Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 35 de 91

Páginas do PDF

Em Águas Sombrias

Quarta-feira, 19 de agosto | Erin

QUARTA-FEIRA, 19 DE AGOSTO

 

Erin

 

FORAM NECESSÁRIOS MAIS ou menos cinco minutos para que o Cabeludo, o perito criminal, encontrasse o recibo eletrônico da compra do remédio para emagrecer na caixa de spam de Nel Abbott. Até onde ele podia dizer, ela só havia comprado o remédio em uma única ocasião, a não ser, claro, que tivesse outra conta de e-mail antiga, sem uso recente.

— Estranho, né? — comentou um dos guardas, um dos mais velhos, cujo nome eu não me dei ao trabalho de fixar. — Ela era uma mulher tão magra. Não me passaria pela cabeça achar que precisaria disso. A irmã, ela sim é que era a gorda.

— Jules? — perguntei. — Ela não é gorda.

— Ah, é, hoje em dia, não, mas você devia ter visto antigamente. — Ele começou a rir. — Ela parecia uma vaca.

Que amor de pessoa.

Desde que Sean me contou dos comprimidos, venho pesquisando tudo que posso a respeito de Katie Whittaker. Fora tudo bem evidente, embora o porquê da questão ainda pairasse no ar — como costuma ser o caso. Os pais não suspeitaram que algo estivesse acontecendo. Os professores comentaram que talvez ela até andasse um pouco distraída, talvez um pouco mais reservada que de costume, mas não houve sinal de alerta. O exame não revelou nada em seu sangue. Não havia nenhuma lesão autoinfligida em seu histórico.

A única coisa — pouco significativa — era uma suposta briga com a melhor amiga, Lena Abbott. Algumas das colegas de Katie da escola afirmaram que Lena e Katie tinham se desentendido sobre alguma coisa. Louise, a mãe de Katie, disse que elas estavam se vendo com menos frequência, mas que não achava que tivessem brigado. Se tivessem, disse ela, Katie teria mencionado. Elas já haviam brigado antes — adolescentes fazem isso — e Katie sempre fora franca com a mãe nesse quesito. E, no fim, as duas sempre faziam as pazes. Depois de uma dessas brigas, Lena se sentiu mal a ponto de dar um colar de presente para Katie.

As tais colegas da escola, no entanto — Tanya Não Sei Quê e Ellie Não Sei Que Lá —, contaram que tinha alguma coisa importante acontecendo, embora não soubessem dizer o quê. Só sabiam que um mês, mais ou menos, antes de Katie morrer, Lena e ela tiveram o que chamaram de “uma briga feia” que acabou com as duas sendo fisicamente separadas por um professor. Lena negava isso veementemente, afirmando que Tanya e Ellie queriam ver a caveira dela, que estavam só tentando metê-la em encrenca. Louise certamente nunca ouvira falar dessa briga, e o professor envolvido — Mark Henderson — afirmava que, na verdade, não havia sido briga nenhuma. As duas tinham fingido que estavam brigando, segundo ele. Fora uma brincadeira. A coisa ficou barulhenta e ele pediu a elas que baixassem o volume. Só isso.

Passei rápido por essa parte enquanto lia a ficha de Katie, mas ficava voltando ao mesmo ponto. Alguma coisa ali não parecia se encaixar. Garotas adolescentes fingem que estão brigando? Isso me parece mais uma coisa que garotos adolescentes estariam propensos a fazer. Mas vai ver que eu internalizei mais sexismo do que gosto de admitir. É só que eu olhava as fotos dessas meninas — belas, confiantes, especialmente Katie, que era toda arrumadinha — e elas não me pareciam o tipo que fingia brigar.

Quando estacionei o carro em frente à Casa do Moinho, ouvi um barulho e olhei para o alto. Lena estava com o corpo debruçado para fora de uma das janelas do andar de cima com um cigarro na mão.

— Oi, Lena — gritei. Ela não disse nada, mas, num movimento calculado, mirou e atirou a guimba de cigarro na minha direção. Então entrou e fechou a janela com um estrondo. Não engulo essa história de briga de mentirinha de jeito nenhum: imagino que, quando Lena Abbott briga, briga para valer.

Jules abriu a porta para mim, olhando nervosamente por cima do meu ombro.

— Está tudo bem? — perguntei a ela. Estava com uma aparência horrível: abatida, pálida, os olhos cansados, os cabelos sujos.

— Eu não consigo dormir — disse ela, baixinho. — Simplesmente não consigo pegar no sono.

Atravessou a cozinha quase sem levantar os pés, ligou a chaleira elétrica e se atirou na cadeira. Aquilo me fez lembrar da minha irmã, três semanas depois de dar à luz gêmeos — mal tinha força para manter a cabeça erguida.

— Talvez você devesse pedir a um médico para lhe receitar alguma coisa — sugeri, mas ela fez que não com a cabeça.

— Não quero apagar — respondeu ela, arregalando os olhos, o que a deixou com cara de louca. — Preciso ficar alerta.

Eu poderia ter comentado que já tinha visto pacientes em coma mais alertas do que ela, mas não comentei.

— Esse tal de Robbie Cannon sobre o qual você andou perguntando — comecei. Ela estremeceu e roeu uma unha. — Demos uma verificada nele. Você tem razão sobre ele ser violento: tem duas condenações por violência doméstica, entre outras coisas. Mas não teve envolvimento na morte da sua irmã. Fui até Gateshead, onde ele mora, e tivemos uma conversinha. Ele estava em Manchester visitando o filho na noite em que Nel morreu. Disse que não a via havia anos, mas que, quando leu sobre a morte dela no jornal local, decidiu vir aqui prestar uma última homenagem. Pareceu bastante confuso por estarmos lhe fazendo perguntas.

— Ele... — Sua voz soava pouco mais que um sussurro. — Ele falou de mim? Ou de Lena?

— Não. Não falou. Por que a pergunta? Ele esteve aqui? — Lembrei da forma hesitante com que ela havia aberto a porta da casa, como olhara por cima do meu ombro como se tentasse identificar a presença de outra pessoa.

— Não. Quer dizer, acho que não. Não sei.

Não consegui tirar mais nada dela sobre o assunto. Ficou claro que tinha medo dele por algum motivo, mas não queria dizer por quê. Não fiquei satisfeita, mas deixei a coisa por aí, visto que tinha outro assunto desagradável para tratar.

— Isso é um pouco difícil — comecei —, mas sinto dizer que vamos precisar revistar a casa outra vez.

Ela me encarou horrorizada.

— Por quê? Vocês descobriram alguma coisa? O que foi que aconteceu?

Expliquei sobre os comprimidos.

— Ai, meu Deus. — Ela fechou os olhos e deixou a cabeça pender. Talvez fosse o cansaço embotando sua reação, mas ela não me pareceu surpresa.

— Ela os comprou em novembro do ano passado, no dia dezoito, de um site americano. Não conseguimos encontrar registros de quaisquer outras compras, mas precisamos ter certeza...

— Tá — disse ela. — Claro. — Esfregou os olhos com as pontas dos dedos.

— Dois guardas vão vir esta tarde, ok?

Ela deu de ombros.

— Bem, se é o que tem de fazer, mas eu... em que data você disse que ela comprou o remédio?

— Dezoito de novembro — respondi, lendo minhas anotações. — Por quê?

— É só que... é a data do aniversário. Da morte da nossa mãe. Só me parece... ah, sei lá. — Ela franziu a testa. — Me parece estranho porque Nel costumava me ligar no dia dezoito e o ano passado foi diferente porque ela não ligou. No fim das contas, tinha sido internada para uma apendectomia de emergência. Acho que só estou surpresa que ela tenha perdido tempo comprando remédio para emagrecer quando estava no hospital para uma cirurgia de emergência. Tem certeza que foi no dia dezoito?

 

De volta à delegacia, verifiquei com o Cabeludo. Eu estava certa com relação à data.

— Ela pode ter comprado pelo celular — sugeriu Callie. — É um tédio ficar internada.

Mas o Cabeludo balançou a cabeça.

— Não, eu verifiquei o endereço de IP. Quem quer que tenha feito a compra o fez às 4:17 da tarde e de um computador que usava o roteador da Casa do Moinho. Então tem que ter sido alguém que estava dentro ou próximo da casa. Sabe a que horas ela foi internada?

Não sabia, mas não era difícil descobrir. Nel Abbott foi internada bem cedo no dia dezoito de novembro para uma apendectomia de emergência, exatamente como relatou a irmã. Permaneceu o dia todo no hospital, onde também pernoitou.

Nel não poderia ter comprado os comprimidos. Haviam sido comprados por outra pessoa, usando o cartão dela, na casa dela.

— Lena — falei para Sean. — Deve ter sido Lena.

Ele fez que sim, com uma expressão severa no rosto.

— Vamos precisar conversar com ela.

— Quer fazer isso agora? — perguntei, e ele voltou a assentir.

— Não há momento melhor que o presente — disse ele. — Não há momento melhor que logo depois que a menina perdeu a mãe. Cara, que caos.

 

E a situação estava prestes a ficar ainda mais caótica. Estávamos saindo do trabalho quando fomos detidos por uma Callie para lá de agitada.

— As digitais! — disse ela, sem fôlego. — Encontraram uma correspondência. Bem, não exatamente uma correspondência porque não correspondem às de ninguém que tenha se apresentado até agora, só que...

— Só que o quê? — interrompeu o detetive-inspetor.

— Algum gênio resolveu dar uma olhada nas digitais que estavam no frasco de comprimidos e compará-las com as digitais da filmadora... sabe, a que foi danificada?

— Sei, a gente se lembra da filmadora danificada — respondeu Sean.

— Certo, bem, são iguais. E antes que você diga mais alguma coisa, não, não são de Nel Abbott e também não são de Katie Whittaker. Alguma outra pessoa manuseou os dois objetos.

— Louise — concluiu Sean. — Só pode ser. Louise Whittaker.