Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 42 de 91

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Em Águas Sombrias

Jules

 

VOCÊ ESTAVA INVENTANDO histórias. Reescrevendo a história, recontando-a do seu ponto de vista, a sua versão da verdade.

(Quanta arrogância, Nel. Mas que putaarrogância.)

Você não sabe o que aconteceu com Libby Seeton e certamente não sabe o que estava passando pela cabeça de Katie quando ela morreu. Suas anotações deixam isso claro:

 

Na noite do solstício de verão, Katie Whittaker se jogou no Poço dos Afogamentos. Suas

pegadas foram encontradas na faixa de areia da extremidade sul do poço. Ela usava um

vestido verde de algodão e uma corrente simples no pescoço com um pingente de

pássaro azul e as palavras “com amor” gravadas. Nas costas, carregava uma mochila

cheia de tijolos e pedras. Exames realizados após sua morte revelaram que estava sóbria e

sem vestígios de substâncias químicas no organismo.

Katie não tinha histórico de transtorno mental ou ferimentos autoinfligidos. Era boa

aluna, bonita e popular. A polícia não encontrou evidências de bullying, nem na vida

real nem nas redes sociais.

Katie vinha de um bom lar, de uma boa família. Katie era amada.

 

Eu estava sentada de pernas cruzadas no chão do seu estúdio, folheando a sua papelada na escuridão do início da noite, atrás de respostas. Atrás de alguma coisa . Em meio às anotações — fora de ordem e bagunçadas, com rabiscos quase ilegíveis nas margens, palavras sublinhadas em vermelho ou riscadas em preto — também havia fotos. Numa pasta de papel pardo vagabundo, encontrei ampliações em papel fotográfico de má qualidade: Katie com Lena, duas garotinhas sorrindo para a câmera, sem fazer beicinho, sem fazer pose, relíquias de uma era distante, inocente, pré-Snapchat. Flores e homenagens deixadas à beira do poço, ursinhos de pelúcia e bijuterias. Pegadas na areia à margem do poço. Não dela, imagino. Certamente não as pegadas da própria Katie. Não, devem ter sido a sua versão, uma reconstituição. Você seguiu os passos dela, não foi? Andou por onde ela andou, não pôde resistir a desfrutar a mesma sensação.

Sempre foi assim com você. Quando era mais nova, era fascinada pelo ato físico, pela estrutura da coisa, as entranhas. Fazia perguntas do tipo: será que dói? Por quanto tempo? Qual será a sensação de bater na água de uma determinada altura? Será que a gente sente o corpo quebrar? Você pensava menos, eu acho, sobre todo o resto: sobre o que levava uma pessoa a subir até o topo do penhasco, ou ir até a beira da faixa de areia, e a impelia a seguir adiante.

No fundo da pasta havia um envelope com o seu nome rabiscado na frente. Nele havia um bilhete em folha pautada, escrito numa caligrafia trêmula:

 

Eu estava falando sério ontem. Não quero que a tragédia da minha filha faça parte do

seu “projeto” macabro. Não é só por eu achar repugnante você ter ganho financeiro com

isso. Eu já lhe disse, várias vezes, que acho que o que você está fazendo é MUITO

IRRESPONSÁVEL e que a morte de Katie é a PROVA DISSO. Se você tivesse um pingo

de compaixão, deixaria de lado o que está fazendo agora, aceitaria que o que você

escreve, publica, diz e faz tem consequências. Não espero que você me dê ouvidos — já

que nunca pareceu fazer isso antes. Mas, se continuar por esse caminho, não tenho

dúvidas de que algum dia alguém a fará ouvir.

 

Não estava assinado, mas era óbvio que viera da mãe de Katie. Ela a alertou — e não foi só dessa vez. Na delegacia, ouvi a detetive perguntar a Lena sobre o incidente logo depois que Katie morreu, sobre como ela havia ameaçado você e dito que a faria pagar. Era isso que você queria me contar? Você estava com medo dela? Achou que ela iria atrás de você?

A ideia de que ela, uma mulher transtornada e louca de dor, estivesse perseguindo você — era apavorante, me deixou assustada. Eu não queria mais ficar aqui, em meio às suas coisas. Fiquei de pé e, ao fazê-lo, a casa pareceu se mover, adernar como um navio. Senti o rio empurrar a roda, instigando-a a girar, a água se infiltrando por rachaduras alargadas por algas cúmplices.

Pousei uma das mãos no arquivo-armário e subi a escada até a sala de estar, o silêncio zumbindo em meus ouvidos. Fiquei ali em pé por um segundo, os olhos se ajustando ao aumento da claridade, e, por um instante, estive certa de ter visto alguém, ali no banco da janela, no lugar onde eu costumava me sentar. Só por um segundo, então ela se foi, mas meu coração parecia espancar minhas costelas e meu couro cabeludo formigava. Alguém estava aqui, ou estivera aqui. Ou estava a caminho.

Com a respiração rápida e curta, eu praticamente corri até a porta da frente, que estava trancada, assim como eu a deixara. Mas na cozinha havia um cheiro estranho — uma coisa diferente, doce, como perfume — e a janela estava escancarada. Não me lembrava de tê-la aberto.

Fui até o congelador e fiz uma coisa que raramente faço — me servi de uma bebida: vodca gelada e viscosa. Enchi um copo e o bebi rapidamente; ela desceu queimando pela minha garganta e pelo meu estômago. Então servi uma segunda dose.

Minha cabeça rodou e eu me encostei na mesa da cozinha em busca de apoio. Estava esperando que Lena chegasse, acho. Ela havia desaparecido de novo, depois de recusar uma carona para casa. Parte de mim ficou aliviada — eu não queria ficar sozinha com Lena. Me convenci de que era porque eu estava zangada com ela — fornecendo remédio para emagrecer para outra menina, fazendo com que ela se envergonhasse do próprio corpo —, mas a verdade era que eu estava com medo do que a detetive tinha dito. Que Lena não está curiosa porque já sabe. Eu não conseguia parar de ver o rosto dela, naquela foto lá de cima, com os dentes afiados e o sorriso predatório. O que será que Lena sabe?

Voltei para o estúdio e me sentei no chão mais uma vez, juntei as anotações que havia tirado da pasta e comecei a rearrumá-las, tentando estabelecer algum tipo de ordem. Buscando encontrar algum sentido na sua narrativa. Quando cheguei à foto de Katie e de Lena, parei. Havia um borrão de tinta na superfície, logo abaixo do queixo de Lena. Virei a foto nas mãos. No verso, você havia escrito uma única frase. Eu a li em voz alta: Às vezes, mulheres encrenqueiras cuidam umas das outras.

O cômodo escureceu. Ergui a vista e um grito ficou preso na minha garganta. Eu não a ouvi, não tinha escutado a porta da frente abrir ou os passos atravessando a sala, ela simplesmente apareceu ali de repente, de pé no vão da porta, bloqueando a luz, e, do lugar onde eu estava sentada, a silhueta era a de Nel. Então a sombra entrou um pouco mais no estúdio e eu vi Lena, uma mancha de terra no rosto, as mãos imundas, os cabelos desarrumados.

— Com quem você está conversando? — perguntou ela. Trocava o peso de uma perna para a outra, parecia agitada, eufórica.

— Eu não estava conversando, estava...

— Estava, sim — ela deu uma risadinha. — Eu te ouvi. Com quem você estava... — Ela parou de falar nesse momento, e o meio sorriso sumiu de seus lábios quando notou a foto. — O que você está fazendo com isso?

— Eu só estava lendo... eu queria... — Não tive tempo de fazer com que todas as palavras saíssem da minha boca antes de ela estar bem na minha frente, me assomando. Eu me encolhi. Ela saltou em cima de mim e arrancou a foto das minhas mãos.

— O que você está fazendo com isso? — Ela tremia, os dentes cerrados, o rosto vermelho de raiva. Eu me levantei depressa. — Isto não tem nada a ver com você! — Ela me deu as costas, colocou a foto de Katie na mesa e a alisou com a palma da mão. — Que direito você tem de fazer isso? — perguntou ela, virando-se outra vez para me olhar, a voz trêmula. — De revirar as coisas dela, de encostar nas coisas dela? Quem te deu permissão para fazer isso?

Ela deu um passo na minha direção, chutando o copo de vodca. Ele saiu voando e se espatifou na parede. Ela caiu de joelhos e começou a juntar as anotações que eu vinha organizando.

— Você não devia estar tocando nisso! — Ela quase cuspia de tanta raiva. — Isto não tem nada a ver com você!

— Lena — comecei —, não.

Ela recolheu o braço de repente e gemeu de dor. Sua mão havia sido furada por um caco de vidro e começou a sangrar. Ela pegou uma pilha de papéis e os levou ao peito.

— Venha aqui — pedi, tentando tirar os documentos dela. — Você está sangrando.

— Fique longe de mim! — Ela empilhou os papéis na mesa.

Meu olhar foi atraído pela mancha de sangue na página de cima e pelas palavras impressas logo abaixo: Prólogo, em negrito, e abaixo disso: Quando eu tinha 17 anos, salvei minha irmã de um afogamento.

Senti uma gargalhada histérica subir pela garganta; ela explodiu de dentro de mim com tanta intensidade que Lena deu um pulo. Ela me fitou assombrada. Eu ri ainda mais, da expressão de fúria no seu lindo rosto, do sangue que pingava dos seus dedos até o chão. Ri até as lágrimas brotarem nos meus olhos, até tudo ficar embaçado, como se eu estivesse submersa.