Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 79 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

 

ESTACIONEI AO LADO da trilha que leva à propriedade dos Townsends. Não era preciso, havia espaço suficiente para estacionar no pátio deles, mas achei que era o certo a fazer. Eu tinha a sensação de que aquela deveria ser uma missão clandestina, como se eu devesse surpreendê-los. A persona destemida, aquela que surgira no dia em que eu enfrentara o meu estuprador, estava de volta. Com a pulseira no bolso, caminhei com passos decididos rumo ao pátio ensolarado, as costas retas, resoluta. Eu viera em nome da minha irmã, para fazer um acerto de contas em nome dela. Estava decidida. Destemida.

Continuei sem medo até Patrick Townsend abrir a porta para mim, o rosto manchado de raiva, uma faca na mão.

— O que você quer? — perguntou ele.

Eu me afastei da porta dando dois passos para trás.

— Eu... — Ele estava prestes a bater com a porta na minha cara e eu estava assustada demais para dizer o que precisava. Ele deu fim na mulher dele, Nickie havia me dito. E na sua irmã, também. — Eu estava...

— Jules? — uma voz me chamou lá de dentro. — É você?

 

O que encontrei foi uma cena e tanto. Lá estava Helen, com sangue na mão e no rosto, além de Erin, tentando sem muito sucesso fingir que estava com a situação sob controle. Ela me cumprimentou com um sorriso alegre.

— O que a traz aqui? Era para nos encontrarmos na delegacia.

— É, eu sei. Eu...

— Fale logo — resmungou Patrick. Minha pele formigava de calor, a respiração ficando difícil. — Vocês, Abbotts! Meu Deus, que família! — exclamou ele bem alto e golpeou a mesa com a faca. — Eu me lembro de você, sabia? Obesa, não era, quando mais nova? — Ele se virou para Helen. — Era uma coisinha gorda e asquerosa, ela. E os pais! Patéticos. — Minhas mãos tremiam quando ele se virou para me olhar outra vez. — Suponho que a mãe tivesse uma desculpa, porque estava morrendo, mas alguém tinha de ter controlado essas duas. Vocês viviam soltas, não era mesmo, você e sua irmã? E vejam só que ótimo resultado! Ela era mentalmente desequilibrada, e você... bem. Você é o quê? Burrinha?

— Já chega, Sr. Townsend — disse Erin. Ela me tomou pelo braço. — Vamos embora, vamos para a delegacia. Precisamos pegar o depoimento da Lena.

— Ah, sim, a menina. Essa vai pelo mesmo caminho da mãe, tem a mesma expressão imunda, a mesma boca suja, o tipo de rosto que dá vontade de dar um tapa...

— O senhor passa muito tempo pensando em fazer determinadas coisas com a minha sobrinha adolescente? — falei, bem alto. — Acha isso apropriado? — Minha ira foi de novo despertada e Patrick não estava preparado para aquilo. — Então? Passa? Velho nojento. — Eu me virei para Erin. — Na verdade, eu ainda não estou pronta para ir embora — avisei. — Mas que bom que você está aqui, Erin, acho bom, porque o motivo de eu ter vindo não foi para falar com ele — fiz um gesto brusco com a cabeça em direção a Patrick —, mas com ela. Com você, Sra. Townsend. — Com a mão trêmula, tirei o saquinho de plástico do bolso e o coloquei sobre a mesa, ao lado da faca. — Eu gostaria de lhe perguntar quando foi que tirou esta pulseira do braço da minha irmã?

Os olhos de Helen se arregalaram e eu soube que ela era culpada.

— De onde saiu essa pulseira, Jules? — perguntou Erin.

— Estava com Lena. Que a tirou de Mark Henderson. Que a tirou de Helen. Que, pela cara de culpa, deve ter tirado da minha irmã antes de matá-la.

Patrick começou a rir, uma risada latida — alta e falsa.

— Ela tirou de Lena, que tirou de Mark, que tirou de Helen, que tirou da fadinha que enfeitava a porra da árvore de Natal! Perdão, querida — ele se desculpou com Helen —, perdão pelo meu palavreado, mas é muita bobagem junta.

— Estava na sua sala, não estava, Helen? — Olhei para Erin. — Vai ter digitais, DNA, não vai?

Patrick deu outra risadinha, mas Helen parecia abalada.

— Não, eu... — disse ela, enfim, os olhos passando de mim para Erin e para o sogro. — Estava... Não. — Ela respirou fundo. — Eu a encontrei — afirmou. — Mas eu não sabia... Não sabia que era dela. Eu só... Só fiquei com a pulseira. Ia entregar para o achados e perdidos.

— Onde a encontrou, Helen? — perguntou Erin. — Na escola?

Helen olhou para Patrick, então outra vez para a detetive, como se tentasse decidir se a mentira iria colar.

— Acho que eu... Sim, foi isso. E, é... eu não sabia de quem era, então...

— Minha irmã usava essa pulseira direto — afirmei. — Tem as iniciais da minha mãe gravadas. Estou achando difícil acreditar que você não se deu conta do que se tratava, de que era importante.

— Eu não me dei conta, mesmo — disse Helen, embora a voz tenha saído fraca e o rosto estivesse ficando cada vez mais vermelho.

— É claro que ela não sabia! — gritou Patrick, de repente. — É claro que ela não sabia de quem era e de onde tinha saído. — Colocou-se ao lado da nora imediatamente, pousando uma das mãos em seu ombro. — Helen estava com a pulseira porque eu a deixei no carro dela. Descuido meu. Eu ia jogá-la fora, era a minha intenção, mas... Eu tenho andado meio esquecido. Eu ando esquecido, não ando, querida? — Helen não disse nada, nem se mexia. — Eu a deixei no carro — repetiu ele.

— Muito bem — começou Erin —, e de onde foi que você a tirou?

Ele olhou direto para mim quando respondeu:

— De onde acha que eu a tirei, sua imbecil? Eu a arranquei do pulso daquela piranha antes de jogá-la lá de cima.