Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 74 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

 

QUANDO LENA DESCEU outra vez, com o rosto e as mãos limpos, sentou-se à mesa da cozinha e devorou a comida. Depois, quando sorriu e me agradeceu, senti um calafrio. Depois de ter reparado nisso, não consigo mais não ver. Ela tem o sorriso do pai.

(O que mais, eu me perguntei, será que ela tem dele?)

— O que foi? — perguntou Lena, de repente. — Você está me encarando.

— Foi mal — respondi, sentindo o rosto enrubescer. — Eu só... Estou feliz por você estar em casa. Estou feliz por você estar bem.

— Eu também.

Hesitei um instante antes de continuar.

— Eu sei que você está cansada, mas preciso te perguntar, Lena, sobre o que aconteceu hoje. Sobre a pulseira.

Ela virou o rosto para a janela.

— É, eu sei.

— Ela estava com Mark? — Lena fez que sim de novo. — E você a tirou dele?

Ela suspirou.

— Ele me deu.

— Por que ele deu a pulseira para você? Por que estava com ele, para início de conversa?

— Eu não sei. — Ela virou a cabeça outra vez para me encarar, os olhos vazios, protegidos. — Ele me disse que a encontrou.

— Encontrou? Onde? — Ela não respondeu. — Lena, nós precisamos ir à polícia, precisamos contar para eles.

Ela se levantou e levou o prato até a pia. De costas para mim, disse:

— Nós fizemos um acordo.

— Um acordo?

— Que ele me daria a pulseira da mamãe e que me deixaria vir para casa — começou ela —, contanto que eu dissesse à polícia que tinha mentido a respeito dele e da Katie. — A voz saiu estranhamente leve enquanto ela se ocupava com a louça.

— E ele acreditou que você faria isso? — Ela ergueu os ombros magros até as orelhas. — Lena, me diga a verdade. Você acha... Você acha que foi Mark Henderson quem matou a sua mãe?

Ela se virou e olhou para mim.

— Estou dizendo a verdade. E não sei. Ele me disse que pegou a pulseira da sala da Sra. Townsend.

— Helen Townsend? — Lena fez que sim. — Mulher de Sean? Sua diretora? Mas por que a pulseira estaria com ela? Eu não entendo...

— Nem eu — disse ela, baixinho. — Não completamente.

Eu fiz chá e nos sentamos juntas à mesa da cozinha, bebericando em silêncio. Segurei a pulseira de Nel na mão. Lena estava sentada com os membros completamente relaxados, a cabeça baixa, visivelmente tranquila na minha frente. Estendi a mão e rocei meus dedos nos dela.

— Você está exausta — falei. — Devia ir se deitar.

Ela fez que sim e me olhou sob pálpebras pesadas.

— Sobe comigo, por favor? Eu não quero ficar sozinha.

Subi a escada atrás dela e entramos no seu quarto, não no dela. Ela escalou a sua cama e deitou a cabeça no travesseiro, dando um tapinha no espaço ao lado.

— Assim que nos mudamos para cá — disse ela —, eu não conseguia dormir sozinha.

— Por causa de todos os barulhos? — perguntei, escalando a cama ao lado dela e nos cobrindo com o seu casaco.

Ela fez que sim.

— Esse monte de rangidos e gemidos...

— E todas as histórias assustadoras da sua mãe?

— Exatamente. Eu costumava vir para cá e dormir ao lado da mamãe o tempo todo.

Senti um nó na garanta, uma pedrinha. Não consegui engolir.

— Eu fazia isso com a minha mãe também.

 

Lena pegou no sono. Fiquei ao lado dela, olhando para o rosto, que, em repouso, era exatamente o seu. Eu quis tocá-la, acariciar os cabelos, fazer alguma coisa maternal, mas não queria acordá-la, ou assustá-la, nem fazer nada errado. Não tenho a menor ideia de como ser mãe. Nunca tomei conta de uma criança na vida. Queria que você falasse, que me dissesse o que fazer, o que sentir. Com Lena deitada ao meu lado, acho que senti, sim, ternura, mas foi por você, pela nossa mãe, e, no instante em que os olhos verdes dela piscaram, se abriram e se fixaram nos meus, eu tremi.

— Por que você vive me observando desse jeito? — sussurrou ela, com um meio sorriso. — É megaesquisito.

— Foi mal — falei, deitando de barriga para cima.

Ela entrelaçou os dedos nos meus.

— Tudo bem — disse ela. — Esquisito é legal. Esquisito pode ser bom.

Ficamos deitadas, lado a lado, os dedos entrelaçados. Ouvi a respiração dela se tornar cada vez mais lenta, depois mais rápida, e depois outra vez mais lenta.

— Sabe o que eu não entendo? — sussurrou. — Por que você a odiava tanto?

— Eu não...

— Ela também não entendia.

— Eu sei — admiti. — Eu sei que ela não entendia.

— Você está chorando — sussurrou ela, estendendo a mão para tocar meu rosto. E enxugou as lágrimas da minha bochecha.

Eu contei a ela. Todas a coisas que deveria ter contado a você, eu contei para sua filha. Contei a ela como deixei você na mão, como pensei o pior de você, como me permiti culpar você.

— Mas por que você simplesmente não abriu o jogo? Por que não disse o que tinha acontecido de verdade?

— Era complicado — respondi, sentindo o corpo dela enrijecer ao meu lado.

— Complicado como? Como podia ser tão complicado assim?

— Nossa mãe estava morrendo. Nossos pais estavam péssimos e eu não queria fazer nada para piorar as coisas.

— Mas... ele estuprou você — insistiu ela. — Devia ter sido preso.

— Eu não enxerguei a coisa dessa forma. Eu era muito nova. Mais nova do que você, e não estou só falando em termos de idade, embora também fosse. Mas eu era ingênua, não tinha nenhuma experiência com aquilo, era totalmente sem noção. Não conversávamos sobre “consentimento” como vocês conversam hoje em dia. Eu achei...

— Você achou que não teve nada de mais no que ele fez?

— Não, mas não vi a coisa pelo que foi. Pelo que realmente foi. Eu achava que estupro fosse uma coisa que um homem mau fazia com você, um homem que pulava em cima de você num beco no meio da noite, um homem com uma faca na sua garganta. Eu não achava que garotos fizessem isso. Não meninos como Robbie, não garotos bonitos, os que namoram a menina mais bonita da cidade. Não achei que fizessem isso com você dentro da sala da sua casa, não achei que conversassem sobre isso com você logo depois e perguntassem se você havia gostado. Eu só achei que devia ter feito alguma coisa de errado, que não tinha deixado claro o suficiente que não queria.

Lena ficou um tempo em silêncio, mas, quando falou outra vez, a voz saiu mais aguda, mais insistente.

— Tá, talvez você não tenha querido dizer nada na época, mas, e depois? Por que não conversou com ela mais tarde?

— Porque eu a entendi mal — respondi. — Porque a julguei de forma completamente errada. Pensei que ela soubesse o que tinha acontecido naquela noite.

— Você pensou que ela soubesse e que não tinha feito nada? Como pôde pensar uma coisa dessas?

Como eu poderia explicar? Que eu havia juntado as suas palavras — as que disse para mim aquela noite e as que falou para mim mais tarde: Você não gostou nem um pouquinho? — e contado para mim mesma uma história que fez sentido para mim, que me permitiu seguir em frente com a minha vida sem nunca ter de enfrentar, de fato, o que tinha acontecido.

— Eu achei que ela tivesse preferido protegê-lo — sussurrei. — Achei que o tivesse escolhido em vez de mim. Eu não consegui culpá-lo porque não conseguia nem pensar nele. Se eu o tivesse culpado, se tivesse pensado nele, teria tornado aquilo real. Então eu... em vez disso, eu pensava em Nel.

Lena falou secamente:

— Eu não entendo você. Não entendo gente como você, gente que sempre escolhe culpar a mulher. Se tem duas pessoas fazendo uma coisa errada e uma delas é mulher, a culpa deve ser dela, né?

— Não, Lena, não é isso, não é...

— É, sim. É igual a quando uma mulher tem um caso. Por que a esposa sempre odeia a outra mulher? Por que não odeia o próprio marido? Foi ele quem a traiu, foi ele que jurou amá-la e cuidar dela e não sei mais o que para sempre. Por que não é ele que é empurrado de cima da porra de um penhasco?