Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 48 de 91

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Em Águas Sombrias

O Poço dos Afogamentos | Anne Ward, 1920

O Poço dos Afogamentos

 

Anne Ward, 1920

 

Já estava dentro de casa. Estava, sim. Não havia nada o que temer do lado de fora, o perigo estava lá dentro, à espreita, vinha esperando ali desde o dia que ele voltou para casa.

No fim das contas, no entanto, para Anne não era o medo, era a culpa. Era a consciência, fria e dura como um seixo recolhido do riacho, daquilo que ela desejava, do sonho que se permitia ter à noite quando o pesadelo real da sua vida se tornava demais. O pesadelo era ele, deitado ao seu lado na cama, ou sentado em frente à lareira com as botas nos pés, o copo na mão. O pesadelo era quando ela o pegava a observá-la, e via o asco em seu rosto, como se ela fosse fisicamente repugnante. Não era só ela, sabia disso. Eram todas as mulheres, todas as crianças, os velhos, todos os homens que não haviam se juntado à luta. Ainda assim, doía ver, sentir — com mais força e mais clareza do que qualquer coisa que ela havia sentido em toda a sua vida — o quanto ele a odiava.

Mas ela não podia dizer que não merecia aquilo, podia?

O pesadelo era real, morava na sua casa, mas era o sonho que a assombrava, o que ela se permitia almejar. No sonho, estava sozinha em casa; era o verão de 1915 e ele acabara de partir. No sonho, era fim de tarde, a luz apenas começava a mergulhar por trás da encosta do outro lado do rio, a escuridão assomando pelos cantos da casa, então alguém batia à porta. Um homem a aguardava, de farda, e lhe entregava um telegrama, e ela sabia então que o marido nunca mais voltaria. Quando sonhava acordada com aquilo, não se importava muito em saber como tinha acontecido. Não se importava se ele tinha morrido como herói, salvando um amigo, ou como um covarde, fugindo do inimigo. Não se importava, contanto que ele estivesse morto.

Teria sido mais fácil para ela. Essa era a verdade, não era? Então por que ele não haveria de odiá-la? Se ele tivesse morrido por lá, ela teria chorado a sua perda, as pessoas teriam sentido pena dela, a mãe, suas amigas, os irmãos dele (se sobrasse algum). Todos teriam ajudado, teriam se unido e ela teria superado. Teria permanecido um bom tempo de luto, mas aquilo teria tido um fim. Ela faria 19, 20, 21 anos e teria uma vida inteira pela frente.

Ele tinha razão em odiá-la. Três anos, ele passara quase três anos por lá, se afogando na merda e no sangue de homens cujos cigarros ele havia acendido, e agora ela desejava que ele nunca tivesse voltado; amaldiçoava o dia em que aquele telegrama não chegara.

Ela o amara desde os 15 anos, não conseguia lembrar como era a vida antes dele. Ele tinha 18 anos quando a guerra começou e 19 quando partiu, e voltava mais velho a cada vez, não meses mais velho, mas anos, décadas, séculos.

Da primeira vez, no entanto, ainda era o mesmo. Chorara noite adentro, tremera como um homem febril. Dissera a ela que não podia voltar, que tinha muito medo. Na véspera de quando deveria voltar, ela o encontrou na beira do rio e o arrastou para casa. (Não deveria ter feito isso. Devia tê-lo deixado ir.) Fora egoísmo de sua parte tentar detê-lo. Agora, veja o que ela havia causado.

Da segunda vez que voltou para casa, ele não chorou. Estava calado, fechado, mal olhou para ela, a não ser de soslaio, por baixo de pálpebras pesadas, e nunca quando estavam na cama. Ele a virava de costas e não parava nem quando ela implorava, nem quando sangrava. Ele a odiava naquela época, já a odiava; ela não percebeu de início, mas, quando ela lhe contou o quanto ficava triste pela forma como estavam tratando aquelas meninas na cadeia, sobre os objetores de consciência e tudo mais, ele lhe deu um tapa no rosto, cuspiu nela e a chamou de maldita vagabunda traidora.

Da terceira vez que voltou para casa, só seu corpo retornou.

E ela sabia que ele não voltaria mais. Não havia mais nada do homem que havia sido um dia. E ela não podia partir, não podia ir embora e se apaixonar por outro alguém porque ele era tudo o que havia existido para ela e agora ele se fora... Mas continuava sentado em frente à lareira com as botas nos pés, bebendo e bebendo e olhando para ela como se fosse o inimigo, e ela queria estar morta.

Que tipo de vida era aquela?

Anne desejava que pudesse ter tido outro jeito. Desejava ter conhecido os segredos que as outras mulheres conheciam, mas Libby Seeton já estava morta fazia muito e os carregara junto com ela. Anne sabia algumas coisas, claro, a maioria das mulheres do vilarejo sabia. Elas sabiam quais cogumelos colher e quais deixar de lado, haviam sido advertidas sobre a linda mulher, a beladona, instruídas a nunca, nunca tocá-la. Ela sabia onde crescia no bosque, mas também sabia o que ela provocava e não queria que ele morresse dessa maneira.

Ele sentia medo o tempo todo. Ela percebia, via isso nele sempre que arriscava um olhar em sua direção: os olhos grudados na porta, a maneira como olhava para o anoitecer, tentando enxergar para além da linha das árvores. Ele tinha medo e esperava a chegada de algo. E o tempo todo procurava no lugar errado, pois o inimigo não estava lá fora, já havia entrado, estava dentro de sua casa. Sentado à frente da lareira.

Ela não queria que ele sentisse medo. Não queria que ele visse a sombra despencar por cima dele, então esperou que pegasse no sono, sentado em sua poltrona com as botas nos pés, a garrafa vazia ao lado. Foi rápida e silenciosa. Encostou a lâmina na nuca e a enfiou ali com tanta força que ele nem chegou a acordar direito, e partiu para sempre.

Melhor assim.

O que ficou foi uma sujeira dos diabos, é claro que ficou, então, em seguida, ela foi ao rio e lavou as mãos.