Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 37 de 91

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Em Águas Sombrias

Erin

 

O MENINO — Josh — estava do lado de fora da casa quando chegamos, como um soldadinho de sentinela, pálido e atento. Cumprimentou o detetive-inspetor educadamente, olhando para mim com mais desconfiança. Segurava um canivete suíço, os dedos percorrendo a lâmina nervosamente, enquanto o abria e o fechava.

— Sua mãe está em casa, Josh? — perguntou Sean, e ele assentiu.

— Por que vocês querem falar com a gente de novo? — perguntou ele, a voz ficando aguda e terminando num guincho. Ele pigarreou.

— Nós só precisamos verificar algumas coisas — disse Sean. — Não há nada com que se preocupar.

— Ela estava na cama — anunciou Josh, o olhar indo do rosto de Sean para o meu. — Naquela noite. Mamãe estava dormindo. Todos estávamos.

— Qual noite? — perguntei. — De qual noite você está falando, Josh?

Ele ruborizou, olhou para as mãos e mexeu no canivete. Um garotinho que ainda não tinha aprendido a mentir.

A mãe abriu a porta atrás dele. Olhou de mim para Sean e suspirou, esfregando os dedos acima das sobrancelhas. Seu rosto estava da cor de um chá preto com leite, e, quando se virou para falar com o filho, notei que as costas estavam encurvadas como as de uma velha. Ela o chamou para perto e falou baixinho.

— Mas e se eles também quiserem falar comigo? — eu o ouvi perguntar.

Ela pousou as mãos com firmeza nos ombros dele.

— Não vão querer, meu anjo — disse ela. — Pode ir.

Josh fechou o canivete e o enfiou no bolso da calça jeans, os olhos grudados nos meus. Eu sorri e ele me deu as costas, saindo apressado pela rua, virando-se apenas uma vez enquanto a mãe fechava a porta ao entrarmos.

Segui Louise e Sean até uma sala de estar ampla e clara que conduzia a um desses solários modernos e quadrados que ligam a casa ao jardim externo de forma perfeitamente harmônica. Do lado de fora, dava para ver um galinheiro de madeira no gramado, com belos garnisés preto e brancos e galinhas amareladas ciscando atrás de comida. Louise fez sinal para que nos sentássemos no sofá. Ela se acomodou na poltrona em frente, lenta e cuidadosamente, como quem se recupera de uma lesão, não querendo causar ainda mais danos.

— Então — começou ela, erguendo o queixo ligeiramente ao olhar para Sean. — O que você tem para me dizer?

Sean explicou que os novos exames de sangue haviam apresentado os mesmos resultados dos primeiros: não havia nenhum vestígio de medicamentos no organismo de Katie.

Louise escutou, balançando a cabeça com evidente incredulidade.

— Mas vocês não sabem, não é mesmo, quanto tempo esse tipo de remédio permanece no organismo? Ou quanto tempo demora para o efeito se manifestar ou desaparecer? Vocês não podem ignorar isso, Sean...

— Nós não estamos ignorando nada, Louise — disse ele, sem emoção na voz. — Eu só estou relatando o que descobrimos.

— É certo que... bem, é certo que fornecer medicamentos ilegais para alguém, para uma criança, é crime, de qualquer forma, não? Eu sei... — Ela raspou os dentes pelo lábio inferior. — Sei que é tarde demais para puni-la, mas isso precisa ser de conhecimento público, não acha? O que ela fez?

Sean não disse nada. Eu pigarreei e Louise me fuzilou com os olhos quando comecei a falar.

— Pelo que descobrimos com relação ao horário da compra dos comprimidos, Sra. Whittaker, Nel não poderia tê-los comprado. Apesar de seu cartão de crédito ter sido usado, parece...

— O que está sugerindo? — A voz dela foi aumentando de volume raivosamente. — Agora está dizendo que Katie roubou o cartão de crédito dela?

— Não, não — falei. — Não estamos sugerindo isso...

O rosto dela mudou quando se deu conta do que devia ter acontecido.

— Lena — disse ela, recostando-se outra vez na poltrona, a boca fixa numa expressão resignada. — Foi a Lena.

Nós também não sabíamos disso com certeza, explicou Sean, embora certamente fôssemos interrogá-la. Na verdade, ela ficara de comparecer à delegacia naquela tarde. Ele perguntou a Louise se ela havia encontrado mais alguma coisa de preocupante entre os pertences de Katie. Louise descartou a pergunta sem cerimônia.

— É isso — disse ela, inclinando o corpo para a frente. — Será que você não vê? Se juntar os comprimidos com esse lugar, mais o fato de Katie passar tanto tempo na casa das Abbotts cercada daquele monte de fotos e histórias e... — parou por aí. Nem mesmo ela parecia inteiramente convencida da história que contava. Porque mesmo que estivesse certa, e mesmo que aqueles comprimidos tivessem deixado sua filha deprimida, nada daquilo mudava o fato de ela não ter reparado em nada.

Eu não disse isso, claro, porque o que precisava lhe perguntar já era bastante difícil. Louise estava se levantando com dificuldade, imaginando que nossa reunião tivesse chegado ao fim, esperando que fôssemos embora, e eu tive de detê-la.

— Tem mais uma coisa que precisamos lhe perguntar — falei.

— Sim? — Ela permaneceu de pé, os braços cruzados.

— Gostaríamos de saber se estaria disposta a nos permitir tirar as suas impressões digitais...

Ela me interrompeu antes que eu pudesse explicar.

— Para quê? Por quê?

Sean se remexeu na cadeira, desconfortável.

— Louise, encontramos digitais idênticas no frasco de comprimidos que você me deu e em uma das filmadoras de Nel Abbott e precisamos descobrir por quê. Só isso.

Louise sentou-se outra vez.

— Bem, é provável que sejam de Nel — sugeriu ela. — Não faz sentido?

— Não são de Nel — repliquei. — Já verificamos. Também não são de sua filha.

Ela se encolheu ao ouvir isso.

— É claro que não são de Katie. O que Katie estaria fazendo com essa filmadora? — Ela comprimiu os lábios, levando a mão à corrente no pescoço, deslocando o pequeno pássaro azul de um lado para o outro. Suspirou pesadamente. — Bem, são minhas, claro — admitiu. — São minhas.

Aconteceu três dias depois que a filha morreu, ela nos contou.

— Fui à casa de Nel Abbott. Eu estava... bem, duvido que consigam imaginar o estado em que eu me encontrava, mas podem tentar. Esmurrei a porta da frente, mas ela não quis sair. Eu não desisti, fiquei onde estava, esmurrando a porta e gritando por ela e, por fim — disse ela, afastando uma mecha de cabelo do rosto —, Lena abriu a porta. Estava chorando, aos soluços, praticamente histérica. Foi uma cena e tanto. — Ela tentou, mas não conseguiu sorrir. — Eu disse umas coisas para ela, coisas cruéis, acho, pensando bem, mas...

— Que tipo de coisas? — perguntei.

— Eu... eu não me lembro dos detalhes, na verdade. — Ela começava a perder a compostura, a respiração foi ficando curta, as mãos agarravam os braços da poltrona, o esforço deixando amarelada a pele azeitonada que cobria os nós dos dedos. — Nel deve ter me escutado. Acabou saindo e me mandando deixar as duas em paz. Ela disse — Louise deu uma gargalhada —, ela disse que sentia muito pela minha perda. Sentia muito pela minha perda, mas que isso não tinha nada a ver com ela, nada a ver com a filha dela. Lena estava no chão, eu me lembro disso, fazia um barulho igual a um... igual a um animal. Um animal ferido. — Ela fez uma pausa para recobrar o fôlego antes de continuar. — Nós discutimos, Nel e eu. Foi uma discussão bastante agressiva. — Ela abriu um meio sorriso para Sean. — Está surpreso? Ainda não sabia de nada disso? Imaginei que Nel tivesse lhe contado, ou Lena, pelo menos. Sim, eu... bem, eu não bati nela, mas voei em cima dela e ela me empurrou para trás. Eu exigi que ela me mostrasse as filmagens da câmera. Eu queria... eu não queria ver, mas queria mais do que qualquer coisa que ela não tivesse... eu não podia tolerar...

Louise desmoronou.

É horrível ver uma pessoa nas garras da dor; o ato de assistir à cena parece uma violência, uma intrusão, uma violação. No entanto, nós o fazemos, temos de fazê-lo, o tempo todo, só precisamos aprender a lidar com isso do jeito que der. A reação de Sean foi baixar a cabeça e ficar imóvel; a minha foi encontrar uma distração: olhei as galinhas ciscando pelo gramado lá fora. Fitei as estantes de livros, passando os olhos por conceituados romances contemporâneos e livros de história militar; admirei as fotos nos porta-retratos no console da lareira. A foto de casamento, o retrato de família e a foto de um bebê. Só um, um garotinho de azul. Onde estava a foto de Katie? Tentei imaginar como seria tirar a foto de um filho de seu local de orgulho e guardá-la numa gaveta. Quando olhei para Sean, percebi que sua cabeça já não estava baixa e que ele me olhava de cara feia. Me dei conta de que havia um barulho de batidinhas na sala e que vinha de mim, o som da minha caneta batucando no caderno. Eu não estava fazendo aquilo de propósito. Estava era tremendo toda.

Depois do que pareceu ser um tempão, Louise voltou a falar.

— Eu não podia tolerar a ideia de que Nel fosse a última pessoa a ver a minha filha. Ela me disse que não havia filmagem alguma, que a câmera não estava funcionando, que, mesmo que estivesse, estava no alto do penhasco e que não teria... não a teria captado. — Ela suspirou, um tremor percorrendo seu corpo, dos ombros até os joelhos. — Eu não acreditei nela. Não quis arriscar. E se tivesse alguma coisa naquela filmadora e ela usasse? E se mostrasse minha menina para o mundo, sozinha e assustada e... — Ela parou e respirou fundo. — Eu disse a ela... Lena deve ter lhe contado isso tudo? Eu disse a ela que não ia sossegar até vê-la pagar pelo que tinha feito. Então fui embora. Fui até o penhasco e tentei abrir a filmadora para tirar o cartão de memória, mas não consegui. Tentei arrancá-la do tripé, arranquei a unha tentando. — Ela ergueu a mão esquerda: a unha do indicador estava curta e deformada. — Eu a chutei algumas vezes, bati nela com uma pedra. Então, voltei para casa.