Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 34 de 91

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Em Águas Sombrias

Sean

 

FUI DESPERTADO PELO grito de uma mulher, um som desesperado e distante. Achei que devia ter sonhado, mas aí acordei sobressaltado com um estrondo, um ruído alto, próximo, intrusivo e real. Tinha alguém batendo na porta da casa.

Eu me vesti às pressas e corri lá para baixo, olhando o relógio da cozinha ao passar. Era pouco mais de meia-noite — eu devia estar dormindo há menos de meia hora. As batidas na porta persistiram e ouvi uma mulher chamando o meu nome, uma voz conhecida, mas que por um instante não consegui identificar. Abri a porta.

— Está vendo isto? — berrava Louise Whittaker para mim, o rosto vermelho e furiosa. — Eu te disse, Sean! Falei que tinha alguma coisa acontecendo! — O isto ao qual ela se referia era um frasco de plástico laranja, do tipo que contém remédios só vendidos com receita médica, e na lateral havia uma etiqueta com um nome. Danielle Abbott. — Eu te disse! — repetiu ela, então caiu em prantos. Eu a conduzi rapidamente para dentro da casa, só que tarde demais. Antes que eu fechasse a porta da cozinha vi uma luz se acender no quarto de cima da casa do meu pai.

Demorei um bom tempo para compreender o que Louise tentava me dizer. Estava histérica, suas frases iam emendando umas nas outras e não faziam o menor sentido. Tive de ir arrancando as informações dela, pouco a pouco, uma frase engasgada, arfante e furiosa de cada vez. Eles haviam decidido, enfim, colocar a casa à venda. Antes que as visitas dos interessados pudessem começar, ela precisava esvaziar o quarto de Katie. Não queria estranhos invadindo o lugar, tocando as coisas dela. Tinha começado o processo naquela tarde. Enquanto guardava as roupas da filha, tinha encontrado o frasco laranja. Aconteceu quando tirava um casaco de um cabide, o verde, um dos preferidos de Katie. Ouviu algo chacoalhar. Enfiou a mão no bolso e descobriu o frasco de comprimidos. Ela ficou surpresa, ainda mais quando viu que o nome no frasco era o de Nel. Nunca tinha ouvido falar da droga — Rimato — , mas deu uma busca na internet e descobriu que era um tipo de remédio para emagrecer. Os comprimidos não estão liberados para consumo no Reino Unido. Estudos realizados nos Estados Unidos associaram seu uso a depressão e pensamentos suicidas.

— Você deixou isso passar! — gritou ela. — Disse que não tinha nada no sangue dela. Disse que Nel Abbott não tinha nada a ver com isso. Pois tome aqui — deu um murro na mesa, fazendo o frasco saltar no ar —, veja! Ela estava fornecendo remédios para a minha filha, remédios perigosos. E você deixou que ela se safasse disso.

Foi estranho, mas o tempo todo que ela dizia aquilo, que me atacava, eu me senti aliviado. Porque agora havia um motivo. Se Nel havia fornecido remédios a Katie, então podíamos apontar para isso e dizer: “Então foi por isso que aconteceu. Foi por isso que uma menina brilhante e feliz perdeu a vida. Foi por isso que duas mulheres perderam a vida.”

Era um alívio, mas também uma mentira. Eu sabia que era mentira.

— Os exames de sangue dela deram negativo, Louise — falei. — Não sei quanto tempo esse... esse Rimato? Não sei quanto tempo permanece no organismo. Não temos nem ideia se isto realmente é Rimato, mas... — Eu fiquei de pé, tirei um saco plástico para sanduíche da gaveta da cozinha e o estendi para Louise. Ela pegou o frasco de cima da mesa e o jogou dentro do saco. Eu o lacrei. — Podemos descobrir.

— E então, nós saberemos — concluiu ela, mais uma vez exaltada.

A verdade é que nós não saberíamos. Mesmo que houvesse vestígios do medicamento em seu organismo, mesmo que tivéssemos deixado passar alguma coisa, o exame não nos apresentaria nada de definitivo.

— Sei que é tarde demais — disse Louise —, mas quero que todos saibam disso. Quero que todo mundo saiba o que Nel Abbott fez. Meu Deus, ela podia estar distribuindo comprimidos para outras meninas... Você precisa conversar com a sua mulher sobre isso; como diretora, ela precisa saber que alguém andou vendendo essa merda dentro da escola. Vocês precisam revistar os armários, precisam...

— Louise... — eu me sentei ao seu lado —, calma. É claro que nós vamos levar isso a sério, vamos, sim, mas nós não temos como saber de que forma esse frasco foi parar nas mãos de Katie. É possível que Nel Abbott tenha comprado os comprimidos para uso próprio...

— E daí? O que você está dizendo? Que Katie os roubou? Como você ousa sugerir uma coisa dessas, Sean! Você a conhecia...

A porta dos fundos da cozinha chacoalhou — ela costuma prender, especialmente depois que chove — e foi escancarada. Era Helen, com uma aparência desgrenhada, usando calças de moletom e uma camisa de malha, os cabelos despenteados.

— O que está acontecendo? Louise, o que aconteceu?

Louise sacudiu a cabeça, mas não disse nada. Cobriu o rosto com as mãos.

Eu fiquei de pé e disse a Helen, baixinho:

— Você devia voltar para a cama. Não há nada com que se preocupar.

— Mas...

— Eu só preciso conversar com Louise um pouco. Está tudo bem. Vá lá para cima.

— Está bem — concordou ela, cautelosamente, olhando para a mulher que chorava baixinho à mesa da nossa cozinha. — Se você tem certeza...

— Tenho, sim.

Helen deixou a cozinha discretamente e subiu a escada. Louise enxugou as lágrimas. Estava me olhando de maneira estranha, imagino que se perguntando de onde Helen tinha vindo. Eu podia ter explicado: ela tem dificuldade para dormir, meu pai também é insone, então às vezes eles ficam acordados juntos fazendo palavras cruzadas, ouvindo rádio. Eu podia ter explicado, mas me deu um cansaço só de pensar, então falei:

— Eu não acho que Katie tenha roubado nada, Louise. É claro que não. Mas quem sabe ela... sei lá, pegou o frasco sem pensar no que estava fazendo. Talvez tenha ficado curiosa. Você disse que ele estava no bolso de um casaco? Talvez ela o tenha pegado e até esquecido.

— Minha filha não tirava coisas da casa dos outros — replicou Louise, azeda, e eu assenti. Não havia por que discutir.

— Eu vou investigar isso amanhã cedo. Vou mandar esses comprimidos para o laboratório e vamos analisar os exames de sangue de Katie de novo. Se eu tiver deixado passar qualquer coisa, Louise...

Ela balançou a cabeça.

— Eu sei que não muda nada. Sei que isso não vai trazê-la de volta — disse ela, baixinho. — Mas me ajudaria. A compreender.

— Eu entendo. É claro que sim. Gostaria que eu a levasse até em casa? — perguntei. — Posso levar seu carro para você de manhã.

Ela fez que não com a cabeça e abriu um sorriso vacilante.

— Eu estou bem — disse ela. — Obrigada.

 

O eco do agradecimento de Louise — injustificado, desmerecido — retumbou no silêncio depois que ela se foi. Eu me senti péssimo, e fiquei agradecido pelos passos de Helen na escada, grato por não ter de ficar sozinho.

— O que está acontecendo? — perguntou ela ao entrar na cozinha. Estava pálida e parecia muito cansada, com olheiras que se assemelhavam a hematomas. Sentou-se à mesa e estendeu a mão para a minha. — O que Louise estava fazendo aqui?

— Ela encontrou uma coisa — respondi. — Uma coisa que ela acha que possa ter alguma ligação com o que aconteceu com Katie.

— Ah, meu Deus, Sean. O quê?

Enchi as bochechas de ar.

— Eu não devia... talvez não deva discutir isso em detalhe por enquanto. — Ela assentiu e apertou minha mão. — Me diga uma coisa, quando foi a última vez que você confiscou drogas na escola?

Ela franziu o cenho.

— Bem, aquele monstro do Watson, o Iain, foi pego com maconha no fim do semestre, mas, antes disso... bem, já faz um tempo. Um bom tempo. Em março, acho, tivemos aquele problema com Liam Markham.

— Foram comprimidos, não foram?

— Isso, ecstasy, ou algo que parecia ser ecstasy, de qualquer forma, além de Rohypnol. Ele acabou sendo expulso.

Eu me lembrava vagamente do incidente, embora não seja o tipo de coisa no qual me envolva.

— Não teve mais nada desde então? Nenhum problema com comprimidos para emagrecer?

Ela arqueou uma das sobrancelhas.

— Não. Nada de ilegal, pelo menos. Algumas meninas tomam aqueles comprimidinhos azuis... como é mesmo o nome? Alli, eu acho. Estão à venda sem receita médica, embora eu não ache que devessem ser vendidos para menores de idade. — Ela franziu o nariz. — Deixa as meninas muito flatulentas, mas parece que é um preço aceitável a ser pago por um vão entre as coxas.

— A ser pago pelo quê?

Helen revirou os olhos.

— Um vão entre as coxas! Todas elas querem ter coxas tão finas que não se encostem no alto. Sério, Sean, às vezes acho que você vive em outro planeta. — Ela voltou a apertar a minha mão. — E às vezes tenho vontade de morar aí com você.

Subimos juntos para a cama pela primeira vez em muito tempo, mas eu não podia tocá-la. Não depois do que eu havia feito.