Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 11 de 91

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Em Águas Sombrias

Mark

 

ERA O DIA mais quente do ano até ali, e como o Poço dos Afogamentos estava inacessível, por motivos óbvios, Mark subiu o rio e foi nadar em outro lugar. Havia um trecho em frente à casa dos Wards onde o rio alargava, a água correndo rápida e fria sobre seixos cor de ferrugem na margem, mas, no centro, era funda, fria o bastante para deixar você sem fôlego e queimar a sua pele, o tipo de frio que fazia a gente gargalhar com o choque.

E foi o que ele fez, gargalhou — era a primeira vez que sentia vontade de rir em meses. E era a primeira vez que entrava na água em meses, também. O rio, para ele, havia passado de fonte de prazer para um lugar pavoroso, mas hoje tinha voltado a ser o que era. Hoje, a sensação era boa. Ele soube desde o instante em que acordou, mais leve, a cabeça desanuviada, com os membros mais soltos, que hoje seria um bom dia para nadar. Ontem, acharam Nel Abbott morta na água. Hoje era um bom dia. A sensação não era exatamente de que um fardo tinha sido retirado de seus ombros, mas que um torno — que vinha apertando suas têmporas, ameaçando sua sanidade, ameaçando sua vida — tinha sido, enfim, afrouxado.

Uma policial tinha ido a sua casa, uma detetive muito jovem, com um jeitinho doce e ligeiramente feminino que fez com que ele ficasse com vontade de falar coisas para ela que realmente não devia. Callie Alguma Coisa, o nome dela. Ele a convidou para entrar e lhe contou a verdade. Disse que tinha visto Nel Abbott saindo do pub no domingo à noite. Não mencionou que tinha ido até lá com a intenção expressa de esbarrar com ela, isso não era importante. Disse que haviam se falado, mas só rapidamente, porque Nel estava com pressa.

— Sobre o que vocês conversaram? — perguntou a detetive.

— A filha dela, Lena, é uma das minhas alunas. Ela me deu um certo trabalho no semestre passado, problemas disciplinares, essas coisas. Ela vai estar na minha turma de inglês outra vez em setembro, e este é um ano importante para ela, o ano dos exames de certificação do ensino médio, então quis ter certeza de que não íamos voltar a ter problemas.

Não deixa de ser verdade.

— Ela disse que estava sem tempo, que tinha outras coisas para fazer.

Também verdade, embora não toda a verdade. Não exatamente nada mais que a verdade.

— Estava sem tempo para discutir os problemas da filha na escola? — indagou a detetive.

Mark deu de ombros e sorriu para ela com pesar.

— Alguns pais se envolvem mais que outros — disse ele.

— Quando ela saiu do pub, para onde foi? Estava de carro?

Mark meneou a cabeça.

— Não, acho que estava indo para casa. Saiu andando naquela direção.

A detetive assentiu.

— Você não a viu de novo depois? — perguntou ela. Mark fez que não.

Enfim, parte daquilo era verdade, parte era mentira, mas, de qualquer forma, a detetive pareceu ficar satisfeita; deixou um cartão com um telefone e disse a ele que ligasse caso se lembrasse de mais algum detalhe.

— Pode deixar — falou, dando seu sorriso mais encantador, o que a fez recuar de leve. Ele se perguntou se teria exagerado.

Mark submergiu por inteiro, nadando em direção ao leito do rio, enterrando os dedos na lama macia e lodosa. Dobrou o corpo num círculo compacto, e então, com um movimento explosivo, deu impulso até a superfície, enchendo o pulmão de ar.

Ele ia sentir falta do rio, mas precisava se mudar dali. Teria de começar a procurar um novo emprego, talvez na Escócia, ou quem sabe mais longe: França, ou Itália, algum lugar onde ninguém soubesse de onde tinha vindo ou o que havia acontecido pelo caminho. Sonhava com a chance de recomeçar, com uma página em branco, com uma história sem manchas.

Ao lançar o corpo em direção à margem, sentiu o torno voltar a apertar de leve. Seus problemas não estavam de todo resolvidos. Ainda não. Havia a questão da menina, ela ainda poderia lhe causar problemas, apesar de que, se havia ficado calada por tanto tempo, não parecia provável que fosse quebrar o silêncio agora. Podiam dizer o que quisessem a respeito de Lena Abbott, mas ela era leal; cumprira sua palavra. E talvez, agora, livre da influência tóxica da mãe, fosse até se tornar uma pessoa decente.

Mark se sentou à margem por um tempo, a cabeça baixa, escutando a canção do rio, sentindo o sol nos ombros. A euforia evaporou junto com a água das costas mas deixou outro sentimento no lugar, não esperança, exatamente, mas uma silenciosa premonição de que a esperança seria pelo menos possível.

Ele ouviu um barulho e ergueu a cabeça. Alguém estava vindo. Reconheceu a silhueta dela, a agoniante lentidão de seu andar, e seu coração começou a bater mais forte dentro do peito. Louise.