelo braço e me conduziu até a mesa, e me deu um lenço de papel para limpar a boca.

— Você vai ficar bem — disse ele.

— Vou mesmo? — perguntei, mas ele desviou o olhar.

Por um bom tempo, só ficamos ali sentados, lado a lado, a mão dele ainda no meu antebraço, a pressão que exercia diminuindo gradualmente enquanto a respiração dele ia se acalmando.

Não ia adiantar muito eu brigar agora. Ainda não. Eu estava com medo, minhas pernas tremiam como loucas debaixo da mesa e eu não conseguia fazê-las parar. Mas, na verdade, eu tinha a sensação de que aquilo era bom, de que era útil. Eu me sentia forte, da mesma forma que tinha me sentido quando ele me encontrou na casa dele e nós lutamos. Tá, tudo bem, ele ganhou, mas só porque eu não fui direto na jugular, só porque eu ainda não sabia com o que estava lidando. Aquilo foi só o primeiro round. Se ele achou que tinha me derrotado, estava redondamente enganado.

Se soubesse o que eu vinha sentindo, o que eu vinha passando, não acho que estaria segurando meu braço. Acho que estaria correndo para bem longe, para se salvar.

Mordi o lábio com força. Senti o gosto de sangue fresco na língua e gostei, foi bom. Gostei do sabor metálico, gostei da sensação do sangue na boca, alguma coisa para poder cuspir nele. Quando chegasse a hora certa. Eu tinha tantas perguntas a fazer, mas não sabia por onde começar, então só disse:

— Por que você ficou com ela? — Tive de fazer um esforço enorme para manter a voz firme, para não deixar que ela falhasse, tremesse ou vacilasse, para não demonstrar meu medo. Ele não disse nada, então voltei a perguntar: — Por que você guardou a pulseira dela? Por que simplesmente não a jogou fora? Por que não deixou com ela? Por que a pegou?

Ele soltou meu braço, sem me encarar, apenas ficou olhando fixamente para o mar.

— Eu não sei — respondeu ele, a voz cansada. — Sinceramente, não tenho a menor ideia de por que a peguei. Como garantia, acho. Uma última tentativa desesperada. Para ter algum tipo de trunfo sobre outra pessoa... — Ele parou de falar de repente e fechou os olhos.

Eu não entendi direito o que ele estava dizendo, mas tive uma sensação, como se eu tivesse criado uma oportunidade. Eu me afastei ligeiramente dele. Depois, um pouquinho mais. Ele abriu os olhos outra vez, mas não fez nada, só ficou olhando para a água, o rosto sem expressão. Parecia exausto. Derrotado. Como se não tivesse lhe restado mais nada. Cheguei para trás no banco. Eu poderia sair correndo. Sou muito rápida quando preciso ser. Olhei para trás, para a trilha que passava pelos fundos da casa. Eu teria uma boa chance de escapar dele se atravessasse a trilha direto, pulasse o muro de pedra e cruzasse os campos. Se fizesse isso, ele não ia poder me seguir de carro, e eu teria uma chance.

Não foi o que eu fiz. Apesar de saber que aquela seria talvez a última chance que eu teria, fiquei onde estava. Se o fim estivesse próximo, pensei, seria melhor morrer sabendo o que aconteceu com minha mãe do que viver eternamente na dúvida, sem nunca saber. Não achava que aguentaria isso.

Eu me levantei. Ele não se mexeu, só me observou enquanto eu dava a volta na mesa e me sentava na frente dele, forçando-o a olhar para mim.

— Sabe que eu cheguei a pensar que ela tinha me abandonado? A mamãe. Quando eles a encontraram, vieram e me contaram, eu achei que tinha sido uma escolha. Achei que ela tinha escolhido morrer porque se sentia culpada pelo que tinha acontecido com a Katie ou porque sentia vergonha disso, ou... sei lá. Só porque a água exercia uma atração maior sobre ela do que eu.

Ele não disse nada.

— Eu acreditei nisso! — berrei o mais alto que pude e ele deu um pulo. — Eu acreditei que ela tinha me abandonado! Você tem ideia de como me senti? E agora, pelo visto, não foi o que ela fez. Ela não escolheu nada. Você a tirou de mim, da mesma forma que tirou a Katie de mim.

Ele sorriu. Lembrei de como o achávamos bonitão e aquilo revirou meu estômago.

— Eu não tirei a Katie de você — disse ele. — Katie não era sua, Lena. Ela era minha.

Eu quis gritar com ele, arranhar seu rosto. Ela não era sua! Não era! Não era! Afundei as unhas nas palmas das mãos com o máximo de força que consegui, mordi o lábio, senti outra vez o gosto de sangue e fiquei ouvindo enquanto ele se justificava.

— Eu nunca pensei em mim mesmo como o tipo de cara que se apaixonaria por uma menina mais nova. Nunca. Achava homens desse tipo ridículos. Uns velhos fracassados que não conseguiam arranjar mulher da própria idade.

Eu ri.

— Isso mesmo — concordei. — Achou certo.

— Não, não. — Ele balançou a cabeça. — Isso não é verdade. Não é. Olhe para mim. Eu nunca tive dificuldade nenhuma para arranjar mulheres. Elas dão em cima de mim o tempo todo. Você fica aí fazendo que não com a cabeça, mas já viu. Nossa, até você já deu em cima de mim.

— Eu não dei em cima de você porra nenhuma.

— Lena...

— Acha mesmo que eu queria alguma coisa com você? Você está viajando. Era um jogo, era... — Parei de falar.

Como explicar uma coisa dessas para um homem como ele? Como explicar que não tinha nada a ver com ele? Que, pelo menos para mim, tinha a ver comigo e com a Katie e com as coisas que nós duas podíamos fazer juntas. As pessoas com as quais a gente fazia esses lances eram descartáveis. Não tinham a menor importância.

— Você tem ideia de como são as coisas quando se tem a minha aparência? — perguntei a ele. — Quer dizer, eu sei que você se acha lindo, ou sei lá o que, mas não tem a menor ideia do que é ser eu. Você sabe como é fácil, para mim, levar as pessoas a fazerem o que eu quero, a ficarem sem jeito? A única coisa que eu preciso fazer é olhar para elas de uma determinada maneira, ou chegar bem pertinho, ou enfiar o dedo na boca e chupar, e eu as vejo ficarem vermelhas, ou com tesão ou coisa assim. Era isso que eu estava fazendo com você, seu retardado. Estava te sacaneando. Eu não estava a fim de você.

Ele fez uma cara de deboche e deu uma risadinha de quem não está nada convencido.

— Claro, claro — disse ele. — Como você preferir, Lena. Você estava a fim de que, então? Quando ameaçou nos trair, quando saiu berrando tudo para sua mãe ouvir, você estava a fim de que, exatamente?

— Eu queria... eu queria...

Eu não podia dizer para ele o que eu queria, porque o que eu queria era que as coisas voltassem a ser como antes. Eu queria voltar à época em que Katie e eu estávamos sempre juntas, quando passávamos todas as horas de todos os dias juntas, quando nadávamos no rio e ninguém olhava para a gente e nossos corpos eram só nossos. Queria voltar à época antes de bolarmos aquele jogo, antes de nos darmos conta do que éramos capazes. Mas isso era só o que eu queria. Katie não queria isso. Katie gostava de ser olhada. Para ela, o jogo não era só um jogo, era mais. Já bem no comecinho, assim que eu descobri e nós estávamos discutindo, ela disse para mim: “Você não sabe como é, Lena. Dá para imaginar? Ter alguém te querendo tanto que arriscaria tudo por você, tipo tudo. O trabalho dele, o relacionamento dele, a liberdade dele. Você não tem ideia de como é sentir algo assim.”

Senti Henderson me observando, esperando eu falar. Eu queria encontrar uma maneira de dizer aquilo, de fazê-lo enxergar que o barato dela não era só ele e, sim, o poder que tinha sobre ele. Eu gostaria de ter dito isso a ele, de tirar aquela expressão da cara dele, aquela que dizia que ele a conhecia, e eu não, não a fundo. Mas não consegui encontrar as palavras certas naquele momento e, de qualquer maneira, aquela não era a história toda porque ninguém podia negar que ela realmente o amava.

Senti uma agonia nos olhos, uma ardência indicando que eu estava prestes a chorar outra vez, e olhei para o chão porque não queria que ele visse as lágrimas nos meus olhos. Nesse momento vi que, jogado no chão, entre meus pés, havia um prego. Era um desses bem compridos, de pelo menos dez centímetros. Desloquei o pé de leve, para cobrir a ponta, então pisei em cima para erguer a outra extremidade.

— Você só estava com ciúmes, Lena — disse Henderson. — Essa é que é a verdade, não é mesmo? Sempre esteve. Eu acho que você tinha ciúmes de nós dois, não tinha? De mim, porque ela me escolheu, e dela, porque eu a escolhi. Nenhum de nós quis você. Então você nos fez pagar. Você e a sua mãe, vocês...

Deixei ele falar, deixei ele vomitar aquelas viagens absurdas e nem me importei de ele estar completamente errado a respeito de tudo porque a única coisa na qual eu conseguia prestar atenção era a ponta daquele prego, que eu tinha conseguido tirar do chão com o pé. Deslizei a mão para baixo da mesa. Mark parou de falar.

— Você nunca devia ter tido nada com ela — falei. Eu estava olhando por trás dele, por cima do ombro, tentando distraí-lo. — Você sabe disso. Tem que saber.

— Ela me amava e eu a amava, loucamente.

— Você é adulto! — exclamei, mantendo os olhos no espaço atrás dele, e funcionou: por um segundo ele olhou por cima do ombro e eu deixei o braço descer um pouco mais entre as pernas, esticando bem os dedos. Com o metal frio nas mãos, endireitei as costas e me preparei. — Você acha mesmo que importa como você se sentia em relação a ela? Você era professor dela. Tem o dobro da idade dela, porra. Você é que tinha que ter feito o que era certo.

— Ela me amava — ele voltou a dizer, derrotado. Patético.

— Ela era nova demais para você — falei, segurando a haste do prego com força dentro da mão fechada. — Ela era boa demais para você.

Eu o ataquei, mas não fui rápida o suficiente. Na pressa de ficar em pé, prendi a mão debaixo da mesa só por um segundo. Mark saltou em cima de mim agarrando meu braço esquerdo, puxando-o com toda a força, me arrastando até o meio da mesa.

— O que você está fazendo? — Ele ficou de pé com um salto, ainda me segurando, e me puxou de lado, torcendo meu braço por trás do corpo. Dei um ganido de dor. — O que você está fazendo? — berrou ele, puxando meu braço mais para cima e abrindo meu punho. Ele tirou o prego da minha mão e me empurrou com força em cima da mesa, a mão nos meus cabelos, o corpo por cima do meu. Senti a ponta de metal arranhar minha garganta, o peso dele em cima de mim, exatamente como ela deve ter se sentido quando eles estavam juntos. O vômito subiu na minha garganta, eu o cuspi, e disse:

— Ela era boa demais para você! Ela era boa demais para você!

Fiquei repetindo isso sem parar até ele tirar todo o ar que havia dentro de mim.