Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 32 de 91

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Em Águas Sombrias

Erin

 

 

AO SAIR DO enterro, notei quantas das pessoas que haviam comparecido à cerimônia fúnebre se aproximaram para trocar algumas palavras com o pai de Sean Townsend, um homem ao qual eu fora apresentada, de maneira incrivelmente breve, como Patrick Townsend. Foram vários apertos de mão e demonstrações de respeito e o tempo todo ele ficou lá plantado como um major-general numa parada militar, a coluna ereta e a boca rija.

— Que tipo decadente, hein? — comentei com o guarda ao meu lado. O policial se virou para mim e me olhou como se eu fosse um alienígena.

— Mostre algum respeito — disse ele, entre dentes, dando as costas para mim.

— Como é?! — indaguei, falando com a nuca do sujeito.

— Trata-se de um oficial altamente condecorado — disse o policial. — E viúvo. A mulher dele morreu aqui, neste rio. — Ele se virou para me encarar outra vez, e, sem o menor sinal de deferência pela minha patente, fungou: — De maneira que você devia lhe mostrar algum respeito.

Eu me senti uma babaca. Mas, sério, como é que eu ia saber que o Sean da história de Nel Abbott era o Sean da delegacia? Eu não sabia os nomes dos pais dele. Puta merda. Ninguém me contou, e quando li a obra de Nel Abbott não prestei tanta atenção assim para os detalhes de um suicídio ocorrido há mais de três décadas. Não me pareceu tão urgente, dadas as circunstâncias.

Sério: como é que alguém consegue não confundir todos os cadáveres deste lugar? É igual ao Midsomer Murders, só que com acidentes, suicídios e afogamentos históricos e misóginos grotescos em vez de gente que escorrega na lama ou que senta o cacete na cabeça de outra pessoa.

Voltei para a cidade depois do trabalho — alguns policiais iam ao pub, mas graças à gafe do Patrick Townsend, meu status de forasteira estava mais em evidência do que nunca. De qualquer maneira, esse caso está encerrado, não está? Não tenho motivo nenhum para ficar por aqui.

Eu me senti aliviada, do jeito que a gente se sente quando finalmente lembra em qual filme já viu tal ator, quando alguma coisa meio nebulosa que vem nos incomodando entra em foco de repente. A esquisitice do detetive-inspetor — os olhos marejados, as mãos trêmulas, a incoerência —, tudo isso faz sentido agora. Faz sentido se você conhece a história dele. Sua família sofreu quase que exatamente o mesmo que Jules e Lena estão sofrendo agora — o mesmo horror, o mesmo choque. O mesmo processo de ficar se perguntando por quê.

Reli o capítulo de Nel Abbott sobre Lauren Townsend. Não conta exatamente uma história. Ela era uma esposa infeliz, apaixonada por outro homem. Menciona o jeito distraído e ausente dela — talvez estivesse deprimida? No fim das contas, quem sabe? Não é como se a coisa fosse verdade mesmo, é só a versão de Nel Abbott para a história. É preciso ser dona de um estranho senso de prerrogativa, imaginei, para pegar a tragédia de outra pessoa e escrevê-la como se pertencesse a você.

Relendo-a, o que eu não entendo é como Sean pôde ter ficado aqui. Mesmo sem tê-la visto cair, ele estava lá. Que porra será que uma coisa dessas é capaz de fazer com uma pessoa? Ainda assim, ele devia ser pequeno, imagino. Uns 6 ou 7 anos? As crianças conseguem bloquear esse tipo de memória, esse tipo de trauma. Mas e o pai? Ele caminha ao longo do rio todos os dias, eu já o vi. Imagine só isso. Imagine passar pelo lugar onde você perdeu alguém, todo santo dia. Não consigo nem imaginar, não conseguiria fazer isso. Mas, também, acho que nunca perdi ninguém de verdade. Então, como eu haveria de saber como é sentir esse tipo de perda?