Em Águas Sombrias
Setembro | Lena
PARTE QUATRO
SETEMBRO
Lena
ACHEI QUE NÃO ia querer ir embora, mas não consigo olhar para o rio todos os dias, atravessá-lo a caminho da escola. Nem sinto mais vontade de nadar nele. Já está muito frio agora, de qualquer forma. Nós vamos para Londres amanhã, minhas malas estão quase prontas.
A casa vai ser alugada. Eu não queria isso. Não queria gente morando nos nossos quartos e salas, preenchendo os nossos espaços, mas Jules disse que, se a gente não alugasse, a casa podia acabar sendo invadida, ou então as coisas podiam começar a se deteriorar e não ia ter ninguém por perto para consertar, e eu também não gostei dessa ideia. Então, concordei.
Ela vai continuar sendo minha. Mamãe a deixou para mim, então, quando eu fizer 18 anos (ou 21, sei lá), vai ser minha de verdade. Aí eu venho morar aqui de novo. Eu sei que venho. Vou voltar para cá quando não doer tanto quanto agora, e quando eu não vir mais a mamãe em todos os lugares para onde olho.
Estou com medo de ir para Londres, mas estou mais acostumada com a ideia agora. Jules (não Julia) é um bocado esquisita, sempre vai ser; é fodida da cabeça. Mas eu também sou um pouco estranha e fodida da cabeça, então talvez a gente fique bem. Tem coisas que gosto nela. Ela cozinha e é cheia de cuidados comigo, reclama de eu fumar, me faz avisar aonde estou indo e quando vou voltar. Como fazem as mães dos outros.
De qualquer forma, ainda bem que vamos ser só nós duas, nada de marido e, imagino, nada de namorados ou coisa do tipo, e pelo menos quando eu for para a minha escola nova ninguém vai saber quem eu sou nem nada a meu respeito. Você pode se reinventar, disse Jules, o que eu achei meio nada a ver porque, tipo, o que é que tem de errado comigo? Mas entendo o que ela quis dizer. Cortei meu cabelo curto e estou diferente agora. Quando eu começar na minha escola nova em Londres, não vou mais ser a garota bonita de quem ninguém gosta, vou ser só uma garota comum.