Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 50 de 91

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Em Águas Sombrias

Nickie

 

JEANNIE DISSE QUE já estava na hora de alguém fazer alguma coisa a respeito disso tudo.

— Fácil para você falar — retorquiu Nickie. — E ainda mudou seu discurso, né? Antes queria que eu ficasse de boca fechada, para a minha própria segurança. Agora está me pedindo para mandar a cautela às favas? — Jeannie não fez nenhum comentário. — Bem, de qualquer forma, eu tentei. Você sabe que tentei. Tenho apontado na direção certa. Deixei um recado para a irmã, não deixei? A culpa não é minha se ninguém me escuta. Ah, eu sou muito sutil, é? Muito sutil! Você quer que eu abra o bico? Veja só onde você foi parar por falar demais! — Elas vinham discutindo sobre o assunto a noite toda. — A culpa não é minha! Você não pode dizer que é. Nunca foi minha intenção meter Nel Abbott em encrenca nenhuma. Eu contei a ela o que eu sabia, só isso. Como você vinha me pedindo para fazer. Não tenho como agradar você, simplesmente não tenho. Nem sei por que ainda me dou ao trabalho.

Jeannie a estava irritando. Ela não calava a boca. E o pior de tudo, bem, não era o pior de tudo, o pior de tudo era não conseguir dormir nem um pouquinho, mas a segunda coisa pior era que, provavelmente, ela estava com a razão. Nickie soubera disso o tempo todo, desde aquela primeira manhã, sentada à sua janela, quando sentiu. Mais uma. Mais uma nadadora. Pensara naquilo então; pensara até em falar com Sean Townsend. Mas havia feito bem em segurar a língua: viu como ele reagiu quando ela mencionou a mãe dele, aquela expressão de raiva, a máscara de gentileza caindo. Era mesmo filho do pai dele.

— Então quem? Quem, minha velha? Com quem eu devo conversar? Com a policial, não. Nem sugira isso. São todos iguais! Ela vai direto falar com o chefe, não vai? — A policial não, então quem? A irmã de Nel? Nada na irmã de Nel inspirava confiança em Nickie. A menina, no entanto, era diferente. Ela é só uma criança, disse Jeannie, mas Nickie devolveu: — E daí? Ela tem mais energia no dedo mindinho do que metade do povo desta cidade.

Sim, conversaria com a menina. Só não sabia direito ainda o que ia dizer.

Nickie ainda guardava as páginas de Nel. Aquelas nas quais as duas haviam trabalhado juntas. Podia mostrar isso à menina. Estavam datilografadas, não manuscritas, mas Lena certamente reconheceria as palavras da mãe, seu tom? É claro que não tinham detalhado as coisas da maneira como Nickie achava que deviam. Foi parte do motivo pelo qual haviam se desentendido. Incompatibilidade artística. Nel saíra bufando de raiva e dissera que se Nickie não conseguia contar a verdade então estavam perdendo tempo, mas, sério, o que ela lá sabia sobre a verdade? Estavam só contando histórias.

Você ainda está aí?, perguntou Jeannie. Achei que ia falar com a menina .

Nickie respondeu:

— Está bem. Fique fria. Eu vou. Mais tarde. Vou quando estiver pronta.

De vez em quando desejava que Jeannie calasse a boca, e de vez em quando desejava, mais que tudo, que ela estivesse ali, na sala, sentada sob a janela em sua companhia, observando. Deviam ter envelhecido juntas, irritando-se mutuamente como é de esperar, em vez de baterem boca por radiofrequência como precisavam fazer agora.

Nickie queria que, ao imaginar Jeannie, não a visse como estava da última vez que viera ao apartamento. Fora alguns dias antes de Jeannie deixar Beckford para sempre, e ela estava branca de choque e trêmula de pavor. Viera contar a Nickie que Patrick Townsend fora vê-la. Que ele lhe dissera que se ela continuasse tagarelando daquele jeito, se continuasse fazendo perguntas, se continuasse tentando manchar sua reputação, ele providenciaria para que ela fosse machucada. “Não por mim”, dissera ele. “Eu não tocaria um dedo em você. Vou arranjar alguém para fazer o serviço sujo. E não vai ser só um sujeito, não. Vou me certificar de que sejam vários e que cada um tenha a sua vez. Você sabe que eu conheço um pessoal, não sabe, Jean? Não duvida que eu conheça gente que faria esse tipo de serviço, duvida, garota?”

Jeannie ficara bem ali naquela sala e fizera Nickie prometer, ela a fizera prometer que deixaria o assunto de lado.

— Não há nada que a gente possa fazer agora. Eu nunca devia ter contado nada a você.

— Mas... o menino — dissera Nickie. — E quanto ao menino?

Jeannie enxugara as lágrimas dos olhos.

— Eu sei. Eu sei. Fico doente só de pensar, mas simplesmente vamos ter que deixá-lo lá. Você precisa ficar calada, não pode dizer nada. Senão Patrick acaba comigo, Nicks, e acaba com você também. Ele não está de brincadeira.

Jeannie foi embora dois dias depois; e nunca mais voltou.