Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 44 de 91

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Em Águas Sombrias

2015 | Helen

2015

 

Helen

 

A CAMINHO DO supermercado, Helen passou por Josh Whittaker de bicicleta. Ele estava completamente ensopado, e as roupas, enlameadas; ela diminuiu a velocidade do carro e baixou o vidro.

— Você está bem? — gritou ela e ele acenou, mostrando os dentes. Uma tentativa tosca de sorrir, supôs Helen.

Ela continuou dirigindo, lentamente, observando-o pelo retrovisor. Ele tentava ganhar tempo, virando o guidom para cá e para lá, e de vez em quando ficava em pé nos pedais para olhar por cima do ombro.

Ele sempre fora um menino esquisito, e a tragédia recente só fizera exacerbar as coisas. Patrick tinha ido pescar com ele umas duas vezes depois da morte de Katie — como um favor para Louise e Alec, para lhes dar um pouco de tempo a sós. Tinham passado horas e horas no rio e, segundo Patrick, o menino não dissera uma palavra.

— Deviam levá-lo daqui — Patrick disse a ela. — Deviam ir embora.

— Você não foi — replicou ela, cuidadosamente, e ele fez que sim.

— Aquilo foi diferente — afirmou ele. — Eu tive de ficar. Tinha um trabalho a fazer.

 

Depois que ele se aposentou, ficou por eles — por ela e Sean. Não por eles, mas para estar perto deles, porque eram tudo o que ele tinha: eles, a casa, o rio. Mas o tempo estava se esgotando. Ninguém dizia nada porque esse era o tipo de família que eles eram, mas Patrick não parecia bem.

Helen o ouvia tossir durante a noite, sem parar, percebia pela manhã como era doloroso, para ele, se movimentar. O pior de tudo é que ela sabia que não era somente algo físico. A vida toda ele foi dono de uma mente extremamente aguçada, e agora começava a esquecer as coisas, ficava confuso às vezes. Pegava o carro dela emprestado e se esquecia de onde o deixara, ou às vezes o devolvia cheio de tralhas, como fizera outro dia. Lixo que havia encontrado? Bugigangas que tinha recolhido? Troféus? Ela não perguntava. Não queria saber. Temia por ele.

Temia por ela mesma, também, para ser sincera. Vinha se sentindo desorientada, distraída, irracional. De vez em quando, achava que estava enlouquecendo. Perdendo o juízo.

Ela não era assim. Helen era prática, racional, decidida. Avaliava suas opções cuidadosamente, depois agia. Tinha o hemisfério esquerdo do cérebro dominante, segundo o sogro. Mas, ultimamente, não era mais a mesma. Os acontecimentos do último ano a haviam desestabilizado, tirado do rumo. Agora se via questionando aqueles elementos de sua vida que acreditara estarem menos abertos a questionamentos: seu casamento, sua vida em família, até mesmo sua competência no trabalho.

Aquilo começara com Sean. Primeiro com suas suspeitas, e então — através de Patrick —, a terrível confirmação. No outono anterior, ela havia descoberto que o marido — seu marido estável, firme e moralmente irrepreensível — não era nada do que ela pensava ser. Ela havia ficado desnorteada. Sua racionalidade, sua determinação, a deixaram. O que devia fazer? Ir embora? Abandonar sua casa e suas responsabilidades? Será que devia dar um ultimato? Chorar, bajular? Castigá-lo? Se sim, como? Fazendo buracos no tecido das suas camisas preferidas, quebrando suas varas de pescar ao meio, queimando seus livros no jardim?

Todas essas opções lhe pareceram pouco práticas, imprudentes ou simplesmente ridículas, então ela se voltou para Patrick à procura de conselhos. Ele a convenceu a ficar. Garantiu a ela que Sean recobrara o juízo, que se arrependia profundamente da sua infidelidade e que se empenharia em merecer o seu perdão.

— Enquanto isso — sugeriu Patrick —, ele entenderia, nós dois entenderíamos, se você quisesse ocupar o quarto de hóspedes daqui de casa? Talvez lhe faça bem ter um tempo para você mesma, e estou certo de que faria bem, para ele, sentir o gostinho do que poderia estar prestes a perder.

Quase um ano depois, ela ainda dormia na casa do sogro a maioria das noites.

O erro de Sean, como ficou conhecido, foi apenas o começo. Depois de se mudar para a casa de Patrick, Helen se viu atormentada por uma terrível insônia: um inferno debilitante e gerador de ansiedade. Algo que, segundo descobriu, era compartilhado pelo sogro. Ele não conseguia dormir, também — estava assim havia anos, foi o que disse. Então ficavam acordados juntos — lendo, fazendo palavras cruzadas, desfrutando da silenciosa companhia um do outro.

Às vezes, quando tomava um trago de uísque, Patrick gostava de falar. Sobre sua vida como detetive, sobre como a cidade tinha sido um dia. De vez em quando, contava a ela coisas que a deixavam perturbada. Histórias sobre o rio, velhos boatos, contos desagradáveis há muito enterrados e agora desenterrados e ressuscitados, espalhados como verdades por Nel Abbott. Histórias sobre a família deles, revelações dolorosas. Mentiras, falsidades difamatórias, não? Patrick disse que não chegava a ser difamação, nada que pudesse ir parar num tribunal.

— As mentiras dela não vão chegar a ver a luz do dia. Eu vou me certificar disso — ele lhe disse.

Só que esse não era o problema. O problema, disse Patrick, era o dano que ela já havia causado — a Sean, à família.

— Você acha, sinceramente, que ele teria se comportado desse jeito se não tivesse sido por ela, enchendo a cabeça dele com essas histórias, fazendo-o duvidar de quem é, de onde vem? Ele mudou, não foi, querida? E foi ela que fez isso. — Helen temia que Patrick tivesse razão e que seu relacionamento nunca mais voltasse a ser como antes, mas ele lhe garantiu que voltaria. Também se certificaria disso. Ele apertava a mão dela e lhe agradecia por escutá-lo e beijava a sua testa e dizia: — Você é uma boa menina.

As coisas melhoraram por um tempo. Depois, pioraram. Pois justamente quando Helen voltou a dormir mais que duas horas seguidas, quando voltou a se pegar sorrindo para o marido como antigamente, quando sentiu a família retornar ao seu velho e confortável equilíbrio, Katie Whittaker morreu.

Katie Whittaker, a estrela da escola, uma aluna dedicada e educada, uma adolescente sem problemas — aquilo foi chocante, inexplicável. E a culpa era dela. Ela fracassara com Katie Whittaker. Todos tinham fracassado: seus pais, seus professores, a comunidade toda. Não haviam notado que a feliz Katie precisava de ajuda, que na verdade não estava feliz. Enquanto Helen andava sobrecarregada com problemas domésticos, atordoada pela insônia e atormentada por dúvidas, uma das adolescentes sob sua responsabilidade havia sucumbido.

Até Helen chegar ao supermercado, a chuva já havia parado. O sol tinha saído e o vapor emanava do asfalto, trazendo com ele o cheiro de terra. Helen vasculhou a bolsa atrás da lista: tinha de comprar carne para o jantar, legumes, feijão. Precisavam de azeite, de café e de cápsulas para a máquina de lavar.

De pé no corredor de enlatados, procurando pela marca de tomates picados que considerava mais saborosa, notou uma mulher se aproximar e percebeu, horrorizada, que era Louise.

Andando lentamente em sua direção, com a expressão vazia, Louise empurrava um carrinho gigantesco e praticamente vazio. Helen entrou em pânico e fugiu, abandonando o próprio carrinho e correndo para o estacionamento, onde se escondeu dentro do carro até ver o veículo de Louise passar pelo dela e pegar a rua.

Sentiu-se uma idiota e envergonhada — sabia que aquilo não era do seu feitio. Há um ano, não teria se comportado de maneira tão vergonhosa. Teria falado com Louise, apertado sua mão e perguntado pelo marido e pelo filho. Teria se comportado de maneira honrosa.

Helen não era mais a mesma. De que outra maneira podia explicar as coisas nas quais vinha pensando ultimamente, a forma como havia agido? Essa culpa toda, essa dúvida, era corrosiva. Ela a estava transformando, deturpando sua pessoa. Deixara de ser a mulher de antes. Sentia-se esvair, deslizar como se estivesse trocando de pele, e não gostava da carne por baixo, não gostava do cheiro que exalava. Fazia Helen se sentir vulnerável, deixava-a com medo.