Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 72 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

 

DEPOIS QUE NICKIE saiu, subi para o seu quarto. Sua cama estava sem lençol, então fui até o armário e tirei de dentro dele um dos seus casacos, um de cashmere caramelo, mais macio e luxuoso que qualquer coisa que eu jamais poderia sonhar em ter. Enrolei-me nele e, ainda assim, me senti mais gelada do que tinha me sentido dentro d’água. Fiquei deitada na sua cama por um bom tempo, dolorida e cansada demais para me mexer; tinha a sensação de estar esperando os ossos esquentarem, o sangue voltar a circular, o coração retomar seu batimento. Fiquei esperando ouvir você dentro da minha cabeça, mas você estava calada.

Por favor, Nel, pensei, fale comigo, por favor. Eu já disse que sinto muito.

Imaginei a sua resposta seca: Esse tempo todo, Julia. A única coisa que eu quis foi conversar com você. E: Como pôde pensar uma coisa daquelas de mim? Como pôde achar que eu não daria a menor importância a um estupro, que eu teria zombado de você com uma coisa dessas?

Eu não sei, Nel, eu sinto muito.

Quando ainda assim eu não conseguia ouvir sua voz, mudei de tática. Então me fale sobre Lauren. Me fale sobre essas mulheres encrenqueiras. Me fale de Patrick Townsend. Conte o que estava tentando me dizer antes. Mas você não disse uma palavra. Quase deu para senti-la toda amuada.

Meu celular tocou e na tela azul vi o nome da detetive-sargento Morgan. Por um segundo, não ousei atender. O que eu faria se algo tivesse acontecido com Lena? Como eu haveria de me redimir de todos os erros que cometi se ela também tivesse morrido? Com as mãos trêmulas, atendi. E pronto! Meu coração voltou a bater, levando sangue quente até as minhas extremidades. Ela estava bem! Lena estava sã e salva. Estavam com ela. Estavam trazendo Lena para casa.

Pareceu uma eternidade, horas e horas até eu ouvir uma porta de carro bater lá fora e conseguir ter energia para dar um pulo da cama, tirar seu casaco e sair correndo escada abaixo. Erin já estava lá, na porta da frente, observando Sean ajudar Lena a sair do carro.

Ela estava com um casaco por cima dos ombros e com o rosto pálido e sujo. Mas estava inteira. Em segurança. Estava bem. Só que, quando ergueu a vista e os olhos dela cruzaram com os meus, vi que aquilo era mentira.

Seu caminhar era hesitante, pisava com cuidado, e eu sabia qual era aquela sensação. Ela abraçava o próprio corpo numa postura protetora; quando Sean estendeu um dos braços para guiá-la para dentro de casa, ela se encolheu. Pensei no homem que a levara, pensei nas suas preferências. Meu estômago revirou e senti a doçura da vodca com suco de laranja na boca, senti um hálito quente no rosto, a pressão de dedos insistentes em carnes macias.

— Lena — falei, e ela fez que sim com a cabeça.

Percebi que o que eu achara ser sujeira no rosto de Lena era sangue, descamando da boca e do queixo. Tentei pegar a mão dela, mas só fez se abraçar com mais força, então a segui escada acima. No corredor, ficamos frente a frente. Ela sacudiu os ombros para se livrar do casaco e deixou que caísse no chão. Eu me abaixei para pegá-lo, mas Erin chegou primeiro. Apanhou-o e o entregou a Sean, e algo foi comunicado entre os dois — um olhar que eu não consegui decifrar, quase como raiva.

— Onde ele está? — sussurrei para Sean. Lena estava debruçada sobre a pia, bebendo água direto da torneira. — Onde está Henderson? — Eu senti um desejo simples e selvagem de lhe infligir dor, nesse homem que assumira uma posição de confiança para, então, abusar dela. Senti vontade de segurar um pedaço dele, torcer e arrancar fora por inteiro, de fazer com ele o que homens desse tipo merecem.

— Estamos à procura dele — respondeu. — Temos gente à procura dele.

— Como assim, à procura dele? Eles não estavam juntos?

— Estavam, mas...

Lena continuava debruçada sobre a pia, bebendo água.

— Você a levou para o hospital? — perguntei a Sean.

Ele balançou a cabeça.

— Ainda não. Lena deixou bem claro que não queria ir.

Havia algo no rosto dele de que eu não estava gostando, algo oculto.

— Mas...

— Eu não preciso ir para o hospital — disse Lena, endireitando o corpo e secando a boca. — Não estou machucada. Estou bem.

Ela estava mentindo. Eu sabia exatamente que tipo de mentira ela estava dizendo porque eu mesma as tinha dito. Pela primeira vez, eu vi a mim mesma nela, não você. A expressão de Lena era de medo e de desafio; percebi que se agarrava ao segredo dela como a um escudo. A gente acha que a dor vai ser menor, a humilhação, mais branda, se ninguém mais puder enxergar.

Sean me tomou pelo braço e me guiou para longe. Bem baixinho, ele disse:

— Ela foi categórica sobre vir para casa primeiro. Não podemos forçá-la a se submeter a um exame se ela não se dispuser a isso. Mas você precisa levá-la. O mais rápido possível.

— Sim, é claro que eu vou. Mas ainda não entendi por que vocês não o pegaram. Onde ele está? Onde está Henderson?

— Ele se foi — disse Lena, subitamente ao meu lado.

Os dedos dela roçaram os meus; estavam tão gelados quanto os da mãe dela da última vez que os toquei.

— Foi para onde? — perguntei. — O que você quer dizer com se foi?

Ela não quis olhar para mim.

— Só foi.

Townsend arqueou uma das sobrancelhas.

— Há guardas à procura dele. O carro continua lá, não pode ter ido longe.

— Aonde você acha que ele foi, Lena? — perguntei, tentando olhá-la nos olhos, mas ela continuava com o rosto virado.

Sean balançou a cabeça com uma expressão de pesar.

— Eu já tentei — disse ele, baixinho. — Ela não quer falar. Acho que só está exausta.

Os dedos de Lena se fecharam em torno dos meus, a respiração escapando num profundo suspiro.

— Estou, sim. Podemos fazer isso amanhã, Sean? Preciso dormir.

 

Os detetives nos deixaram depois que combinamos de nos ver pela manhã; Lena precisaria dar um depoimento formal. Olhei-os andar até o carro de Sean. Quando Erin se acomodou no banco do carona, bateu a porta com tanta força que me espantei de o vidro não ter se estilhaçado todo.

Lena me chamou da cozinha.

— Estou morta de fome — disse ela. — Será que você poderia fazer espaguete à bolonhesa, como daquela vez? — Aquele tom de voz e aquela suavidade eram novos; tão surpreendentes quanto o toque da mão dela.

— É claro que posso — respondi. — Vou preparar agora mesmo.

— Obrigada. Só vou lá em cima um pouco, preciso tomar um banho.

Coloquei a mão no braço dela.

— Lena, não. Não pode. Você precisa ir ao hospital primeiro.

Ela balançou a cabeça.

— Não, sério, não preciso, eu não estou machucada.

— Lena. — Eu não consegui encará-la quando disse: — Você precisa ser examinada antes de poder tomar banho.

Ela pareceu temporariamente confusa, então deixou os ombros caírem e se aproximou de mim. Mesmo sem querer, comecei a chorar. Ela me abraçou.

— Está tudo bem — disse ela. — Está tudo bem, está tudo bem. — Exatamente como você havia feito naquela noite, depois da água. — Ele não fez nada desse tipo. Não foi assim. Você não entende, ele não era, tipo, um pedófilo perverso. Era só um velho triste.

— Ai, graças a Deus! — falei. — Graças a Deus, Lena!

Ficamos assim abraçadas por um tempo, até eu parar de chorar e ela começar. Chorou aos soluços como uma criança, o corpo magro desmoronando, escorregando pelos meus braços até o chão. Eu me agachei também e tentei segurar a mão dela, mas o punho estava cerrado com toda a força.

— Vai ficar tudo bem — falei para ela. — De alguma maneira, vai. Eu vou cuidar de você.

Ela olhou para mim sem dizer nada; parecia incapaz de falar. Em vez disso, estendeu a mão, os dedos se abrindo para revelar o tesouro que continham — uma pequena pulseira de prata com um fecho de ônix —, e foi aí que ela recuperou a voz.

— Ela não se jogou — afirmou, os olhos faiscando. Eu senti a temperatura ambiente cair vertiginosamente. — A mamãe não me deixou. Ela não se jogou.