Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 27 de 91

Páginas do PDF

Em Águas Sombrias

Lena

 

ESTA MANHÃ, EU me senti feliz. Estava deitada na cama, já livre das cobertas. Dava para sentir o calor aumentando e eu soube que ia ser um dia lindo. Dava para ouvir a mamãe cantar. Aí, eu acordei.

O vestido que eu pretendia usar estava pendurado atrás da porta do meu quarto. Pertencia à mamãe, um Lanvin. Nunca, nem em um milhão de anos, ela me deixaria usá-lo, mas acho que hoje ela não ligaria. Não tinha sido lavado desde a última vez que ela o havia usado, então ainda estava com o cheiro dela. Quando o vesti, foi como ter a pele dela encostada na minha.

Lavei e sequei o cabelo, então o prendi. Costumo usá-lo solto, mas a mamãe gostava dele preso. Totes sophis, dizia daquele jeito dela quando queria que eu revirasse os olhos. Quis entrar no quarto dela para procurar a pulseira — sabia que ia estar ali em algum lugar —, mas não consegui.

Não consigo entrar no quarto dela desde que morreu. A última vez que estive lá foi no domingo passado à tarde. Eu estava de saco cheio e triste por causa da Katie, então fui ao quarto dela procurar erva. Não encontrei nenhuma na mesinha de cabeceira, então comecei a vasculhar os bolsos dos casacos dentro do armário porque, de vez em quando, é onde ela guardava uns troços. Não esperava que ela estivesse em casa. Quando ela me pegou, não pareceu ficar puta, só meio triste.

— Nem pense em me dar bronca — fui avisando. — Estou procurando o bagulho no seu quarto. Então você não pode ficar puta comigo. Isso faria de você uma hipócrita de marca maior.

— Não — disse ela —, faria de mim um adulto.

— Dá no mesmo — retruquei, e ela riu.

— É, talvez, mas o fato é que eu posso fumar e beber, e você, não. Mas por que você quer ficar chapada no meio de uma tarde de domingo? E sozinha? Meio triste, não é? — Então, ela continuou: — Por que não vai nadar, ou algo assim? Por que não liga para alguma amiga?

Pirei com ela porque parecia que estava dizendo o tipo de coisa que Tanya e Ellie e aquele monte de vagabundas falam sobre mim — que sou deprê, que não presto para nada, que não tenho amigos agora que a única pessoa que gostava de mim se matou. Aí comecei a berrar:

— Que amiga, porra? Eu não tenho nenhuma, esqueceu? Não lembra do que aconteceu com a minha melhor amiga?

Ela ficou superquieta e ergueu as mãos do jeito que faz — fazia — quando não quer brigar. Mas eu não recuei, simplesmente não quis recuar. Comecei a berrar sobre como ela nunca estava em casa, sobre como vivia me deixando sozinha, sobre como ficava sempre tão distante que parecia não me querer por perto. Ela balançava a cabeça e dizia:

— Não é verdade, não é verdade. Sinto muito se tenho andado distraída, mas é que tem umas coisas acontecendo que eu não posso explicar. Tem uma coisa que eu preciso fazer e não posso explicar como é difícil.

Fui fria com ela.

— Você não precisa fazer nada, mãe. Posso jurar que você me prometeu que ia ficar de boca fechada. Então, você não precisa fazer nada. Credo, será que você já não fez o bastante?

— Lenie — ela começou —, Lenie, por favor. Você não sabe de tudo. Eu sou sua mãe, você precisa confiar em mim.

Então eu disse umas coisas bem escrotas, sobre como ela nunca tinha sido uma boa mãe, que tipo de mãe deixa erva dando sopa em casa e leva homens para lá à noite e me deixa ouvir tudo? Eu disse a ela que, se fosse o contrário, se eu é que tivesse me metido em encrenca como a Katie, Louise teria sabido o que fazer, ela teria agido como mãe, teria feito alguma coisa e ajudado. E era tudo um monte de asneira, claro, porque fui eu que não quis que a mamãe dissesse nada e ela chamou atenção para isso e então lembrou que, de qualquer forma, tinha tentado ajudar. Aí eu simplesmente comecei a gritar, a dizer que era tudo culpa dela, e que se abrisse aquela boca grande para qualquer um eu ia embora e nunca mais falava com ela. Repeti um monte de vezes: Você já causou estragos demais. A última coisa que eu disse para ela foi que a culpa de Katie estar morta era dela.