Em Águas Sombrias

Paula Hawkins · Capítulo 59 de 91

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Em Águas Sombrias

Lena

 

SENTI MEDO QUANDO voltei a mim, eu não sabia onde estava. Não conseguia enxergar nada. Estava tudo escuro. Mas eu me dei conta, pelo barulho, pelo movimento e pelo cheiro de gasolina, de que estava num carro. Minha cabeça doía muito, minha boca também, estava quente e abafado e tinha alguma coisa me incomodando nas costas, uma coisa dura, como uma fechadura de metal. Tateei por trás do corpo tentando alcançá-la, mas estava presa a alguma outra coisa.

Era uma pena, porque eu precisava de uma arma agora.

Eu estava assustada, mas sabia que não podia permitir que o medo me dominasse. Precisava pensar com clareza. Com clareza e rapidez, porque, mais cedo ou mais tarde, o carro ia parar, e então ia ser ele ou eu, e não havia a menor chance de ele conseguir dar fim em Katie e na mamãe e em mim. Nem fodendo. Eu tinha de acreditar, tinha de ficar dizendo para mim mesma sem parar: isso vai terminar comigo viva e com ele morto.

Desde que Katie morreu, eu tenho pensado em várias formas de fazer Mark Henderson pagar pelo que fez, mas nunca pensei em assassinato. Pensei em outras coisas: em pintar palavras nas paredes da casa dele, em quebrar os vidros de suas janelas (missão cumprida), em ligar para a namorada dele e contar tudo o que Katie tinha me contado: quantas vezes, onde, quando. De como ele gostava de chamá-la de “queridinha do fessor”. Pensei em juntar alguns alunos do último ano para encherem ele de porrada. Pensei em cortar o pinto dele fora e fazer com que o engolisse. Mas não pensei em matá-lo. Até hoje.

Como foi que acabei aqui? Não acredito que pude ser tão burra a ponto de deixá-lo levar vantagem. Eu nunca deveria ter ido à casa dele, não sem um plano bem elaborado, não sem saber exatamente o que eu ia fazer.

Eu nem pensei, fui fazendo as coisas enquanto iam acontecendo. Sabia que ele estava para voltar das férias — tinha ouvido Sean e Erin comentando. Aí, depois de tudo o que Louise disse, e depois da conversa que eu tive com Julia sobre como não era culpa minha nem da mamãe, eu pensei, quer saber? Chegou a hora. Eu só queria ficar na frente dele e fazê-lo assumir um pouco da culpa. Queria que ele admitisse, que admitisse o que tinha feito e que era errado. Então fui até lá, e, como já tinha mesmo quebrado o vidro da janela da porta dos fundos, foi fácil entrar.

A casa estava com cheiro de sujeira, como se ele tivesse ido viajar sem jogar o lixo fora ou coisa assim. Por um tempo, fiquei só na cozinha e usei a lanterna do celular para dar uma olhada em volta, mas aí decidi acender a luz do teto porque não dava mesmo para ver da rua, e, mesmo que os vizinhos vissem, iam achar que ele tinha voltado.

Estava com cheiro de sujeira porque estava suja. Nojenta, na verdade — louça por lavar dentro da pia, embalagens de refeições semiprontas com restos de comida grudada, todas as superfícies cobertas de gordura. E uma porrada de garrafas de vinho tinto vazias na pilha de reciclagem. Não era como eu tinha imaginado. Pelo jeito dele na escola — sempre bem-vestido, com as unhas limpas e bem aparadas —, imaginei que teria mania de limpeza.

Passei para a sala de estar e dei uma olhada geral, voltando a usar o celular — não acendi a luz de lá porque podia dar para ver da rua. Era tudo tão comum. Móveis vagabundos, um monte de livros e de CDs, nenhum quadro nas paredes. A sala era feia, suja e sem graça.

O segundo andar era pior. O quarto, asqueroso. A cama estava desarrumada, os guarda-roupas, abertos, e fedia — diferente de lá debaixo, ali o cheiro era azedo, suarento, como o odor de um animal doente. Fechei as cortinas e acendi o abajur da mesa de cabeceira. Era mesmo pior do que o andar de baixo, parecia o lugar onde uma pessoa bem idosa moraria — paredes amareladas e feias, cortinas marrons, roupas e papéis espalhados pelo chão. Abri a gaveta e encontrei tampões de ouvido e cortadores de unha. Na gaveta de baixo tinha camisinhas, lubrificante e algemas de pelúcia.

Fiquei enjoada. E me sentei na cama. Nessa hora, notei que o lençol tinha soltado do colchão no canto oposto e pude ver uma mancha marrom por baixo. Cheguei a achar mesmo que ia vomitar. Foi doloroso, fisicamente doloroso, pensar em Katie aqui, com ele, neste quarto horrendo, nesta casa repugnante. Eu estava pronta para ir embora. Tinha sido uma péssima ideia de qualquer maneira, ir lá sem um plano. Apaguei a luz e desci, e já estava quase na porta dos fundos quando ouvi um barulho lá fora, passos no caminho que conduzia à porta. Então ela se abriu e lá estava ele. Estava feio, o rosto e os olhos vermelhos, a boca aberta. Eu simplesmente voei em cima dele. Me deu vontade de arrancar os olhos daquela cara feia, me deu vontade de ouvi-lo gritar.

Não sei o que aconteceu depois. Ele caiu, acho, e eu fiquei de joelhos, e alguma coisa escorregou pelo chão na minha direção. Um objeto de metal, como uma chave. Estendi a mão para pegar o objeto e descobri que não era dentado, mas, sim, liso. Um círculo. Um círculo de prata com um fecho de ônix preto. Eu o virei na mão. Dava para ouvir o relógio da cozinha fazer tique-taque bem alto e o ruído da respiração de Mark.

— Lena — disse ele. Eu ergui a vista e meus olhos cruzaram com os dele. Vi que estava com medo. Fiquei de pé. — Lena — repetiu ele, dando um passo na minha direção.

Eu sorria por dentro porque, pelo canto do olho, tinha visto outra coisa prateada, uma coisa pontuda, e sabia exatamente o que ia fazer. Eu ia respirar fundo e me controlar e esperar até ele dizer o meu nome mais uma vez, então ia pegar a tesoura que estava em cima da mesa da cozinha e enfiá-la na merda do pescoço dele.

— Lena — disse ele, tentando me segurar, e tudo aconteceu muito rápido depois disso.

Eu peguei a tesoura e o ataquei, mas ele é mais alto que eu e seus braços estavam erguidos e eu devo ter errado, não devo? Porque ele não está morto, está dirigindo, e eu estou presa aqui dentro com um galo na cabeça.

Comecei a gritar, inutilmente, porque, sério, quem ia me ouvir? Eu sentia que o carro estava indo rápido, mas berrei mesmo assim: Me deixa sair, me deixa sair, seu filho da puta imbecil! Eu esmurrava a tampa da mala do carro acima da minha cabeça, berrando o mais alto que conseguia, e, então, de repente, bum! O carro parou e eu dei uma porrada no canto da mala, então me permiti chorar.

Não foi só de dor. Por algum motivo fiquei pensando em todas aquelas janelas que a gente tinha quebrado, Josh e eu, e no quanto aquilo teria entristecido Katie. Ela detestaria isso tudo: odiaria que o irmão tivesse que contar a verdade depois de passar meses mentindo, odiaria me ver machucada desse jeito, mas, acima de tudo, ela detestaria aquelas janelas quebradas, porque era o que metia pavor nela. Janelas quebradas, pedófilo rabiscado nas paredes, merda enfiada pela caixa de correio, jornalistas na calçada e gente cuspindo e atirando pedras.

Eu chorei de dor e chorei porque me senti mal por Katie, pelo quanto isso teria partido o coração dela. Mas você quer saber de uma coisa, K? Eu me vi cochichando para Katie como uma maluca, igual a Julia sussurrando sozinha na escuridão. Eu sinto muito. Sinto, mesmo, porque não é isso que ele merece. Eu posso dizer isso agora, porque você se foi e eu estou deitada na mala do carro dele com a boca sangrando e um talho na cabeça, então posso dizer isso categoricamente: Mark Henderson não merece ser perseguido ou espancado. Ele merece coisa pior. Eu sei que você o amava, mas ele não estragou só a sua vida, não, estragou a minha, também. Ele matou a minha mãe.