Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 39 de 91

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Em Águas Sombrias

Lena

 

POR QUE OS adultos sempre fazem as perguntas erradas? Os comprimidos. Agora é disso que não param de falar. Daquelas merdas de comprimidos idiotas para emagrecer — eu até tinha me esquecido de que os havia comprado de tanto tempo que faz. E agora decidiram que OS COMPRIMIDOS SÃO A RESPOSTA PARA TUDO, então tive de ir à delegacia — com Julia, que vem a ser meu adulto responsável. Isso me fez rir. Ela é, tipo, o adulto menos responsável possível para esta situação em particular.

Eles me levaram para uma sala nos fundos da delegacia que não era nada parecida com as que a gente vê na televisão, era só uma sala normal. Todos nos sentamos ao redor de uma mesa e aquela mulher — a detetive-sargento Morgan — fez as perguntas. A maioria. Sean também fez algumas, mas a maioria foi ela.

Contei a verdade. Comprei os comprimidos com o cartão da mamãe porque Katie me pediu e nem ela nem eu sabíamos que faziam mal. Ou eu, pelo menos, não sabia, e se Katie tinha alguma ideia disso, nunca me contou.

— Você não parece especialmente preocupada — comentou a sargento Morgan — com a possibilidade de esses comprimidos terem contribuído para o estado mental negativo de Katie no fim de sua vida?

Eu quase fiz um buraco na língua com os dentes.

— Não — falei —, eu não estou preocupada com isso. Katie não fez o que fez por causa de comprimido nenhum.

— Então foi por quê?

Eu devia ter sabido que ela não ia deixar o comentário passar batido, então fui em frente.

— Ela nem tomou muitos. Alguns, provavelmente, não mais que quatro ou cinco. Conte os comprimidos — falei para Sean. — Tenho quase certeza de que o pedido foi de trinta e cinco. Contem.

— Nós vamos contar — disse ele. Então, perguntou: — Você forneceu comprimidos para mais alguém? — Eu fiz que não com a cabeça, mas ele não deixou por aí. — Isto é importante, Lena.

— Eu sei que é — respondi. — Foi a única vez que comprei. Estava fazendo um favor para uma amiga. Só isso. Sério.

Ele se recostou de volta na cadeira.

— Está bem — disse ele. — O que eu não entendo é por que Katie iria querer tomar esse tipo de comprimido para início de conversa. — Ele olhou para mim, depois para Julia, como se ela talvez soubesse a resposta. — Ela não estava acima do peso, nem nada.

— Bem, ela também não era magra — observei, e Julia fez um barulho engraçado que pareceu ser um misto de bufada com risada, e, quando a encarei, Julia me olhava como se me odiasse.

— As pessoas diziam isso para ela? — perguntou a sargento Morgan. — Na escola? Faziam comentários sobre o corpo dela?

— Meu Deus! — Estava sendo muito difícil eu não perder a calma. — Não. Katie não estava sofrendo bullying. Querem saber de uma coisa? Ela costumava me chamar de piranha magrela o tempo todo. Ria de mim porque, sabe... — Fiquei envergonhada por Sean estar olhando para mim, mas eu tinha começado então ia ter de terminar. — Porque eu não tenho peito. Então ela me chamava de piranha magrela e eu respondia com vaca gorda e nenhuma das duas estava falando sério.

Eles não entenderam. Nunca entendem. E o problema era que eu não tinha como explicar aquilo muito bem. De vez em quando, nem eu mesma entendia direito, porque, apesar de Katie não ser magra, ela não ligava para isso. Nunca falava desse assunto do jeito que as outras garotas falavam. Eu nunca nem tive de tentar, mas Amy, Ellie e Tanya, sim. Viviam cortando carboidratos, fazendo jejum, vomitando ou sei lá que merda. Mas Katie não estava nem aí, ela gostava de ter peitos. Gostava da aparência do corpo dela, ou pelo menos sempre tinha gostado. Aí — eu sinceramente não sei o que foi que rolou — algum comentário idiota no Insta ou uma observação imbecil de algum troglodita na escola, e ela ficou toda esquisita. Foi então que me pediu para comprar os comprimidos. Mas, quando eles chegaram, ela já parecia ter superado aquela fase — e me contou que não funcionavam de qualquer jeito.

Achei que a entrevista tinha terminado. Achei que tinha dado o meu recado, mas aí a sargento Morgan pegou uma tangente completamente diferente, me perguntando sobre o dia em que Louise passou na nossa casa logo depois que Katie morreu. Eu fiquei, tipo, sim, é claro que eu me lembro desse dia. Foi um dos piores dias da minha vida. Ainda fico mal só de pensar nele.

— Eu nunca vi nada parecido com aquilo — contei a eles —, com o jeito como Louise estava naquele dia.

Ela fez que sim com a cabeça, então perguntou, toda sincera e preocupada:

— Quando Louise disse para sua mãe que “não ia sossegar até ver Nel pagar”, como você reagiu? O que você achou que ela quis dizer com isso?

Foi aí que eu perdi a cabeça.

— Ela não quis dizer nada com isso, sua idiota de merda.

— Lena — Sean estava me olhando de cara feia. — Olha a boca, por favor.

— Tá, foi mal, mas pelo amor de Deus! A filha da Louise tinha acabado de morrer, ela nem sabia direito o que estava dizendo. Estava louca.

Eu estava pronta para ir embora, mas Sean me pediu para ficar.

— Mas eu não tenho que ficar, tenho? Não estou presa, estou?

— Não, Lena, é claro que não — respondeu ele.

Eu me dirigi a Sean, porque ele entendia.

— Olha, a Louise não estava falando sério. Ela estava completamente histérica. Fora de si. Você se lembra, não lembra? De como ela ficou? Quer dizer, é claro que ela estava dizendo várias coisas, todos nós estávamos. Acho que todos ficamos meio doidos depois que a Katie morreu. Mas, pelo amor de Deus, Louise não fez nada com a mamãe. Sinceramente, acho que, se ela tivesse um revólver ou uma faca naquele dia, até podia ser. Mas não tinha.

Eu queria contar toda a verdade. Queria, mesmo. Não para a detetive, nem para Julia, mas para Sean. Só que eu não podia. Teria sido uma traição, e depois de tudo o que eu tinha feito, não podia trair Katie agora. Então contei tudo o que dava para contar.

— Louise não fez nada com a minha mãe, tá? Não fez. A mamãe fez a escolha dela.

Eu me levantei para sair, mas a sargento Morgan ainda não tinha terminado. Olhava para mim com uma expressão estranha no rosto, como se não tivesse acreditado em uma única palavra do que eu tinha dito, então falou:

— Você sabe o que eu acho estranho, Lena? Você não parece nem um pouco curiosa para saber o motivo pelo qual Katie fez o que fez, ou o motivo pelo qual sua mãe fez o que ela fez. Quando alguém morre dessa forma, a pergunta que todo mundo se faz é por quê? Por que fariam uma coisa dessas? Por que tirariam a própria vida quando tinham tantos motivos para viver? Mas você, não. E o único motivo, o único motivo, que me ocorre para isso é que você já sabe.

Sean me pegou pelo braço e me conduziu para fora da sala antes que eu pudesse dizer alguma coisa.