Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 76 de 91

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Em Águas Sombrias

Helen

 

HELEN NÃO TINHA ideia de por que Erin Morgan perambulava pela casa de Patrick como se fosse sua, mas, por enquanto, estava mais preocupada com o sangue no chão. Patrick gostava da casa limpa. Foi buscar um pano na cozinha e começou a limpar, o que só fez com que mais sangue jorrasse do talho profundo em sua mão.

— Eu estava cortando cebola — disse ela à detetive, numa de se explicar. — Você me assustou.

Aquilo não era exatamente verdade, pois ela havia parado de picar cebola quando vira o carro se aproximar. Com a faca na mão, ficara completamente imóvel enquanto Erin batia à porta, então a observara se dirigir à casa de Patrick. Sabia que ele tinha saído, então imaginou que a detetive simplesmente fosse embora. Aí se lembrou de que, ao sair de manhã, não havia trancado a porta da frente. Assim, ainda segurando a faca, atravessara o pátio para verificar.

— Foi bem profundo — observou Erin. — Precisa limpar isso e fazer um curativo bem-feito.

Erin havia descido a escada e estava em pé ao lado de Helen, olhando-a limpar o chão. Ao seu lado, na casa de Patrick, como se tivesse todo o direito de estar ali.

— Ele vai ficar lívido se vir isto — disse Helen. — Ele gosta da casa limpa. Sempre gostou.

— E você... cuida da casa para ele?

Helen olhou para Erin com severidade.

— Eu ajudo. Ele faz a maioria das coisas, mas está idoso. E gosta de tudo de um determinado jeito. A falecida esposa dele — continuou ela, erguendo os olhos para Erin — era uma libertina. A palavra é dele. Uma palavra antiga. Não se pode mais dizer vadia, não é mesmo? É politicamente incorreto.

Ela se levantou e encarou Erin, segurando o pano ensanguentado à frente do corpo. A dor que sentia na mão era quente e intensa, quase como uma queimadura, com o mesmo efeito cauterizante. Já não sabia ao certo de quem devia ter medo ou pelo que, exatamente, sentir-se culpada, mas sentia que precisava manter Erin ali, descobrir o que ela queria. Segurá-la por mais um tempo, com alguma sorte até a chegada de Patrick, porque estava certa de que ele ia querer conversar com ela.

Helen limpou o cabo da faca com o pano.

— Aceita uma xícara de chá, detetive? — perguntou ela.

— Adoraria — respondeu Erin, seu sorriso alegre sumindo enquanto olhava Helen trancar a porta da frente e enfiar a chave no bolso antes de seguir até a cozinha.

— Sra. Townsend... — começou Erin.

— Toma o seu com açúcar? — interrompeu Helen.

 

O jeito de lidar com situações como aquela era confundindo a outra pessoa. Helen sabia disso dos anos de politicagem no serviço público. Faça o contrário do que as pessoas esperam de você, assim você as coloca na defensiva e, no mínimo, ganha tempo. Portanto, em vez de ficar zangada, indignada por aquela mulher ter entrado na casa deles sem autorização, Helen foi educada.

— Vocês o encontraram? — perguntou a Erin ao lhe entregar a xícara de chá. — Mark Henderson? Ele já apareceu?

— Não — respondeu Erin. — Ainda não.

— O carro deixado no penhasco e nem sinal dele em lugar algum. — Ela suspirou. — Um suicídio pode ser considerado admissão de culpa, não? Certamente é o que vai parecer. Que caos. — Erin fez que sim. Estava nervosa, Helen percebeu, ficava olhando para a porta, remexendo o bolso. — Vai ser péssimo para a escola, para a nossa reputação. A reputação deste lugar como um todo, mais uma vez maculada...

— É por isso que você não gostava de Nel Abbott? — perguntou Erin. — Porque ela estava maculando a reputação de Beckford com o trabalho dela?

Helen franziu a testa.

— Bem, é um dos motivos. Ela era uma péssima mãe, como eu já lhe disse, era desrespeitosa comigo e com as tradições e regras da escola.

— Ela era uma vadia? — perguntou Erin.

Helen riu, surpresa.

— Como é?

— Eu só estava me perguntando se, para usar seu termo politicamente incorreto, você achava que Nel Abbott era uma vadia? Ouvi dizer que teve casos com alguns dos homens da cidade...

— Não sei nada sobre isso — disse Helen, mas seu rosto ficou quente e sentiu que havia perdido a posição de vantagem.

Levantou-se, foi até a bancada e pegou a faca outra vez. De pé na pia, lavou o sangue da lâmina.

— Não sei nada sobre a vida privada de Nel Abbott — declarou, baixinho. Sentia os olhos da detetive cravados nela, observando seu rosto, suas mãos. Sentiu o rubor ir descendo pelo pescoço, pelo peito, o corpo a traí-la. Tentou manter a voz suave. — Mas eu não ficaria nada surpresa se ela fosse promíscua. Nel gostava de atenção.

Ela queria que aquela conversa acabasse logo. Queria que a detetive deixasse a casa deles, queria que Sean estivesse lá, e Patrick. Sentia um imenso desejo de colocar todas as cartas na mesa, de confessar os próprios pecados e exigir que eles confessassem os deles. Erros haviam sido cometidos, verdade, mas os Townsends eram uma boa família. Eram boas pessoas. Não tinham nada a temer. Ela se virou para encarar a detetive, com o queixo erguido e a expressão mais altiva que conseguiu exibir, mas as mãos tremiam tanto que ela achou que talvez fosse deixar a faca cair. Será que não tinha mesmo nada a temer?