Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 15 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

 

SEMPRE TIVE UM pouco de medo de você. Você sabia disso, gostava do meu medo, gostava do poder que ele lhe dava sobre mim. Sendo assim, acho que, apesar das circunstâncias, você teria gostado desta tarde.

Eles me pediram para fazer a identificação do corpo — Lena se ofereceu, mas eles disseram a ela que não, então eu tive de aceitar. Não havia mais ninguém. E mesmo que eu não quisesse vê-la, sabia que tinha de fazê-lo porque vê-la seria melhor do que imaginá-la; os horrores produzidos pela mente são sempre tão piores que a vida real. E eu precisava ver você, porque nós duas sabemos que eu não acreditaria, que eu não seria capaz de acreditar que você havia partido, até vê-la.

Você estava deitada numa maca no meio de uma sala fria, um lençol verde-claro cobrindo seu corpo. Havia um rapaz de bata cirúrgica lá, que acenou com a cabeça para mim e para a detetive, e ela fez o mesmo. Quando ele estendeu a mão para puxar o lençol, prendi a respiração. Não me lembro de ter sentido tanto medo desde criança.

Fiquei esperando você pular em cima de mim.

Você não fez isso. Estava imóvel e linda. Havia sempre tanta coisa no seu rosto — tantas expressões, alegria ou maldade — e continuava tudo presente, resquícios delas; você ainda era você, ainda era perfeita, então me ocorreu: você se jogou.

Você se jogou?

Você se jogou?

Aquele verbo, que pronunciei com total desconforto. Você não se jogaria. Nunca, jamais, não é assim que se faz. Você me disse isso. O penhasco não é alto o suficiente, você disse. São só 55 metros do topo até a superfície da água — as pessoas podem sobreviver à queda. Então, você disse, se estiver determinada, se estiver determinada mesmo, precisa tomar certas providências. Mergulhar de cabeça. Se estiver decidida, não pode se jogar, tem de mergulhar de cabeça.

E a não ser que esteja determinada, para que fazer uma coisa assim? Não dê uma de turista. Ninguém gosta de turistas.

As pessoas podem sobreviver à queda, mas isso não quer dizer que vão sobreviver. Aí está você, afinal, e não mergulhou de cabeça. Caiu em pé e eis o resultado: suas pernas estão quebradas, sua coluna está quebrada, você está quebrada. O que isso significa, Nel? Que perdeu a coragem? (Nem um pouco a sua cara.) Que não conseguiu conceber a ideia de cair de cabeça e desfigurar o seu lindo rosto? (Você sempre foi muito vaidosa.) Não faz sentido para mim. Não é típico de você fazer o que disse que não faria, ir contra si mesma.

(Lena disse que não há mistério algum aqui, mas quem é ela para saber?)

Peguei sua mão e ela me passou uma sensação desconhecida, não só por estar muito fria, mas por eu não reconhecer o seu formato, o seu toque. Quando foi a última vez que segurei a sua mão? Talvez você a tenha estendido para mim no enterro da mamãe? Eu me lembro de ter me afastado de você, de procurar o papai. Lembro da expressão no seu rosto. (O que você esperava?) Meu coração enrijeceu dentro do peito, os batimentos lentos como uma marcha fúnebre.

Alguém falou:

— Eu sinto muito, mas você não pode encostar nela.

Acima da minha cabeça, a luz zumbia iluminando a sua pele, pálida e cinza deitada sobre aço. Coloquei meu polegar na sua testa, corri o dedo pela lateral do seu rosto.

— Por favor, não a toque.

A sargento Morgan estava de pé logo atrás de mim. Eu podia ouvir a sua respiração, lenta e constante, acima do chiado das luzes.

— Onde estão as coisas dela? — perguntei. — As roupas que estava usando? As joias?

— Elas serão devolvidas a vocês — disse a sargento Morgan —, depois que a perícia examinar tudo.

— Tinha uma pulseira? — perguntei a ela.

Ela meneou a cabeça.

— Não sei, mas o que quer que ela estivesse usando, será devolvido para vocês.

— Tinha de haver uma pulseira — sussurrei, baixando os olhos para Nel. — Uma pulseira de prata com um fecho de ônix. Era da mamãe, tinha as iniciais dela gravadas. SJA. Sarah Jane. Ela a usava o tempo todo. A mamãe. Depois você. — A detetive estava me encarando. — Quer dizer, depois ela. Nel.

Voltei o olhar para você, para o seu pulso delgado, para o local onde o fecho de ônix estaria pousado sobre veias azuis. Quis tocá-la outra vez, sentir a sua pele. Tinha certeza de que conseguiria acordá-la. Sussurrei o seu nome e esperei que você estremecesse, que os seus olhos tremulassem e abrissem, que me seguissem pela sala. Pensei que talvez eu devesse beijá-la, que como na Bela Adormecida talvez funcionasse, e isso me fez sorrir porque você odiaria a ideia. Você nunca foi a princesa, nunca foi a beleza passiva à espera de um príncipe, você era outra coisa. Tomava o partido das trevas, da madrasta malvada, da fada má, da bruxa.

Senti os olhos da detetive em mim e comprimi os lábios para reprimir o sorriso. Meus olhos estavam secos, e minha garganta, vazia, e, quando sussurrei para você, parece que não saiu som nenhum:

— O que era mesmo que você queria me contar?