Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 63 de 91

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Em Águas Sombrias

Sean

 

 

A PORTA DOS fundos tinha sido deixada aberta, disseram os investigadores da cena do crime. Não só destrancada, mas aberta. O cheiro forte de ferro aderiu às minhas narinas quando entrei. Callie Buchan já estava lá, conversando com os peritos; ela me falou alguma coisa, mas eu não ouvi porque estava me esforçando para escutar outra — um animal ganindo.

— Shh — falei. — Ouça.

— Já revistaram a casa, senhor — disse Callie. — Não tem ninguém aqui.

— Ele tem cachorro? — perguntei. Ela ficou me olhando, o rosto sem expressão. — Tem um cachorro, um animal de estimação na casa? Algum sinal de um?

— Não, nenhum sinal, senhor. Por que pergunta?

Prestei atenção outra vez, mas o som havia sumido e fiquei com uma sensação de déjà vu: eu já vi isso antes, eu já fiz isso tudo antes — ouvi um cachorro ganir, atravessei uma cozinha ensanguentada e saí para a chuva.

Só que não está chovendo, e não tem cachorro nenhum aqui.

Callie ficou olhando fixamente para mim.

— Senhor? Tem algo ali no chão. — Ela apontou para uma tesoura caída em meio a uma mancha de sangue. — Isso não foi só um cortezinho, foi? Quer dizer, pode não ter atingido nenhuma artéria, mas não está com uma cara boa.

— Hospitais?

— Nada ainda, nem sinal de nenhum dos dois. — O celular dela tocou e ela saiu para atender.

Permaneci imóvel na cozinha enquanto dois peritos trabalhavam silenciosamente à minha volta. Observei um deles usar uma pinça para pegar um longo fio de cabelo loiro que ficara preso no canto da mesa. Senti uma súbita onda de náusea, a saliva inundou minha boca. Não consegui entender por que: eu já havia visto cenas de crime piores que esta — bem piores — e tinha permanecido impassível. Não tinha? Já não atravessei cozinhas mais sangrentas que esta?

Levei a palma da mão ao pulso e me dei conta de que Callie estava falando comigo outra vez, a cabeça enfiada pelo vão da porta.

— Posso dar uma palavrinha com o senhor? — Eu a segui até o lado de fora e, enquanto tirava as sapatilhas plásticas que protegiam meus sapatos, ela me colocou a par dos últimos acontecimentos. — A polícia rodoviária encontrou o carro de Henderson — disse ela. — Quer dizer, não encontrou de verdade, mas filmou o Vauxhall vermelho dele duas vezes. — Ela olhou para suas anotações. — A situação está um pouco confusa porque, da primeira vez que o filmaram, pouco depois das três da manhã, ele aparece na A68 rumando para o norte, em direção a Edimburgo, mas, aí, duas horas depois, às cinco e quinze, ele aparece seguindo para o sul na A1, bem na saída de Eyemouth. Então é possível que ele... tenha ido deixar alguma coisa? — Tenha ido se livrar de alguma coisa, ela quer dizer. Alguma coisa ou alguém. — Ou está tentando confundir a gente?

— Ou mudou de ideia quanto ao melhor lugar para onde fugir — sugeri. — Ou está em pânico.

Ela concordou.

— Correndo de um lado para o outro como cego em tiroteio.

Eu não gostava dessa ideia, não queria ele — nem ninguém — como cego em tiroteio. Eu o queria calmo.

— Deu para ver se tinha mais alguém no carro com ele, alguém no banco do carona? — perguntei.

Ela balançou a cabeça, os lábios comprimidos.

— Não. Mas... — e parou de falar. Mas isso não quer dizer que não tenha outra pessoa no carro. Só significa que a outra pessoa não está sentada.

Mais uma vez a estranha sensação de já ter vivido isso antes, um fragmento de lembrança que não parecia ser minha. Como podia ser de outra pessoa? Devia fazer parte de alguma história, contada por alguém de quem não me lembro. Uma mulher, mais caída do que deitada, no banco de um carro, passando mal, tendo convulsões, babando. Não uma história completa — eu não conseguia me lembrar do restante, só sabia que pensar nisso revirava meu estômago. Deixei o pensamento de lado.

— Newcastle pareceria o destino óbvio — falou Callie. — Quer dizer, se ele estiver fugindo. Aviões, trens, barcas: ele teria o mundo nas mãos. Mas o mais esquisito é que, depois das cinco da manhã, eles não o viram mais. Sendo assim, ou ele parou, ou deixou a estrada principal. Talvez tenha pegado as estradas secundárias, até mesmo a litorânea...

— Ele não tem uma namorada? — perguntei, interrompendo o seu raciocínio. — Uma mulher em Edimburgo?

— A famosa noiva — comentou Callie, arqueando as sobrancelhas. — Estou anos-luz à sua frente. O nome dela é Tracey McBride. Os policiais a buscaram hoje de manhã. Está vindo para Beckford para uma conversinha. Mas, só para você saber, nossa Tracey afirma que não vê Mark Henderson há um bom tempo. Quase um ano, na verdade.

— Como assim? Achei que tinham acabado de sair de férias juntos.

— Foi o que Mark Henderson disse quando falou com a detetive-sargento Morgan, mas, segundo Tracey, ela não vê nem sombra dele desde que rompeu com ela no outono passado. Ela conta que ele deu o fora nela sem mais nem menos, dizendo que tinha se apaixonado perdidamente por outra mulher.

 

Tracey não sabia quem era a mulher nem o que ela fazia.

— E nem quis saber — falou para mim, abruptamente. Estava sentada na sala dos fundos da delegacia, uma hora depois, bebericando seu chá. — Eu fiquei... eu fiquei arrasada, na verdade. Uma hora estou procurando um vestido de noiva para comprar e na seguinte ele me diz que não pode seguir adiante com os planos porque encontrou o amor da vida dele. — Ela sorriu para mim com pesar, passando os dedos pelos cabelos pretos e muito curtos. — Depois disso, eu simplesmente o eliminei da minha vida. Deletei o número do celular dele, desfiz a amizade com ele nas redes sociais, tudo o que tinha direito. Você poderia me dizer, por favor, se aconteceu alguma coisa com ele? Ninguém me diz o que está havendo.

Fiz que não com a cabeça.

— Sinto muito, não tem muita coisa que eu possa lhe contar no momento. Mas não cremos que algo de ruim tenha acontecido com ele. Só precisamos encontrá-lo, conversar com ele a respeito de um assunto. Você não sabe para onde ele talvez tenha ido, sabe? Se precisasse fugir? Pais, amigos na região...?

Ela franziu a testa.

— Isso não tem a ver com a mulher que morreu, tem? Eu li no jornal que teve mais uma há uma ou duas semanas. Quer dizer... ele não estava... aquela não era a mulher com quem ele estava saindo, era?

— Não, não. Não tem nada a ver com isso.

— Ah, está bem. — Ela pareceu aliviada. — Quer dizer, ela teria sido um pouquinho velha para ele, não teria?

— Por que diz isso? Ele gostava de mulheres mais novas?

Tracey se mostrou confusa.

— Não, quer dizer... como assim mais novas? Aquela mulher tinha, tipo, uns 40 anos, não? Mark não tem nem 30 ainda, então...

— Certo.

— Não pode mesmo me contar o que está acontecendo? — perguntou ela.

— Alguma vez Mark foi violento com você, alguma vez perdeu a cabeça ou coisa do tipo?

— Como? Meu Deus, não. Nunca. — Ela se recostou na cadeira, o cenho franzido. — Alguém o acusou de alguma coisa? Porque ele não é assim. É egoísta, sem dúvida, mas não é má pessoa, não dessa forma.

Eu a acompanhei até o carro, onde um policial aguardava para levá-la em casa, pensando nas formas como Mark Henderson era mau, e se ele havia conseguido se convencer de que estar apaixonado o absolvia.

— Você me perguntou para onde ele poderia ir — disse Tracey quando chegamos ao carro. — É difícil dizer, sem conhecer o contexto, mas pensei em um lugar, sim. Nós temos uma casa no litoral. Bem, na verdade, a casa é do meu pai. Mark e eu íamos muito lá nos fins de semana. Fica bem isolada, não tem ninguém por perto. Mark sempre dizia que era o refúgio perfeito.

— Está desocupada, a casa?

— Não é muito frequentada. Costumávamos deixar uma chave nos fundos, debaixo de um vaso, mas no início deste ano descobrimos que alguém vinha usando a casa sem a nossa permissão, encontrávamos canecas sem lavar, lixo nas lixeiras e coisas assim, então paramos de fazer isso.

— Quando foi a última vez que isso aconteceu? A última vez que alguém a usou sem permissão?

Ela fez uma careta.

— Ah, nossa. Já faz tempo. Abril, acho. Isso, abril. No feriado da Páscoa.

— E onde exatamente fica esse lugar?

— Em Howick — respondeu ela. — É um vilarejo minúsculo, não tem muita coisa por perto. É só subir o litoral, saindo de Craster.